Os últimos meses da política nacional foram consumidos pela discussão sobre quem seria o próximo ministro da Fazenda. Desde os tempos da hiperinflação, o nome que comandaria a economia não despertava tanta curiosidade do público. E, como costumava acontecer antigamente, depositava-se no nomeado esperanças inauditas, como se fosse uma espécie de mago que a tudo ajeitaria com sua varinha de condão.
Guido Mantega ainda não se foi e Joaquim Levy ainda não tomou posse, mas, para ajudar a desfazer o mito do “salvador da economia”, talvez convenha relembrar um dos episódios mais esquecidos da história nacional: a política do encilhamento.
Todo mundo sabe que monarquia caiu de podre em 1889, ao perder as três pernas nas quais se apoiava (Igreja, Exército e Economia). Apoiado em um golpe militar clássico, assumiria a nascente república o Marechal Deodoro da Fonseca, ele mesmo um monarquista confesso.
Assim como acontece em todos os momentos nos quais o Governo precisa mostrar credibilidade a uma população descrente, Deodoro nomeou como ministros um “conselho de notáveis”. Seria uma forma de buscar legitimidade com a promessa de que, dali pra frente, tudo seria melhor do que antes, e que a república, de fato, viera pra ficar. Entre os ministros, figuravam nomes como o de Benjamin Constant, Campos Sales e Quintino Bocaiúva. Mas, dentre eles, nenhum nome era maior do que Rui Barbosa.
Já àquela época, Rui Barbosa era um dos intelectuais mais respeitados do país. Jurista, diplomata, filólogo e escritor, Rui tinha na oratória um dos seus maiores dons. Deve-se a ele, por exemplo, a introdução do instituto do habeas corpus no Brasil, sem que houvesse lei a dispor sobre o assunto. Tudo graças às defesas escritas e às sustentações orais que promoveu no Supremo Tribunal Federal. Isso, claro, sem mencionar o papel desempenhado na Conferência de Paz de 1907, participação que lhe valeu o epíteto de Águia de Haia.
Curiosamente, Deodoro não nomeou Rui para Ministro da Justiça, das Relações Exteriores ou até mesmo da Educação. Nomeou-o para a Fazenda. Provavelmente, a intenção era indicar um nome de peso para conferir credibilidade ao Governo que se formava, dando aos agentes econômicos a confiança necessária para que não desacreditassem o novo regime. Mas, como economista, Rui era somente um grande orador.
Rui Barbosa tinha às mãos uma economia rural, agrária e baseada fundamentalmente no café. Em um mundo no qual a Inglaterra indicava o caminho para o futuro, Rui enxergou na potencial industrialização a solução para o Brasil. O problema era que não havia dinheiro suficiente para financiar o desenvolvimento industrial. Os bancos só emprestariam dinheiro a quem desse garantias de pagamento do empréstimo, e ninguém naquela época as tinha. O que fazer?
Rui teve uma idéia “brilhante”. Os bancos emprestariam dinheiro a torto e a direito para quem se dispusesse a investir na indústria. O Governo garantiria a operação através da emissão monetária. Logo, se o tomador do empréstimo desse o calote, o Governo emitiria moeda e pagaria o empréstimo. Risco, portanto, (supostamente) zero. Rui fez isso porque enxergava a economia como um cavalo que passava em frente ao país. Bastaria encilhá-lo, ou seja, colocar os arreios e a sela, para cavalgar a montaria. Nascia, portanto, a política do Encilhamento.
Como era de se esperar, o Encilhamento promoveu a primeira grande bolha especulativa do mercado brasileiro. Todo mundo correu aos bancos em busca de dinheiro e estes, por sua vez, corriam ao Governo para financiar a política de empréstimos indiscriminados. Com dinheiro saindo pelo ladrão, os ativos começaram a subir em um ritmo poucas vezes visto no país.
Pra piorar, investidores começaram a emitir ações de empresas fantasmas para receber parte do dinheiro fácil tomado aos bancos. Nenhuma dessas empresas tinha futuro algum, mas, com o dinheiro jorrando, apenas a promessa de lucro futuro já fazia com que os preços disparassem. A especulação tornava-se um esporte popular no Brasil.
Uma vez que a Lei da Gravidade dispunha que tudo que sobe desce, era apenas uma questão de tempo até que a débâcle viesse. Com o tempo, as emissões monetárias indiscriminadas desembocariam em inflação elevada, e a expansão absurda daria início a uma violenta queda dos preços dos ativos.
E foi justamente o que aconteceu. A inflação disparou e os investidores começaram a se dar conta de que tinham tomado empréstimo para aplicar em vento. Sem ter quem lhes pagasse pelos financiamentos, os bancos recorreram ao Governo para honrar os empréstimos. Ou seja: mais emissão de moeda e mais inflação, jogando o país à beira do colapso.
A crise do Encilhamento foi tão grave que contribuiu para a queda do Governo Provisório e de Deodoro da Fonseca apenas dois anos depois do golpe republicano. Frustrado, Rui Barbosa deixaria a Fazenda 14 meses depois de assumir, para nunca mais voltar ao cargo. O desastre legado por ele só começaria a ser superado no Governo Campos Sales, quando regras rígidas de emissão monetária foram restabelecidas.
O que o Encilhamento ensina?
Ensina que, em matéria econômica, não são os nomes que resolvem o problema, mas as ações que eles praticam.
Espera-se apenas que a lição tenha sido aprendida.