Recordar é viver: “Os 70 anos do Dia D”

As confusões no Brasil e no mundo são tantas que esta semana completou-se mais um aniversário do “mais longo dos dias”, mas quase ninguém deu importância pra isso.

Uma vez que a História aqui no Blog não somente faz parte da memória, como também é quase objeto de culto, vamos recordar um post em comemoração aos 70 anos do Dia D.

Afinal, não é todo dia que merece ser designado por essa alcunha.

#FicaaDica

 

Os 70 anos do Dia D

Publicado originalmente em 6.6.14

 

Confesso que desde hoje de manhã hesitei se deveria escrever este post. Isso porque a maioria dos leitores deste espaço já deve ter visto as ‘n’ reportagens sobre o aniversário da Operação Overlord, popularmente conhecida como “O Dia D”. E seria meio como chover no molhado ficar aqui reprisando as mesmas coisas que todo mundo já leu com mais riqueza de detalhes e com infográfico ricamente decorados em algum portal da internet.

Por isso mesmo, tentarei aqui sair do lugar-comum e entregar-vos algo que os outros portais geralmente não oferecem: uma visão crítica – no bom sentido, claro – do que foi e do que representou o Dia D na época e quais foram as suas consequências para o mundo.

Mas, afinal, o que faz do dia 6 de junho de 1944, o mais longo dos dias, uma data tão importante na história da humanidade?

Dizer que o Dia D marcou o começo do fim da II Guerra, ou, mais especificamente, o começo do fim do III Reich é dizer o óbvio. Qualquer um capaz de somar 2 e 2 pode chegar a essa conclusão, ainda mais quando, 70 anos depois, o desenrolar dos acontecimentos é conhecido por todos. A grande questão, na verdade, é a seguinte: qual foi o impacto do Dia D no que se passou depois e como seria o mundo se ele não tivesse acontecido ou tivesse fracassado?

Aí, sim, a discussão fica interessante.

O primeiro grande impacto do dia D foi trazer a França de volta para o mundo. Conquistada após a blitzkrieg da primavera de 1940, o outrora poderoso Reino da Gália havia sido reduzido a um satélite da Alemanha. Humilhada com a divisão ao meio, à França não restou senão se conformar com o que restara do país, comandado pelo governo colaboracionista de Vichy.

Nesse aspecto, engana-se quem pensa que os Aliados queriam “libertar” a França. Queriam, sim, livrá-la dos nazistas, mas para substituí-los por um governo militar comandado pelos americanos, tal qual ocorreu com o Japão pós-45. No entanto, à medida que as tropas avançavam, os Aliados perceberam que os franceses jamais engoliriam um governo títere, ainda mais quando havia uma personificação inconteste da ocupação alemã: De Gaulle. Foi graças a ele que, no pós-Guerra, a França voltou a ser um país independente.

O segundo grande impacto do Dia D foi permitir um equilíbrio de forças na Europa do pós-Guerra. Sem a abertura de uma nova frente de batalha ao oeste, não era certo que a União Soviética conseguisse sozinha detonar o Reich Alemão.

Na melhor das hipóteses para os Aliados, a Alemanha acabaria se rendendo por exaustão alguns anos depois. Mas isso traria como consequência a reordenação do mundo com os germanos ainda com alguma margem de barganha, o que empurraria Estados Unidos, Inglaterra e o que restasse da França cada vez mais para o Atlântico. Na pior das alternativas, os russos conseguiriam bater o exército nazista e avançar por sobre a Europa até os Pirineus, o que deixaria a americanos e ingleses apenas a Espanha e Portugal para chamarem de “Europa Ocidental”.

Foi aquele 6 de junho de 1944, portanto, que permitiu uma derrota mais rápida da Alemanha. Mais do que isso, foi ele que garantiu uma aniquilação total e incontestável do regime nazista. Uma derrota por exaustão poderia permitir aos alemães negociar algum tipo de acordo que lhes garantisse salvar alguma coisa da doutrina hitlerista. Sem falar que, sem uma derrota completa, é pouco provável que o mundo hoje soubesse dos horrores cometidos por aqueles que ostentavam a suástica no uniforme.

Na outra ponta, se a Alemanha viesse a ser derrotada somente pelo Exército Vermelho, o conceito de “Aliados” teria de ser repensado, pois França, Alemanha e Itália provavelmente ficariam do lado de lá da Cortina de Ferro. Isso conferiria aos russos tal poder que seria difícil imaginar um equilíbrio de forças durante a Guerra Fria. Pior. Seria até mesmo incerto que o Império Soviético desmoronasse por completo em “apenas” 45 anos. Não seria esdrúxulo imaginar que os comunistas ainda estivessem a dar as cartas no Velho Mundo.

6 de junho de 1944 representa, portanto, a data mais significativa da guerra no que toca ao que aconteceu ao mundo e como ele se reordenou depois dela. Com todas as honras, a sangrenta batalha nas praias da Normandia merece ser lembrada como “O Dia”; O “Dia D”.

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