A Constante Cosmológica

Em qualquer seleção que se faça das pessoas mais inteligentes da história, Albert Einstein vai estar nela. Talvez não na cabeça, mas certamente uma lista que se preza não pode prescindir do gênio suíço-germânico pelo menos no Top 5.

No entanto, assim como todo ser humano comum, Einstein não era infalível. Tal qual um estudante de engenharia que erra a resolução de uma equação integral, de vez em quando Einstein escorregava numa casca de banana. E, no rol de maiores erros de sua brilhante carreira acadêmica, nenhum supera a Constante Cosmológica.

Todo mundo sabe que Einstein desenvolveu sua Teoria da Relatividade em etapas. Primeiro, ele desenvolveu a Teoria da Relatividade Especial, abandonando a noção de espaço como valor absoluto. De acordo com essa teoria, quanto mais veloz um determinado objeto, mais curto ele fica. Em um exemplo grosseiro, um sujeito que visse um automóvel trafegando a 98% da velocidade da luz, enxergaria apenas 20% do automóvel, em comparação com outro observador que visualizasse o veículo parado. A única coisa invariável em todo o Universo seria a velocidade da luz, constante sob qualquer referencial.

Posteriormente, Einstein revolucionou de vez a física ao descrever um Universo no qual espaço e tempo deixaram de ser medidas isoladas para formar um todo único e indivisível: o continuum do espaço-tempo. Pior. Espaço, tempo, massa e gravidade encontravam-se de tal modo entrelaçados que a energia (ou a matéria, tanto faz) “curva” o espaço ao seu redor, influenciando no modo com o qual tempo se desenrola em determinada região do espaço. Assim, quanto maior a quantidade de matéria de um corpo, maior será a sua gravidade e, por conseguinte, menor será a velocidade com a qual o tempo passará.

Até aí, Einstein já tinha garantido seu lugar na história. O Universo de Newton, que durara cerca de 300 anos, chegava a seu final, e um novo e exótico Universo se abria para a exploração científica da humanidade.

O problema é que, do ponto de vista lógico, as formulações de Einstein pressupunham, por definição, um Universo em expansão. É dizer: quem analisasse as observações das teorias defendidas por Einstein, intuitivamente concluiria que o Universo estava se expandindo. E, se o Universo estava em expansão, isso significava que ontem ele era menor do que hoje. E, se ontem ele era menor do que hoje, o Universo um dia teve um começo, até alcançar o tamanho que ostenta atualmente.

Tal conclusão transtornou imensamente Einstein. Muito religioso – em que pesem as más línguas a espalhar seu suposto ateísmo -, Einstein ficou profundamente incomodado com o fato de que o Universo não existisse desde sempre, estacionário e imutável, assim como o Criador o concebera. Ao melhor estilo de contador de Imposto de Renda, Einstein resolveu fazer uma “conta de chegada”. Introduziu, no meio de suas equações, uma constante, com o propósito de produzir um efeito “anti-gravitacional”, destinado a manter o Universo estático.

Em sua expressão matemática, a Constante Cosmológica é representada pela letra grega lambda (\Lambda). Eis a fórmula com a dita cuja:

Constante Cosmológica

A Constante Cosmológica, no entanto, teve vida muita curta. Quando Edwin Hubble descobriu o desvio para o vermelho e constatou que as galáxias ao redor da Via Láctea estavam se afastando umas das outras numa velocidade cada vez maior, a idéia de um Universo eterno e estacionário foi jogada no lixo. Para o resto de sua existência, Einstein amaldiçoaria a Constante Cosmológica, acusando-a de ser “o maior erro de sua vida”.

No entanto, muito tempo depois, cientistas começaram a ficar intrigados. Já estava certo que o Universo estava se expandindo e que as galáxias, por conseqüência, estavam se afastando umas das outras. O problema é que, pelas medições realizadas pelo telescópio Hubble, as galáxias não somente estavam se afastando entre si, mas a sua velocidade de afastamento estava aumentando cada vez mais.

Do ponto de vista científico, tal constatação é perturbadora. Afinal, se a Teoria do Big Bang está correta, as galáxias de fato deveriam estar se afastando. Mas, com o tempo, sua velocidade de afastamento deveria cair, não acelerar. Assim como uma granada que explode arremessando detritos para todo o lado, uma hora as partículas deslocadas pela explosão deveriam desacelerar, até o ponto de caírem. Com o Universo, contudo, ocorre o contrário. À medida que o tempo passa, a matéria vai ganhando cada vez mais velocidade, como se houvesse alguma força a impeli-las na direção contrária da gravidade.

Foi aí que os cientistas resolveram ressuscitar a Constante Cosmológica. Se de fato existe uma força misteriosa no Universo a dirigir a matéria em um sentido repulsivo, é possível que seja exatamente a constante imaginada por Einstein a responsável por esse fenômeno. No entanto, nesse novo desenho do Universo, a Constante Cosmológica teria efeito contrário ao proposto por Einstein. Enquanto na formulação original a constante se destinaria a manter o Universo estático, na verdade ela atuaria no sentido inverso, atuando como uma força contra-gravitacional, acelerando a expansão do Cosmos.

Obviamente, tudo isso ainda são especulações. Não há nenhuma comprovação científica de que a Constante Cosmológica realmente existe e desempenhe a função imaginada por alguns físicos. No entanto, ela já serve para provar uma coisa: quando o sujeito é gênio, até os erros se transformam em acertos.

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10 Responses to A Constante Cosmológica

  1. Avatar de Mourão Mourão disse:

    Acho estranha muito estranha essa afirmação de Einsteins era “muito religioso”. No máximo, ele admitia a existência de Deus. “Não sou ateu, e não creio que possa me chamar panteísta. Estamos na situação de uma criancinha que entra em uma imensa biblioteca, repleta de livros em muitas línguas. A criança sabe que alguém deve ter escrito aqueles livros, mas não sabe como. Não compreende as línguas em que foram escritos. Tem uma pálida suspeita de que a disposição dos livros obedece a uma ordem misteriosa, mas não sabe qual ela é. Essa, ao que me parece, é a atitude até mesmo do mais inteligente dos seres humanos diante de Deus. Vemos o Universo, maravilhosamente disposto e obedecendo a certas leis, mas temos apenas uma pálida compreensão delas. Nossa mente limitada capta a força misteriosa que move as constelações. Sou fascinado pelo panteísmo de Espinosa, mas admiro ainda mais sua contribuição para o pensamento moderno, por ele ter sido o primeiro filósofo a lidar com a alma e o corpo como uma coisa só, e não como duas coisas separadas”. Pelo que se vê ….

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      A própria concepção da constante cosmológica indica isso, Comandante. Deixemos de lado as declarações de Einstein, pois ele mesmo foi de 8 a 80 em várias dela (nem vou lembrar a famosa “Deus não joga dados” porque seria golpe baixo). O que é importante perceber é que, do ponto de vista lógico, nada explica o fato de Einstein ter criado a constante cosmológica senão a aflição com um Universo que não fosse eterno e estacionário. E, por definição, tal aflição não pode ter outra justificativa a não ser as convicções religiosas do gênio suíço-alemão. Um abraço.

  2. Avatar de Mourão Mourão disse:

    A observação” Deus não joga dados” é prova da crença em Deus tanto quanto “sou ateu graças a Deus”. E simplesmente acreditar em Deus, o qual pode ser entendido como as próprias Leis da Natureza, não significa ser religioso, ou seja, não ser ateu não significa se filiar a qualquer.
    religião.
    Um abraço, e boa semana.

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      Nesse caso, terei de dar o braço a torcer, Comandante; o senhor tem razão. Embora judeu de origem, Einstein renegou em mais de uma ocasião em judaísmo, e verdadeiramente jamais se filiou a religião alguma. O fato de ele acreditar em Deus não faz dele um sujeito religioso, como o senhor bem observou. Um abraço.

  3. Avatar de Mourão Mourão disse:

    Você é,de fato, mas deveria ser de direito, também, um Aristocrata.
    Um abraço e bos semana.

  4. Avatar de Matheus o extraterrestre Matheus o extraterrestre disse:

    Mais de 2 anos depois dessa postagem estou tirando proveito desse belo texto. Não tenho a mínima ideia se Einstein era ateu ou não mas absorvi aquilo que achei útil, obrigado muito bom mesmo conheço o assunto e as informações conferem. Gratidão Matheus

  5. Avatar de Samanta Samanta disse:

    Tentando entender as origens da “dita cuja” me deparei com esse texto que me ajudou nos estudos de cosmologia. Texto informativo, descontraído e esclarecedor, muito bom! Obrigada =)

  6. Avatar de Maycon Mailson Silva Paulino Maycon Mailson Silva Paulino disse:

    Sério que aquilo que o pessoal mais tirou desse texto foi se tio Alberto era ou não ateu??? Por isso os aliens não nos visitam.

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