Pelada de craques

Quem é tricolor vai se lembrar.

Depois de dois rebaixamentos sucessivos, o Fluminense – um dos quatro grandes do futebol carioca – caíra para a Segunda Divisão do Brasileiro. Como desgraça pouca é bobagem, ao rebaixamento da Série A seguiu-se o da Série B. O time atingira o fundo do poço; estava na Série C do Brasileirão. Pouco mais de duas décadas após embasbacar a torcida com a “Máquina Tricolor”, o Fluminense experimentaria o inferno das divisões inferiores dos campeonatos da CBF.

No meio da confusão, a incompetente diretoria de então resolveu fazer uma “jogada de marketing”. No mundo da bola, a expressão quase sempre é sinônimo de contratação de um jogador “consagrado”. E, no mais das vezes, a “consagração” traduz-se em um boleiro em fim de carreira, com muita história, mas pouco futuro. Nesse caso, o marketing atendeu pelo nome de um ex-goleiro do Corinthians: Ronaldo.

Não que tivesse sido um mal goleiro, muito pelo contrário. Ronaldo não fazia feito debaixo do travessão. Mas a identificação com a torcida corintiana era tal que era difícil imaginar o arqueiro jogando em outro clube. Pior. Para um clube que fora rebaixado porque não conseguiu fazer gols na frente, a única contratação de peso do time foi justamente para a posição que não jogava nas quatro linhas.

Instaurou-se, então, a polêmica: “Acertou o Fluminense ao contratar Ronaldo?”; “Ronaldo vai tirar o Fluminense da Série C?”; “Esperanças renovadas; Fluminense contrata Ronaldo”; e por aí vai.

Nas mesas redondas da televisão não se falava em outro assunto. Numa das mais famosas da época, Gérson – o Canhotinha de Ouro – vociferava contra a contratação do arqueiro. Do outro lado, Mauro Beting defendia a reformulação levada a cabo pela diretoria, argumentando que Ronaldo agregaria experiência a um time que enfrentaria as profundezas da Série C. E terminou seu discurso com o indefectível bordão futebolístico:

“Um grande time começa com um grande goleiro”.

Tricolor histórico, Gérson não engoliu o palavrório:

“Você não entende nada, Mauro. ‘Um grande time começa com um grande goleiro’. Quer ver só como não começa?!?”, desafiou Gérson.

“Diga lá”, respondeu Mauro, pagando pra ver.

“Imagine que nós dois estamos na praia pra disputar uma pelada. Nós dois somos os capitães do time. A gente joga a moedinha pra cima e você ganha. Quem é a primeira pessoa que você escolhe para o seu time?”, perguntou o Canhotinha, já sabendo a resposta.

“Ronaldo, vai”, disse Mauro. “E você tira quem?”

“Pelé!”, respondeu sorrindo Gérson.

Papo encerrado.

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