Dando a cara a tapa, Série especial Impeachment – “1964 x 2016”

Há muitas coisas que me incomodam na narrativa do “golpe” defendida pela esquerda durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Nenhuma delas é maior, contudo, do que a comparação forçada no panorama histórico atual com aquele que se desenhou há cinquenta anos, quando João Goulart foi deposto. Tal comparação encerra, a um só tempo, ignorância quanto ao passado, alheamento quanto ao presente e desprezo quanto ao futuro.

A comparação releva ignorância quanto ao passado porque os contextos históricos de 1964 e 2016 são inteiramente distintos. Em 1964, vivia-se o auge da Guerra Fria. O mundo estava dividido em dois blocos antagônicos que pretendiam expandir sua influência pelo mundo, à custa da deposição de governos legítimos, se preciso fosse. 5 anos antes, Castro derrubara Fulgêncio Batista e, dois anos depois, cairia nos braços do socialismo soviético. Os Estados Unidos temiam a “cubanização” de seu quintal, a América Latina. Por isso, moveram céus e terras para depor o presidente do maior país da região, nosso querido Brasil.

Não custa lembrar que, naquele tempo, agentes americanos atuavam às claras pela deposição do regime constitucional brasileiro. Enquanto o Cabo Anselmo era pago pela CIA para fomentar a rebelião dos marinheiros, o embaixador Lincoln Gordon negociava nos bastidores com os militares, sempre com o auxílio prestimoso de seu adido militar, Vernon Walters. Quando a sedição militar teve início, chegou-se até a organizar uma operação da IV Frota Americana para ajudar os revoltosos, caso fosse necessário. A operação tinha até codinome: Brother Sam. Com a vitória rápida da “revolução”, a ajuda rapidamente disfarçou-se e foi transformada em exercícios militares de rotina.

Hoje, não há nada disso. Os americanos, às voltas com o terrorismo e com guerras no Oriente Médio, mantêm-se de maneira prudente longe da hélice, torcendo apenas para que a crise não se transforme em batalha campal. Salvo nas mentes mais perturbadas de uma esquerda delirante, que enxerga na Operação Lava-Jato um movimento do “grande capital para roubar o nosso pré-sal”, ninguém vê nenhum americano atuando pela deposição do regime. Se bobear, é mais fácil pensar em Obama oferecendo uma mãozinha discreta para ajudar a manter Dilma no poder do que o contrário.

A tentativa de aproximar 2016 de 1964 implica desprezo quanto ao futuro ao ignorar que, em qualquer dos cenários hoje postos, não se vislumbra a mais remota possibilidade de implantação de um regime ditatorial no país. Quando Jango foi deposto, os civis foram alijados do poder e para lá só voltariam depois de um quarto de século. Agora, ainda que se entenda que a derrubada de Dilma seja uma forma ilegítima de deposição, não se corre semelhante risco. Os militares, felizmente, estão nos quartéis. E não passa pela cabeça de ninguém que Michel Temer ou qualquer outro que assuma em seu lugar venha a instalar um regime totalitário Brasil.

É certo que, por trás dessa tentativa de aproximação forçada, há um discreto perfume de romantismo revolucionário no ar. Por uma razão ou por outra, há quem pense na crise atual como uma espécie de revival da jornada que levou à deposição de João Goulart. Saudades de um tempo em que a esquerda estava de um lado (e estava certa), e os outros estavam do outro  (e estavam errados). Para quem viveu, e até mesmo para quem não viveu aquela época, trata-se de tentar projetar em 2016 a revanche que não foi possível em 1964. Talvez por isso mesmo Chico Buarque tenha subido ao palco para dizer: “De novo, não”.

Se for esse o caso, tudo bem. Mas, por favor, deixem as comparações estapafúrdias de lado.

A História, penhorada, agradece.

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