Os efeitos econômicos da crise hídrica

Agora é fato. 2015 chegou e as chuvas pelas quais governantes de todas as esferas rezaram não vieram. De seguro, até o momento, somente a certeza de que este ano trará dificuldades ainda não suficientemente mensuradas para toda a população, seja no abastecimento elétrico, seja no abastecimento de água para consumo humano.

Enquanto dirigentes se debatem sobre a inexistência de “risco elétrico” e o processo de tucanização do racionamento – que se tornou “restrição hídrica” -, quase ninguém parou para pensar nos efeitos econômicos que a dupla restrição de H2O pode causar na já combalida economia nacional.

Que a seca a afligir os reservatórios das hidrelétricas provocará uma inevitável contração econômica, ninguém discute. Afinal, com racionamento de energia, as indústrias e o comércio param. Parados, ambos diminuem a circulação de riqueza, o que inevitavelmente redunda em demissões. As demissões conduzem ao aumento do desemprego, que redunda na diminuição da renda global para o consumo. Isso é mais ou menos óbvio.

O que não é tão óbvio assim é o racionamento da água para consumo humano. Para a maioria da população, água só existe para beber e tomar banho. Grande parte ignora que, da mesma fonte da qual eles bebem, bebem também o setor agropecuário, o setor industrial e o setor comercial. A reserva hídrica existente para escovar os dentes e lavar a roupa é a mesma que abastece a lavoura, a fábrica de sucos e o salão de beleza onde você faz as unhas. Todos são supridos pela mesma rede de abastecimento.

Pouca gente também sabe que, do ponto de vista estatístico, o consumo humano é o menor entre os setores que necessitam do líqüido indispensável à vida. Distribuídos em percentuais, a agricultura responde por aproximadamente 70% do consumo total de água; a indústria por outros 20%; e apenas 10% representam o que nós gastamos no banho nosso de cada dia.

A partir da análise desses números, a primeira conclusão a que se chega é que, quando se decreta o racionamento de água para consumo humano, é porque a vaca já foi pro brejo há muito tempo. Trata-se do último passo antes do colapso total do sistema, ocasião na qual a busca pela água torna-se uma verdadeira luta pela sobrevivência. Não custa lembrar que, até pouco tempo atrás, os caminhões-pipa em Itu eram escoltados por seguranças armados, para evitar ataques ao seu conteúdo.

A segunda conclusão a se tirar desses números é que o tamanho do desastre a ser provocado na economia é diretamente proporcional à quantidade de água utilizada pela agricultura, pela indústria e pelo comércio. Enquanto o racionamento do consumo humano afeta “apenas” o bem-estar geral da população, o corte no fornecimento de água para os setores econômicos é capaz de provocar uma débâcle sem precedentes na atividade geral.

Imaginemos, primeiramente, as vítimas óbvias do racionamento. Lava-jatos não terão como limpar carros. Salões de beleza não terão como lavar os cabelos das madames. Lavanderias não terão como lavar roupas. Como esses empreendimentos poderão continuar com suas atividades?

Exercitemos, agora, um pouco da nossa imaginação. Pensemos numa fábrica de massas e biscoitos. Apesar de serem sólidos, todos eles requerem água para sua produção. Se não houver água suficiente disponível, como os alimentos serão produzidos? O mesmo vale para quase tudo, de cimento a tijolo, de tecidos a celulose; quase nada do que consumidos dispensa o tão precioso líquido essencial à vida para ser feito.

Dessas duas conclusões, podemos extrair duas conseqüências econômicas, cada uma mais grave do que a outra. A primeira é que, ao racionamento de água, segue-se uma inevitável escalada inflacionária. Como a queda na produção induz à queda na oferta, a tendência é de ter alimentos mais caros. A segunda, ainda pior que a primeira, é que, com a queda na produção, o desemprego tende a aumentar exponencialmente, visto que todos os setores da economia são afetados pela restrição no consumo.

Uma vez explicadas essas preliminares teóricas, façamos um pequeno exercício de futurologia sobre os efeitos práticos de um eventual colapso de água no estado de São Paulo.

Como se sabe, São Paulo responde, sozinho, por um terço do PIB nacional. Isso quer dizer que se o resto do país crescer 1,5% e São Paulo experimentar uma queda de 3%, o resultado final do crescimento da economia brasileira será zero.

Pois bem. Sabendo-se que grande parte do dínamo paulista depende da produção de suas indústrias, não é demais imaginar o tamanho do estrago que o colapso total no abastecimento poderá causar ao crescimento de São Paulo e, conseqüentemente, do Brasil. Apenas no ano passado, estima-se que o PIB Paulista tenha caído 2,5%, resultado numa queda global do PIB de 0,8%. E ainda havia água. Imagine, agora, qual será o resultado se água não mais haver.

E o problema não se restringe a São Paulo. Minas espera alcançar situação semelhante já no fim deste mês, enquanto o Rio de Janeiro já vê dois dos quatro reservatórios que abastecem o estado atingirem o volume morto. Isso, claro, para não falar do pobre Nordeste velho de guerra, que já vai para o seu quarto ano seguido de seca, sem previsão de nuvens no horizonte.

É evidente que boa parte do drama deriva do autismo da classe política nacional. Mas eles não são os únicos responsáveis pela tragédia que se avizinha. Há, no fundo, uma grande responsabilidade de todos nós, leigos e não leigos. Por trás da miopia política, reside um grande processo de autoengano coletivo. Toda vez que há um ano de seca, fica-se esperando por um ano seguinte melhor. Quando ela se estende por dois anos, a certeza transforma-se em esperança: “Ano que vem vai chover”. Chegado o terceiro ano, o desespero dá lugar à incredulidade: “Ah, mas não vai passar três anos sem chover. Não é possível. Vai ter que cair água esse ano”.

A ninguém ocorre que, na escala geológica, três, dez, cem anos não são nada. Numa escala de tempo contada na casa dos bilhões de ano, décadas não representam senão segundos fugazes na vida da Terra. E o regime de chuvas, impávido, está pouco se lixando se alguém aqui embaixo não se precaveu contra anos seguidos de falta d’água.

A verdade é que, enquanto todo mundo elaborava suas previsões econômicas com base nas condições normais de temperatura e pressão, a Natureza,  soberana e ironicamente, ria-se da ingenuidade dos analistas. Afinal, como todo mundo sabe, ela não reclama. Ela apenas se vinga.

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4 respostas para Os efeitos econômicos da crise hídrica

  1. André disse:

    Leio com atraso o artigo que é deveras pertinente para o momento.

    Importantíssima abordagem do tema. A preocupação faz sentido e os riscos para a atividade econômica devem ser muito bem dimensionados. Porem, no meu entender, deixastes de levar em consideração alguns aspectos importantes, além de teres carregado demais no tom da crise, que ainda é laranja e pintastes de vermelho bem escuro.

    Nai esqueçamos que grandes, médias e pequenas industriais se utilizam do reuso da água ou podem fazê-lo sem grandes transtornos. Outra possibilidade é otimizar os processos na produção, com um melhor aproveitamento da água, medida que as indústrias cearenses já estão estudando fazer. Além disso, reservas hídricas subterrânea são outra alternativa, inclusive para os micros negócios, como alguns citados no texto.

    Mais difícil e que não acredito venha a ser feito, seria aproveitar a crise e tirar proveito dela. Porque não incentivar a produção e o uso de equipamentos mais eficientes e com menor consumo de água, seja no uso residencial, industrial ou da agropecuária?

    Um abraço.

    • arthurmaximus disse:

      A meu ver, a coisa já passou do vermelho bem escuro para o preto já há algum tempo, meu caro.
      De fato, há como conviver com a falta d’água. O exemplo que você citou é bem pertinente. Mas, como você bem sabe, trata-se de medida paliativa que não é extensível a todos os segmentos industriais e comerciais. O mesmo vale para as reservas hídricas subterrâneas, pois, em estados como o Ceará, ela não é uma alternativa viável e segura, por conta da má qualidade da água.
      O incentivo já deveria ter vindo há muito tempo. O problema é que, como estamos vendo, em todas as esferas de Governo, os políticos empurram com a barriga as medidas racionalizadoras na espera – até agora vã – de que São Pedro os salve do desastre prenunciado. Um abraço.

      • André disse:

        Bem, quanto as cores não vamos chegar a consenso mesmo. Prefiro tons claros e otimistas, você tons negros e apocalípticos.

        Reuso de água não é medida paliativa e sim complementar em qualquer situação e lugar, o Brasil é que não a utiliza como deveria.

        Quanto a reservas subterrânea não pensei no minguado e pobre subsolo cearense, que mesmo assim tem salvado do colapso de abastecimento uma considerável parcela da população interiorana de cidades como Canindé, Cratéus, etc.

        Agora o aquífero Guarany, um dos maiores do mundo, pode e muito. Pena que seja mal explorado e utilizado, especialmente pelo estado mais rico do País.

        Por fim, concordo quando dizes que o poder público tem empurrado com a barriga problema de tal magnitude.

  2. Alex disse:

    Cade o nome do autor ?????

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