O calote da dívida interna

Entra eleição, sai eleição, os candidatos que representam a esquerda xiita vêm com a ladainha enfadonha da “verdadeira independência do Brasil”, da “superação histórica da dependência externa” e do “rompimento com os interesses do grande capital”. Quando chamados a detalhar como vão implementar semelhante projeto, a primeira alternativa que vem à mente é sempre a mesma: “vamos decretar o calote da dívida interna”.

Quando o Brasil viveu a crise da dívida e as idas ao FMI eram tão frequentes como as visitas ao dentista, ninguém falava muito em dívida interna. Afinal, o grande calcanhar de Aquiles era a dívida em dólar e a suposta incapacidade do Brasil de cumprir com seus compromissos externos. O lobby pró-calote era tão grande e tamanho era o anseio popular pela medida que o então presidente José Ribamar Ferreira da Costa, vulgo Sarney, decretou em cadeia nacional de televisão, como toda a pompa e circunstância, a suspensão do pagamento da dívida externa brasileira.

Obviamente, o calote da dívida externa não resolveu nada. Pelo contrário. Piorou muita coisa, pois o Brasil passou mais de 8 anos, uma hiperinflação e uma brutal recessão econômica até conseguir voltar a ter acesso ao mercado externo. Qualquer semelhança com a Argentina de Cristina Kirchner não é mera coincidência.

Agora, como desde 2005 o Brasil quitou sua dívida com o FMI, e desde 2007 passou a ser credor externo líquido, a “fuga de dólares” deixou de ser objeto de interesse público. Sem alternativas populistas à mão, a esquerda militante resolveu agora erguer outra bandeira, tão esdrúxula contra a primeira: o calote da dívida interna.

Ao contrário do calote da dívida externa, a suspensão do pagamento da dívida interna não afetaria imediatamente o acesso do Brasil aos mercados internacionais. A rebordosa que provocaria, contudo, seria bem pior do que deixar de pagar aos credores externos.

Pra começo de conversa, a suspensão do pagamento da dívida geraria um caos econômico sem precedentes na economia. Uma vez que o Governo gasta mais do que arrecada, o saldo negativo da arrecadação tem de ser coberto de alguma forma. Há fundamentalmente duas opções: emitir moeda para pagar as obrigações; ou emitir títulos. No primeiro caso, o aumento da base monetária implica o aumento da inflação. No segundo caso, evita-se a inflação, mas se aumenta a dívida pública.

Supondo que não passe pela cabeça de nenhum dos xiitas a emissão maciça de moeda, dada a ampla rejeição popular à alternativa inflacionária, o calote da dívida pública fecharia as portas do mercado de títulos nacional. Sem ter como emitir moeda e sem haver quem empreste dinheiro para honrar seus compromissos, restaria ao Governo somente uma alternativa: deixar de pagar por coisas obrigatórias, como despesas com funcionalismo, saúde pública e educação.

Mas isso não seria o pior.

Pouca gente sabe, mas todo o investimento realizado por qualquer cidadão é garantido, direta ou indiretamente, por um título da dívida pública que lhe serve de lastro. Quando você resolve aplicar dinheiro em um fundo de investimentos, por exemplo, o que o banco faz é pegar o seu dinheiro e investi-lo em títulos emitidos pelo Governo. Mesmo quando a opção são títulos emitidos pelos próprios bancos, como é o caso do CDB, a promessa de retorno financeiro da aplicação é lastreada normalmente pela aplicação do dinheiro na dívida pública.

E o que isso significa?

Trocando em miúdos, isso significa que, se um dia o Governo resolver dar o calote da dívida interna, não serão somente os “grandes especuladores” e a “banca gananciosa” quem sofrerá com a medida. O primeiro da fila na lista de perdedores com a medida será você, meu caro poupador. Evidenciada a conclusão, seria divertido ver algum dos esquerdistas confrontado com a contradição de propor uma medida que supostamente puniria os ricos, mas quebraria nas costas dos mais pobres.

Por dever de honestidade intelectual, toda vez que alguém propusesse o calote da dívida interna, deveria formulá-la nos seguintes termos: “Eu proponho que vocês percam as economias de uma vida inteira”. Seria ao menos divertido ver os candidatos tentando cabalar votos enquanto propalassem tamanha sinceridade

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