A busca por vida extraterrestre, ou A humildade que deveria habitar em nós

“Estamos sós no Universo?”; eis a pergunta que atormenta a mente desde pelo menos a primeira vez que os homens levantaram a cabeça pra cima e viram o portentoso céu estrelado sobre as suas cabeças.

O primeiro passo para responder a essa pergunta é determinar o que entendemos por “estarmos sós”. Estamos em busca de uma forma de vida semelhante à nossa – inteligente, articulada e dotada de pensamento abstrato – ou estamos em busca de qualquer forma de vida?

Deixando-se de lado a controvérsia acerca do que se entenda por “vida” – os cientistas até hoje não conseguiram definir se um vírus pode ser considerado uma forma de vida -, é mais do que razoável supor que existe, sim, vida fora do planeta Terra. A improbabilidade estatística envolta no surgimento da vida a partir da química orgânica é contrabalançada pela imensidão sem fim do Universo, de maneira que, ao menos em alguns rincões do Cosmos, pode-se imaginar que a vida tenha encontrado uma forma de dar as caras.

O problema, claro, é que, de uma forma unicelular, capaz de sintetizar aminoácidos, até o homo sapiens, capaz de levar um semelhante à Lua, vai uma distância enorme. A Natureza levou no mínimo 3,5 bilhões de anos para sair de um esquema primitivo para a complexa exuberância do cérebro humano. Ainda que formas de vida mais desenvolvidas tenham surgido há pelo menos 1 bilhão de anos, nossos ancestrais são cristãos novos no esquema evolucionário; não se acredita que o elo entre o homem e o macaco tenha mais de uma dezena de milhão de anos, por exemplo.

A segunda grande questão acerca da nossa solidão sideral é saber o que queremos fazer dela se realmente descobrirmos que a resposta para a perguntar milenar é negativa. É dizer: se realmente não estamos sós no Universo, e outras formas de vida inteligente estão espalhadas por aí, nós realmente vamos querer interagir com elas?

Pode parecer uma pergunta banal, mas há muito mais riscos envolvidos na resposta a essa pergunta do que podem sugerir teorias conspiratórias do tipo Independence Day. Basta pensar no seguinte: do ponto de vista biológico, somos 99% macacos. Ou, por outro prisma, diferenciamo-nos dos símios por apenas 1% de nossa carga genética.

Mesmo com uma diferença genética tão ridiculamente baixa, olhamos para os macacos com indisfarçável superioridade. Quando um chimpanzé, por exemplo, é ensinado a se comunicar através de gestos semelhantes à linguagem de sinais, ficamos com aquele ar condescendente dos adultos que observam os bebês aprendendo a balbuciar as primeiras palavras: “Olha, que bonitinho…”.

O que ninguém costuma se dar conta é que, entre homens e chimpanzés, há o espaço de somente 1% de DNA. Ou seja: se somos geneticamente 99% iguais a eles, é justamente nesse 1% que está a diferença entre os gestos rudimentares de comunicação e a Apollo 11. É graças a essa minúscula distinção de pares cromossômicos que podemos olhar para o restante do mundo animal com esse ar pedante de quem domina o planeta a seu bel prazer.

Imagine, agora, uma forma de vida somente 1% diferente da nossa, só que na mão contrária. Como você acha que eles enxergariam a gente? Se 1% de diferença genética nos tirou das árvores e levou-nos ao espaço, outro ponto percentual poderá fazer miséria da nossa pretensa superioridade. Seres extraterrestres somente um pouquinho mais evoluídos poderiam dispensar o mesmo ar pedante com o qual olhamos macacos contando bananas. Não é difícil imaginá-los observando nossas grandes maravilhas tecnológicas, como os satélites e os ônibus espaciais, e dizendo: “Olha, que bonitinho…”

Agora que começamos a nos aventurar mais a sério na busca de responder à pergunta sobre se estamos sós no Universo, conviria também convidar a humildade para visitar as nossas consciências. Afinal, ninguém sabe o que nos espera lá fora.

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