O desastre urbanístico brasileiro, ou Por um novo modelo de ocupação urbana

Não é segredo pra ninguém que este que vos escreve acreditar ser a violência o principal problema do Brasil. Mesmo suas coirmãs pobreza e corrupção não conseguem rivalizar com ela. Primeiro, porque só sendo míope para defender que o Brasil seja um país pobre. Segundo, porque só um cínico poderá arguir que políticos corruptos são exclusividade nossa.

Causas para o atual estado de coisas existem às dezenas. Mas uma dentre elas talvez esteja a passar despercebidamente por todo o mundo: a questão urbanística.

Que o Brasil em geral revela-se como um desastre urbanístico sem paralelo, ninguém discute. Salvo honrosas exceções como Curitiba e algumas poucas cidades do interior, todo o resto é flagelado pela inexistência de mínimo planejamento na hora de ocupar-se o solo e levantarem-se edificações. Onde falta ordenamento, sobram construções irregulares. Onde falta transporte público, sobram carros em engarrafamentos intermináveis. E onde faltam praças, sobram favelas.

A cidade mais linda do mundo, o Rio de Janeiro, é o melhor exemplo disso. Não há no mundo nada que, geograficamente, possa se comparar à Cidade Maravilhosa. Mesmo assim, é no Rio que pululam as favelas, viceja a violência e grassa o desrespeito às normas mais comezinhas de convívio urbano. E a pergunta que não quer calar é: “Por quê?”

Houve um tempo em que se pensava que pobre poderia viver onde fosse, desde que fosse longe do centro urbano. Afinal, era lá que vivia a “elite”, a “classe média”, enfim, os “verdadeiros cidadãos”. Não ficaria bem para qualquer aglomerado urbano misturar gente desqualificada à nata da sociedade, porque isso enfearia o conjunto da obra. Seria melhor deixar os bairros mais nobres aos “homens de bem” e mandar a escumalha pra qualquer lugar; o raio que os partisse, de preferência.

Foi nesse contexto que o então governador Carlos Lacerda resolveu remover favelas do centro do Rio de Janeiro para a longínqua zona oeste da cidade. Construíram-se casas, urbanizaram-se terrenos e mandou-se uma legião de pobres de um extremo a outro do Rio. Nascia, então, a Cidade de Deus.

Quem assistiu ao fantástico filme de Fernando Meirelles pôde perceber o resultado dessa política. O envio maciço dos pobres para um lugar esquecido pelo Bom Senhor ajudou a transformá-lo em um gueto. Longe da vista de todos e, principalmente, abandonado pelo Estado, o então novo bairro transformou-se na favela que deu origem a Zé Pequeno, Mané Galinha e um infindável número de etc.

Não se trata, é óbvio, de uma exclusividade carioca. Na verdade, esse modelo de ocupação urbana, no qual pobres são segmentados do resto da população, espalhou-se por todo o Brasil. Em qualquer capital brasileira é possível identificá-lo. Basta dar uma volta ao redor da periferia para encontrar os famosos “conjuntos habitacionais”, que na maior parte das vezes não passam de projetos de bairro e, posteriormente, de novas favelas.

Enquanto por aqui o atual modelo segue firme e forte, com os resultados que todos nós conhecemos, em outros cantos experiências inovadoras vão mostrando que há alternativa para o descalabro que vigora no país.

Na França, por exemplo, a Prefeitura de Paris tem desenvolvido um interessante trabalho de urbanização dos novos bairros. Uma vez que o centro de Paris já está desenhado e estabelecido desde a grande reformulação arquitetônica do Barão Haussmann, restavam dúvidas sobre o que fazer sobre a periferia da cidade, onde a majestosa arquitetura da Cidade-Luz dá lugar a construções mais modernas.

Pensando justamente na integração da cidade e de seus habitantes, a Prefeitura de Paris só autoriza construções, digamos, “pluri-estamental”. É dizer: ao invés de segmentar as construções em “prédios para ricos” e “prédios para pobres”, agora os alvarás determinam que sejam construídos no mesmo quarteirão edifícios cujos valores venais sejam compatíveis com os mais variados poderes aquisitivos. Em outras palavras, isso significa que no mesmo bairro poderão morar os estupidamente ricos, os mais ou menos remediados e os que sobrevivem mal e porcamente.

Para melhorar, entre os edifícios “sociais” são colocados espaços públicos, como praças e parques. Além de embelezar o ambiente urbano, esses espaços favorecem maior integração entre as pessoas das mais diferentes classes sociais.

E daí?

Daí que esse tipo de ocupação urbana impede um dos maiores flagelos da nossa atual sistemática: a “guetificação”. Não se trata, apenas, de fazer com que pessoas das mais diversas classes sociais participem do mesmo espaço urbano, mas de impedir que exista uma parte da cidade apartada do restante, sujeita ao sequestro por parte de grupos criminosos, que nele imporão suas próprias leis, à margem do Estado.

Para além das evidentes vantagens sociais, a adoção de semelhante alternativa teria a virtude de diminuir o deslocamento intraurbano, diminuindo a necessidade de deslocamento. Basta pensar: quem trabalha na farmácia ou no supermercado do bairro dificilmente teria condições de bancar sua própria moradia. Mas, se houver unidades habitacionais capazes de caber no seu bolso, o sujeito poderia morar no mesmo bairro. Assim, não haveria necessidade de deslocamento entre casa e trabalho, diminuindo o tráfego urbano e melhorando a qualidade de vida do cidadão.

A fim de melhorar a vida nas grandes cidades e dar cabo à triste escalada da violência urbana, é necessário repensar a forma com a qual nos relacionamos com as cidades. Do contrário, o caos estará logo ali, dobrando a esquina.

É esperar pra ver.

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2 respostas para O desastre urbanístico brasileiro, ou Por um novo modelo de ocupação urbana

  1. tai777 disse:

    excelente texto

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