Um mundo difícil

Trump presidente dos Estados Unidos. Putin tentando ressuscitar a Grande Mãe Rússia. A Europa infestada de partidos de extrema-direita pregando abertamente a xenofobia. Um caos econômico que parece não ter mais fim. E a pergunta que toda a gente deve estar se fazendo no final deste ano é: o que há de errado com o mundo?

É verdade que o mundo sempre viveu fases cíclicas: uma hora estava bem, outra estava mal, outra hora, ainda, estava pior. Altos e baixos, subidas e descidas não são exatamente novidade no cenário global. Para quem já passou por II Guerras Mundiais, duas crises do petróleo, pestes de toda a sorte, o panorama atual nem chega a ser dos mais apavorantes, é verdade. Mesmo assim, há algo de particularmente inquietante nos dois lados do Equador.

Em primeiro lugar, há um inverno econômico que promete rivalizar com as maiores crises que o capitalismo já experimentou. É certo que se evitou o desastre de uma nova depressão à la 1929 depois da quebra do Lehman Brothers, mas as perspectivas para a Economia estão longe de ser animadoras, aqui e alhures. Bancos Centrais do mundo inteiro pisam no acelerador por meio de políticas expansionistas que fariam corar o mais esquerdista dos socialistas contemporâneos. Ou alguém por aí vai dizer que imprimir dinheiro a rodo e praticar taxas de juros negativas representa alguma coisa da doutrina liberal?

Em segundo lugar, há uma tendência generalizada de repúdio à política. Somente isso pode explicar como ambientes tão distintos quanto São Paulo e Estados Unidos tenham produzido fenômenos tão semelhantes: Donald Trump e João Dória. Não se pode sequer chamar esse movimento de “direitização” do mundo, porque não há como sustentar que um sujeito “de direita” possa ser contra o livre comércio e a favor de barreiras alfandegárias (Trump). Tampouco pode-se dizer que as jornadas de junho de 2013 ou mesmo o Occupy Wall Street possam, mesmo que vagamente, serem identificados com a “direita”. O que há, na verdade, é algo muito mais profundo. Não há somente um repúdio à política. Há um repúdio ao próprio establishment, do qual Hillary Clinton era talvez o exemplo mais emblemático.

É aqui provavelmente que os dois fenômenos encontram seu ponto de intercessão. De certo modo, a crença de um mundo sem fronteiras, com ampla liberdade de movimentação de pessoas, parece ter se perdido e sua recuperação não está à vista. Quando se vê os britânicos votando pela saída da União Européia e os americanos elegendo um sujeito que promete fazer tudo ao contrário do que os liberais clássicos defendem, é porque alguma coisa de errado se passou com a tal da “globalização”. Na verdade, a débâcle econômica é que está conduzindo à descrença geral com o “sistema” (ou establishment, como queiram).

Nada que não pudesse ser antecipado. A rigor, talvez fosse até de se esperar que algo assim acontecesse. A integração econômica e a ampla liberdade de movimentação de pessoas dependem de um equilíbrio virtualmente impossível entre fluxo de capitais e aumento de produtividade. Na medida em que se transferem indústrias de países mais desenvolvidos para países em desenvolvimento, seria necessário que os trabalhadores desempregados (já devidamente qualificados) fossem realocados em atividades de menor exigência e nas quais suas habilidades pudessem render ($$$) mais e que os empregados nos países em desenvolvimento recebessem a qualificação necessária para poderem trabalhar menos ganhando mais (a tal da “produtividade”).

Pois não aconteceu nem uma coisa nem outra. Os trabalhadores dos países desenvolvidos ficaram simplesmente desempregados, ao passo que os empregados dos países em desenvolvimento continuaram a ser explorados em seus trabalhos braçais a um custo vil. Enquanto isso, quem aplicava na ciranda financeira continua a sorver quantidades boçais de dinheiro sem empurrar um prego numa barra de sabão. Não por acaso, o número de milionários e até de bilionários só aumenta, mesmo em tempos de crise, e é recorde em toda a história da humanidade.

Tudo considerado, não chega a ser nenhuma surpresa a eleição de figuras como Donald Trump ou o voto pelo Brexit no Reino Unido. O povo em geral está fulo da vida com o “sistema”. E a melhor forma expressar essa raiva é fazendo tudo ao contrário do que o pessoal do establishment quer. Não é demais recordar que, nesses dois casos, a mídia jogou claramente para um dos lados (Hillary Clinton, nos EUA, e a favor da permanência da Grã-Bretanha na UE), mas o povo em sua maioria foi para o outro.

Não há como profetizar com razoável grau de segurança um grande cataclismo no sistema econômico mundial que conduza a rupturas políticas de toda ordem terminando em guerras, se for o caso. A única certeza é de que, diferentemente do mundo pós-II Guerra (equilibrado entre duas superpotências) e do mundo pós-Guerra Fria (estruturado ao redor de uma única superpotência), o mundo de agora parece um amontoado de cacos absolutamente dispersos entre si. É como se estivéssemos diante de um enorme quebra-cabeças cujas peças pertencem a paisagens diferentes; não haverá força no mundo capaz de uni-las.

A verdade – é triste dizer – é que aquele mundo de 1945 ou de 1991, com todas as dificuldades que lhe eram intrínsecas, representa apenas um retrato amarelado na parede. O mundo de hoje, com todas as cores vivas que o 4k full HD permite, é um mundo muito mais difícil.

Como vamos conviver com ele?

Só Deus sabe.

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