O modelo tecnocrata

Vez por outra, aparecem na mídia referências à ascensão de governos “tecnocratas”. Quem ouve o termo, tem a ligeira impressão de que se cuida de algo referente a governo, mas não tem bem idéia do que se trata. Afinal, o que é uma “tecnocracia”?

No seu sentido etimológico, tecnocracia remete a uma forma de governo dominada técnicos ou cientistas ( Téchne = técnica; Krátos = governo). A tecnocracia, portanto, é a manifestação política de uma corrente doutrinária já analisada aqui: o cientificismo. Segundo ela, a tendência natural da evolução humana seria abandonar a política tal como ela é, em privilégio de formas “técnicas” de governo, livres das “influências espúrias” do mundo político.

A origem do termo é bastante controversa. Alguns chegam a imputar sua invenção a Adam Smith, pai da moderna Economia. Outros atribuem sua existência a doutrinadores franceses, enquanto americanos reivindicam a originalidade do termo. Seja como for, a verdadeira tecnocracia só teve lugar a partir do século XX. É possível identificar suas raízes nos governos totalitários dos anos 30 e até mesmo em governos democráticos depois disso, como nos Estados Unidos. Robert McNamara, por exemplo, é um típico exemplo de tecnocrata dos anos 50/60.

Segundo a ordem tecnocrata, técnicos e cientistas dos mais diversos ramos do conhecimento passariam a ocupar, paulatinamente, espaços no organograma estatal. Com o tempo, a burocracia se elevaria naturalmente a posições de maior relevo, até conquistar por completo o poder político. Uma vez instalada nos altos círculos da República, a tecnocracia se encarregaria de conduzir a Nação ao desenvolvimento pleno, pois suas opções sempre seriam guiadas por critérios técnicos, imunes a pressões de qualquer ordem.

No Brasil, a tecnocracia começou a se insinuar no Período Vargas e se estendeu mais timidamente até o governo João Goulart. Como Jango foi apeado do poder, não teve tempo de implementar seu projeto de socialismo científico. Isso, contudo, não impediu os tecnocratas de reinarem no período seguinte.

Quando deram o golpe em 64, os militares tinham como pretexto afastar a “ameaça comunista” e combater a corrupção. Sabiam eles, no entanto, que só isso não seria suficiente para garantir-lhes o poder por muito tempo. Afinal, se o propósito era apenas impedir que o Brasil se tornasse uma Cuba 2.0 e cassar políticos corruptos, seis meses dariam conta do recado. Para se perpetuarem no poder, os militares tinham de encontrar outra fonte de legitimidade: a economia.

Foi aí que entraram os tecnocratas. Sem as limitações impostas pelo sistema democrático, intelectuais oriundos do mundo acadêmico encontraram a perfeita janela de oportunidade para implementar seus projetos técnicos. O exemplo mais bem acabado do típico tecnocrata da ditadura não é outro senão Delfim Netto.

Economista da USP, com bom trânsito nas entidades de classe industriais, Delfim foi catapultado do virtual anonimato a secretário da Fazenda de São Paulo em 1966. No ano seguinte, daria seu maior salto: seria o Ministro da Fazenda do governo Costa e Silva. No cargo, usaria das “virtudes” de um governo ditatorial para implementar uma série de medidas que resultariam no “Milagre Econômico” do final dos anos 60 e começo dos anos 70.

O que a tecnocracia oferece de mais vantajoso é justamente aquilo que representa seu maior risco: o abandono completo das opções políticas. Como o burocrata não atende a nenhum mestre senão à sua cabeça, dane-se o que pensa o resto do mundo. Ao contrário do político, que tem de dar satisfações ao seu eleitor a cada quatro anos, o tecnocrata fará o que entender certo, mesmo que isso conduza ao desastre, pois não depende do povo para ocupar o seu cargo.

Portanto, um governo verdadeiramente democrático não pode se cercar de tecnocratas. Toda vez que essa carta for jogada no baralho político, desconfie. No final das contas, o que se pretende é uma coisa só: alijar você das decisões do país.

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6 respostas para O modelo tecnocrata

  1. tai777 disse:

    oi Arthur, tudo bem? Estou bem impressionado pelo texto! Apesar de apresentar outra perspectiva para o termo “tecnocracia” eu entendi e concordo com muitos dos pontos que você colocou. Parabéns!!! Por favor sinta-se a vontade para fomentar discussão em um tema tão pouco explorado. um abraço, Tai

  2. Oi Artur tudo bem?

    Achei o texto muito interessante. “tecnocracia” em sua definicao esta absolutamente correta. Mas ” Tecnocracia” com a letra “T” maiuscula tem outra definicao, pelo menos em Ingles, na atualidade, segue:

    Tecnocracia e a substituiacao do sistema economico, baseado na distribuicao e consumo de energia, manuzeado por egenheiros cientistas e tecnicos.

    A tecnocracia ja esta sendo implementada, inclusive no Brasil, desde 2010.

    https://tecnocracianews.blogspot.be/2016/09/smart-grid.html

    • arthurmaximus disse:

      Oi, Sibuelk. Não sabia desse detalhe. Agradeço a sua informação, pois, agora, quem vier ao Blog ficará sabendo dessa diferença através do seu comentário. Um abraço.

  3. Achei interessante seu artigo. Vim parar aqui justamente pesquisando o termo para compreendê-lo melhor, pois pretendo escrever a respeito um dia no meu blog, apontando inclusive aspectos negativos. Já vi a palavra “tecnocracia” ser usada com vários sentidos, bons e ruins. Para mim, tecnocracia não significa apenas cargos ocupados por técnicos da área de exatas (especialmente economia), como muitos tendem a pensar. Cada cargo político deve ser ocupado por um indivíduo com a devida competência, p. ex.: Biologia com ênfase em preservação ambiental, para os cargos que lidam com meio ambiente; Sociologia e Ciências sociais, nas políticas sociais; Pedagogia, nas políticas educacionais; Antropologia e cultura indígena, na defesa dos direitos dos povos nativos; etc. Alguns assuntos podem até mesmo ser objeto de mais de um técnico, de mais de uma área do conhecimento, exigindo decisões conjuntas. Isto preveniria a população de candidatos populistas e assistencialistas (no sentido negativo), que exploram a má instrução de todo um grupo da sociedade para aliená-los e comprar votos indiretamente. E, ao mesmo tempo, os técnicos e cientistas (se me permite o uso da linguagem) da área de humanas preveniriam o possível abuso e desumanização de *parte* das exatas. Afinal, as humanas não precisam ter tanto medo das exatas. rs 😉

    Conheci um professor, Carlos Moura, do instituto de matemática e estatística da uerj, que contava uma estória (que eu nunca pude confirmar) de q o governo francês chegou a pagar caríssimo num software de computador que analisava um banco de dados da população francesa pra decidir os gastos do governo com cada tópico. Depois de pagar e obter o software, logo na sua primeira execução, já se via claramente um bug: o software recomendava gasto zero com idosos e aposentados. Era uma consequência do raciocínio exato seguido pelo algoritmo: se os idosos não mais contribuíam para a sociedade, o governo não deveria gastar mais um centavo com esse grupo, seria desperdício. Talvez só um sociólogo pudesse corrigir esse bug, prevendo q o fim da aposentadoria e da previdência social faria com que os grupos de trabalhadores contribuíssem menos, pois parte de sua contribuição era motivada justamente pelo recurso que seria extinto.

    A propósito, é interessante ver que eu não sou o único a ter criado um blog sem tema central.

    • arthurmaximus disse:

      É isso aí, Felipe. Achei interessantíssimo o exemplo que você citou do software francês. É a demonstração mais clara de como o pensamento tecnocrata tende a agir. E que bom é descobrir que eu também não estou sozinho no campo dos blogs insólitos, hehehe… Um abraço e seja bem-vindo ao Blog.

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