Recordar é viver: “Como um único edifício mudou o mundo

A combinação de seções nunca foi algo muito constante neste espaço, é verdade. Talvez por pureza metodológica do autor. Todavia, para quem quiser cavucar, sempre há a possibilidade de encontrar-se algum post perdido por aí que se enquadre nessa categoria “mista”.

Para ajudar quem se disponha a procurar, vamos a um dos primeiros posts do gênero, que reúne duas das seções mais incompreendidas deste espaço: a Arquitetura e a Religião.

Como um único edifício mudou o mundo

Publicado originalmente em 31.1.11

Já que em outro post foi explicado o significado da palavra “Basílica”, acho que é oportuno gastar uma palavra ou outra pra falar da Basílica das Basílicas: São Pedro, em Roma.

Quem leu o outro post sabe que Constantino, sem ter parâmetros para criar locais de culto para os cristãos, resolveu seguir a linha arquitetônica das basílicas civis.

A primeira da fila, é óbvio, tinha que ser a de São Pedro. Primeiro Papa, ordenado diretamente por Jesus Cristo – “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja – São Pedro foi cruficado de cabeça pra baixo em uma das colinas de Roma, chamada Vaticanus, e lá posteriormente enterrado.

Constantino achou que seria uma boa estratégia de marketing associar o local da primeira basílica cristã ao local de morte do primeiro chefe da Igreja de Cristo. Por isso, mandou erguer uma Basílica (olha ela aí, de novo!) na colina do Vaticano. Daí, posteriormente, a adoção do nome Vaticano para representar espaço territorial em que os Papas tinham poder secular.

Não há muitos registros de como seria a Basílica antiga de São Pedro. Há alguns desenhos, como esse abaixo, que permitem intuir como ela seria. Mas nada com muita segurança:

O fato é que, lá pelos idos de 1500, o Papa Júlio II achou que a velha Basílica, com 1200 anos, já estava caindo aos pedaços. Além disso, seria uma boa idéia criar uma nova Basílica, ainda maior e mais suntuosa que a anterior, para marcar seu pontificado. É necessário dizer que, nesse aspecto, as administrações papais não são nem um pouco diferentes das administrações políticas ordinárias. O grande barato é construir coisas grandes e, se possível, inaugurá-las em vida, pra poder colocar placas de inauguração dizendo quem fez.

Pra tarefa, o papa chamou um sujeito chamado Bramante. Megalomaníaco como só ele, Bramante era conhecido como “Demolidor”. Seu lance era demolir o que havia e erigir construções gigantescas nos locais originais.

Com a Basílica de São Pedro, não foi diferente. Bramante mandou vir abaixo a antiga Basílica, e planejou um edifício imenso, como nenhum outro antes existente.

Só que, em termos financeiros, a Santa Sé não era nenhum primor de financiamento. Depois de começar a construir a nova Basílica, Júlio II morreu, e, em seu lugar, assumiu Leão X. Leão X, então, viu-se às voltas com um problema bem mortal: faltou grana.

Diante da “herança maldita” que recebera, Leão X teve uma idéia brilhante: “Vamos vender vagas no céu. Com o dinheiro que ganharmos, terminamos a Basílica”.

E assim começaram as vendas de indulgências. Quem contribuísse para a construção da nova igreja, ganharia em vida o perdão de todos os seus pecados. Em outras palavras: compraria um by pass direto pro céu, sem ter que passar pelo purgatório.

Revoltado, um padre alemão chamado Martinho Lutero resolveu protestar contra esse estado de coisas. Para isso, fez pregar nas igrejas de sua vizinhança suas 95 teses. Excomungado, Martinho Lutero achava que haveria outro caminho pra Deus que não passasse pela Igreja Católica. Suas teses tornaram-se a base da doutrina protestante.

120 anos e milhares de indulgências vendidas depois, a Basílica de São Pedro tornou-se uma das maravilhas arquitetônicas do mundo.

A pergunta que se faz é: valeu a pena?

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