Até parece rotina.
Sexta-feira passada, o mundo assistiu chocado a mais uma demonstração de barbárie contra inocentes em Paris. Jovens, torcedores de futebol e transeuntes distraídos foram vitimados pela intolerância de gente que diz agir em nome de Deus, como se o Todo-poderoso fosse precisar de semelhantes imbecis para matar alguém. Depois de chacinarem a redação inteira do semanário anarquista Charlie Hebdo, radicais muçulmanos mataram agora a esmo, sem qualquer motivação específica; o terror em seu estado bruto.
A essa altura do campeonato, a pergunta que todo mundo se está fazendo é a seguinte: “Por que Paris?”
De fato, não se trata de algo que se possa responder intuitivamente. Ao contrário das guerras no Kuwait e no Iraque, cujos propósitos não eram outro senão petróleo, é difícil compreender a priori as razões que motivam tanto ódio contra os franceses em geral, parisienses em particular. Afinal, terror por terror, pode-se explodir bombas em qualquer lugar. De onde vem essa aparente predileção dos terroristas pela Cidade-Luz?
A primeira raiz é evidente e está exposta. França, Estados Unidos e mais alguns países ocidentais encontra-se engajados numa guerra sem fim à vista nos desertos da Síria. Violentada por Assad, a Síria agora vai sendo aos poucos destroçada por Estado Islâmico e companhia limitada. Como os Estados Unidos são muito longe e a segurança lá tende a ser bem mais rígida, é mais fácil atacar os gauleses, bem mais próximos e condescendentes com a privacidade alheia.
A segunda raiz também é evidente, embora parcialmente oculta. A França possui a maior população islâmica da Europa. Os muçulmanos já passaram dos 8% da população e total e já, já alcançam os 10%. São percentuais que não encontram paralelo em nenhum país do chamado “Ocidente”. Daí para achar radicais malucos dispostos a sacrificar suas vidas para ceifar a de inocentes sem razão aparente é apenas um pulo. Existem muitas células adormecidas em território francês. Gente que se infiltra na sociedade como pacatos cidadãos, passam anos comprando na feira e levando o lixo para fora, para, de repente, vestir um colete-bomba e explodir-se no meio de uma boate. Por isso é tão difícil para a Polícia identificar os suicidas em potencial e impedir os atentados a civis.
A terceira raiz, contudo, não é evidente, nem tampouco é intuitiva. Muito pelo contrário. Encontra-se bem enterrada debaixo do solo, longe das vistas de todo mundo, murmurada apenas à boca pequena por quem combate o terror e renegada veementemente por quem o patrocina. Os terroristas atacam Paris porque a cidade é o símbolo máximo da civilização ocidental. Trata-se do protótipo, do modelo, daquilo que todas as outras cidades queriam ser, mas ainda não são.
E não é só porque a capital francesa reúne um conjunto único de beleza arquitetônica e riqueza cultural. O que Paris representa é a vitória de um ideal de civilização. Não se trata de algo que se possa explicar por palavras. É necessário sentir-se estando lá. Em nenhum outro lugar do mundo pode-se respirar democracia, respeito e tolerância com um ar a um só tempo estupefato e triunfante. Quando se visita a Cidade-Luz, tem-se a feliz impressão de que a humanidade pode dar certo.
Haverá, claro, quem defenda existirem cidades com clima mais agradável (Natal, por exemplo). Haverá, também, quem diga haver cidades mais legais (Londres). Haverá, por fim, quem sustente que há modelos civilizatórios mais avançados (as democracias sociais nórdicas). Mesmo assim, Paris continua sendo a primeira entre as maiores.
Quando se ataca Paris, não se estão atacando prédios e obras de arte. Não se atacam ícones urbanos da cidade, como foi o caso do ataque às torres gêmeas em Nova Iorque. O que se ataca é o estilo de vida, o modo de pensar, o modelo de sociedade que Paris representa. Eis a razão pela qual Paris representa um alvo tão atraente para os terroristas.
Nos dias seguintes aos ataques, a reação seguiu o roteiro previsível: apoio internacional, repúdio ao terrorismo e lamentações mundo afora. As notas destoantes, contudo, vieram do próprio povo francês.
O presidente François Hollande (socialista) propôs um pacote de leis que faria corar seu opositor Sarkozy (direita). Entre as medidas propostas, está o estabelecimento de um estado de emergência por três meses, suspensão de garantias individuais e até a cassação da nacionalidade para suspeitos de envolvimento com terrorismo.
Do outro lado, uma pesquisa mostrou que 84% dos franceses admitiriam perder liberdades se for para viver em maior segurança. Disso tudo resulta uma pergunta inquietante: se for para abandonar nossas liberdades nosso estilo de vida, de que vale lutar pela civilização?
O que está em jogo, portanto, não são os destinos de Assad, da Síria ou dos malucos do Estado Islâmico. O que está em jogo é a capacidade da civilização ocidental de mostrar que pode combater os assassinos que matam gente inocente em nome de Deus sem destruir os valores pelos quais vale a pena lutar por ela. Se isso não acontecer, qualquer que seja o resultado da guerra contra o Estado Islâmico, o terror terá vencido.
E a lembrança do triunfo da civilização – Paris – não passará de um retrato lúgubre empoeirado na parede.