O separatismo catalão, ou A desintegração da Espanha

Volta e meia a crise européia aparece por aqui. Embora os temas abordados sejam diferentes, o pano de fundo é sempre o mesmo: a corrosão do tecido social provocado por uma ortodoxia financeira suicida.

Como sói acontecer em todos os tempos e em todas as épocas, sempre que uma crise econônomica eclode, desperta-se na população seus instintos mais primitivos. E, no caso espanhol, esses instintos atendem por um nome: separatismo.

Nada de novo. Afinal, se há um país onde o separatismo sempre foi uma marca da população, esse país é a Espanha. Galícia, País Basco e, claro, a Catalunha nunca se conformaram em fazer parte do mesmo país. Por diferentes motivos e com graus de violência distintos, a mensagem dessas três províncias é uma só: Esto no es España.

Mais até do que no caso da Galícia e do País Basco, o separatismo catalão atinge o âmago do estado espanhol.

Primeiro, porque a Catalunha faz parte da Espanha desde que Fernando II, rei da Coroa de Aragão, casou-se com Isabel, a Católica, rainha de Castela. Foi o casamento dos dois que promoveu a unificação dos reinos de Castela, Leão, Navarra e Aragão, representados por seus símbolos no brasão de armas presente na bandeira espanhola. A Catalunha, pois, foi peça fundamental na fundação da monarquia espanhola.

Segundo, porque se trata do estado mais rico do país. Seria o mesmo que retirar São Paulo do Brasil. Um quarto do PIB iria embora, assim como grande parte do dínamo econômico que move o restante da economia do país. Isso para não falar da força de seu turismo, capitaneado pela belíssima Barcelona, sua capital. Para a já combalida economia espanhola, a separação da Catalunha seria um tiro fatal.

Nessa quadra, a primeira pergunta que vem à cabeça é: os catalães têm razão em querer se separar da Espanha?

Do ponto de vista histórico, o separatismo tem lá sua razão de ser. Durante a Guerra Civil Espanhola, os catalães aproveitaram a balbúrdia para declarar-se independentes e proclamar uma república. A reação dos militares foi brutal. Após o fim da Guerra Civil, a autonomia maior conferida à Catalunha foi retirada, e os catalães passaram 40 e poucos anos comendo o pão que Franco amassou. Até mesmo a língua catalã foi banida; era proibido ensiná-la.

Do ponto de vista econômico, a independência da Catalunha seria uma separação de afogados. Se Espanha e Catalunha conseguem manter seu nariz acima do nível da água mal e porcamente juntos, separados submergeriam como bigornas lançadas ao mar.

Há pouco tempo, a Catalunha teve de pedir socorro ao estado espanhol. Precisava de EU$ 5 bilhões para fechar as contas. Seus gastos previdenciários são muitos superiores à arrecadação. Fora isso, é a província mais endividada do país. Se hoje a Espanha tem dificuldade para rolar sua dívida, não é muito difícil imaginar que a Catalunha, nesse estado, sofreria bem mais para rolar seus débitos.

Como se todos esses problemas não bastassem, como país novo, a Catalunha teria de passar por um processo de incorporação à União Européia. Deixaria de poder usar o Euro e não teria acesso às facilidades que o mercado comum europeu confere aos seus integrantes. Até que isso acontecesse, pode-se imaginar uma convulsão social à la grega em terras catalãs.

Olhando a situação desde o Brasil, penso eu que o melhor que catalães, bascos e galegos poderiam fazer é unir seus esforços para tirar a Espanha do atoleiro. Querendo ou não, estão todos no mesmo barco. A onda separatista só favorece o ressentimento entre as diversas regiões espanholas e desvia o foco das decisões políticias. Enquanto todos deveriam estar ligados na tentativa de recuperar a economia, ficam arquitetando estratégias para separar-se, de um lado, e para impedir a separação, do outro.

A meu ver, falta aos catalães a sabedoria de Vinícius de Moraes. Como diria o poetinha, também nas relações entre províncias  é melhor se sofrer junto do que ser feliz sozinho.

Esse post foi publicado em Política internacional e marcado , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para O separatismo catalão, ou A desintegração da Espanha

  1. Josep A. Vidal disse:

    És d’agrair l’interès per Catalunya des de la distància i sobretot si es fa amb voluntat amical i de concòrdia. I és cert que cadascú pot opinar basant-se en el que sap d’un tema, encara que en sàpiga poc o utilitzi informacions errònies o poc documentades. Però si el que es ptetén és analitzar un tema, arribar a conclusions, dictaminar sobre una situació de conflicte i fer recomanacions, aleshores és obligat documentar-se amb rigor, perquè no n’hi ha prou amb quatre dades imprecises o inexactes. I també cal deixar de banda els prejudicis ahistòrics que difon la propaganda política de qualsevol de les parts interessades. Rigor, criteri i objectivitat crítica… I prudència i inteŀligència política.

    • arthurmaximus disse:

      Qual o sentido de escrever um texto ao qual somente uma ínfima parte da população mundial conseguirá ler, ainda mais quando a língua oficial do site é o português? Se quiser criticar, da próxima vez escreva em vernáculo, ou, se quiser, em alguma das línguas verdadeiramente universais do planeta. #FicaaDica

      • J. A. Vidal disse:

        Denostar una llengua és una exhibició d’ignorància. La ignorància és disculpable, però exhibir-la és una estupidesa, i fer-ho amb arrogància i menysteniment és un indicador inequívoc de pobresa argumental i de baixa qualitat democràtica, a més de propi d’un pensament i un esperit miserables.

      • arthurmaximus disse:

        O sujeito escreve numa língua que ninguém entende, é orientado a expor argumentos em qualquer das línguas verdadeiramente universais para dar espaço à contra-argumentação, insiste em manter a posição anterior e eu é que demonstro “ignorância” e “baixa qualidade democrática”?
        E o que é pior: tanto na oportunidade anterior como agora, não se dedicou a citar um único e “miserável” argumento objetivo quanto aos supostos erros do artigo.
        Faça um favor para nós: vá aprender as regras básicas de convivência e da argumentação dialética. Do contrário, fique confinado ao seu pequeno e limitado mundo.

  2. J. A. Vidal disse:

    Li agraeixo la seva atenció i celebro que malgrat escriure en una llengua que ningú no entén, m’hagi entès vostè tan clarament. Estic segur que allò que vostè anomena “universal” no està en la superfície de les llengües ni en el nombre de persones que les parlen. Vostè m’entén i jo l’entenc perquè emprem llengües germanes. Jo estimo la seva llengua perquè no fer-ho seria trair la meva pròpia llengua, el llegat cultural que vostè i jo compartim i un continu humanístic que cohesiona les nostres respectives identitats en una supraidentitat comuna. Si entenem això no parlarem mai amb menysteniment de les llengües, del pobles ni de les persones.
    Com pot veure, els meus comentaris van signats amb el meu nom. No tinc necessitat d’amagar-me rere un pseudònim. Si allà on hi ha una persona vostè hi veu “un subjecte”, no m’estranya pas que allà on hi ha una llengua mil•lenària, que han emprat Ramon Llull, Ausiàs March i altre autors universals fins avui, vostè hi vegi una anomalia, una llengua que no parla ningú. Són prejudicis, i amb qui té el cap i el cor ple de prejudicis no s’hi valen arguments.
    Amb això considero acabat aquest intercanvi, que podria haver estat un plaer i una possibilitat de comprensió mútua si jo no hagués estat tan poca cosa ni hagués tingut l’infortuni de néixer en aquest tros de món petit i miserable on preservem amb estimació profunda una llengua petita i mil•lenària en la qual hem après a respectar i estimar els pobles i les llengües del món, també la seva.

  3. Pingback: A un AMIC IMPOSSIBLE que… | A Viagem dos Argonautas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.