Recordar é viver: “As implicações da Operação Lava-Jato”

E teve gente achando que eu tinha exagerado quando afirmei há pouco mais de um ano que teríamos um escândalo de proporções apocalípticas.

O tempo, como sempre, é o senhor da razão…

 

As implicações da Operação Lava-Jato

Publicado originalmente em 17.11.14

 

O mundo político nacional foi sacudido por um terremoto na última sexta-feira. Sem aviso prévio, sem sequer o rumor de que fosse acontecer algo do gênero, a Polícia Federal deflagrou a 7ª fase da Operação Lava-Jato. Muito antes do que todo imaginava – inclusive este que vos escreve -, a bomba de efeito programado contida nas delações premiadas de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef explodiu. A grande questão, agora, é saber o que vai – ou pra quem vai – sobrar daqui pra frente.

Que a Operação prenderia ex-diretores da Petrobras e alguns dos famosos “operadores” dos partidos políticos, já era mais ou menos esperado por todo mundo. Surpresa mesmo foi o bolo incluir gente que não costuma aparecer nas reportagens da TV cobrindo o rosto para não ser filmada: os diretores das empreiteiras. E é justamente nesse ponto que reside a maior quantidade de nitroglicerina de todas as operações da PF realizadas até hoje.

Desde pelo menos a CPI dos Anões do Orçamento, em 1993, sabe-se que boa parte das empreiteiras brasileiras abastece seu caixa através de negociações escusas com agentes públicos. Lá se vão mais de 20 anos sem que nada, ou quase nada, tenha avançado na investigação das empreiteiras. Salvo um ou outro surto de moralidade irrompido pela descoberta de um escândalo ocasional, é de se entender que elas continuaram a tirar seu butim através dos desvãos do orçamento, sem que nada de mal lhes pudesse acontecer.

Não que o esquema de atuação seja desconhecido. Ao contrário. Qualquer adolescente da 8ª série é capaz de entender como se dá a prática do desvio nas licitações. O ente – União, Estado, Município ou alguma de suas estatais – precisa de uma obra. O encarregado pela sua execução precisa de dinheiro pra repassar a quem o indicou e para aumentar o seu patrimônio. Acerta-se o tamanho do sobrepreço, coloca-se no preço final da obra e, no final, todos ganham.

Sabendo-se que o esquema funciona na base do “ganha-ganha”, chega a ser um acinte ver declarações de diretores presos segundo os quais eles eram “constrangidos” a pagar propina. Ora, o dinheiro que era desviado para a conta secreta do funcionário público ou para o financiamento de campanha do agente político não saía do caixa da empreiteira, mas do bolso do contribuinte. Sim, é você, meu caro leitor, quem paga o pato no final das contas, através de obras superfaturadas.

Pior do que isso, somente a declaração de Antônio Carlos de Almeida Castro. Para Kakay, “dentro da normalidade, você teria de declarar essas empresas inidôneas. (Mas) Se elas forem declaradas inidôneas, você pára o país”. Ou seja: se da aplicação da lei resultarem problemas para o país, esqueça-se a lei. À semelhança da pachorra americana segundo a qual existiriam bancos “grandes demais para quebrar”, agora no Brasil existiram empresas “grandes demais para serem impedidas de contratar com o Poder Público”.

Noves fora o fato de que o capitalismo – olha ele aí, de novo! – tem o saudável mecanismo de seleção natural, através do qual o espaço deixado por alguém é logo ocupado por algum concorrente, não se pode admitir que eventuais contratempos com a construção de obras públicas possa garantir a determinadas empresas uma “licença para corromper”. Do contrário, com que moral o Estado terá autoridade para decretar a inidoneidade de empresas menores?

Independentemente do que venha a ocorrer com as empresas envolvidas no escândalo, é quase certo que os diretores presos negociarão com os promotores a assinatura de um acordo de delação premiada. Pela primeira vez em nossa história, uma ação de persecução estatal conseguirá unir todas as pontas de um escândalo de corrupção. Ficarão enredados na teia da Justiça funcionários de estatais responsáveis pela distribuição do jabaculê, os agentes políticos responsáveis pelas suas indicações, os doleiros responsáveis pela lavagem do dinheiro e – supremo espanto – os corruptores responsáveis pelo pagamento da propina.

O fato de a operação ter pegado, dessa vez, tubarões envolvidos do outro lado da rede de corrupção confere à Lava-Jato uma dimensão ainda não inteiramente compreendida pelo público em geral e até mesmo pelos analistas pagos para isso. Com alguma sorte, a Lava-Jato pode resultar no maior raio-X de roubalheira já realizado no país e trazer abaixo uma intrincada rede de corrupção que funciona há pelo menos uma década.

Exagero? Nem tanto.

Basta pensar o seguinte: todo mundo sem foro privilegiado envolvido no caso já foi preso e será denunciado. Os agentes políticos – deputados, senadores, ministros e outras autoridades com foro por prerrogativa de função – somente não foram para trás das grades porque a ação depende de uma denúncia do Procurador-Geral da República e de uma decisão do Ministro Teori Zavascki. Com o material que até agora veio a público, não é difícil imaginar que há base para mais prisões. Em suma: é apenas questão de tempo até que tenhamos um escândalo político de proporções apocalípticas. Perto do que virá, o Mensalão vai parecer fichinha.

Aos delegados da Polícia Federal, aos procuradores da República e, claro, ao juiz do caso, Sérgio Moro, devem ser rendidas as devidas homenagens pelo trabalho impecável demonstrado até agora. Pela primeira vez na história do Brasil, agentes do Estado resolveram seguir o ensinamento do Garganta Profunda no escândalo de Watergate: “Follow the money”.

Sinal de que o país caminha, sim. E para a frente.

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2 respostas para Recordar é viver: “As implicações da Operação Lava-Jato”

  1. K disse:

    Excelente texto, meu amigo! À época em que foi escrito e agora! Por essas e outras é que vale a pena passar por aqui… bjos

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