A alienação das redes abertas, ou A péssima programação da TV brasileira – Parte II

Foi em junho de 2013 que este que vos fala, insatisfeito com a chamada endoprogramação da televisão brasileira, escreveu um post denunciando o baixíssimo nível da programação das redes abertas brasileiras. Passado pouco mais de um ano, é triste reparar que pouca coisa mudou. E, o pouco que mudou, foi para pior.

Ontem, por exemplo, o Fantástico nos ofereceu dois belos exemplos: primeiro, a entrevista com o novo técnico da seleção brasileira, Dunga; segundo, a reportagem sobre o desaparecimento do vôo MH 370, da Malaysia Airlines.

Em relação à entrevista de Dunga, irrita observar a síndrome de Alice. O país enfrenta a sua mais grave crise futebolística da história e a reportagem é toda voltada para “o novo técnico do hexa”. Entrevistar Dunga para ele repetir chavões do tipo “vou exigir comprometimento”, “não vou admitir interferências externas” e “a prioridade deve ser sempre a seleção brasileira” em nada contribui para mudar o panorama do futebol brasileiro. Nesse contexto, os comentários acerca do corte e da cor dos cabelos de Neymar e Daniel Alves só servem para adicionar ridículo à proposta da entrevista.

No que toca à reportagem sobre o desaparecimento do vôo da Malaysia Airlines, não há nada de errado com ela, exceto uma coisa: não foi a Globo que a produziu. Para quem não assistiu, o Fantástico limitou-se a traduzir uma reportagem elaborada pela BBC sobre o misterioso desaparecimento do MH 370.

A matéria é um primor de jornalismo investigativo. Vão a fundo nas explicações acerca das possíveis causas, entrevistam gente diretamente envolvida nas investigações e conseguem montar uma apresentação suficientemente didática para tornar dados tão assustadoramente técnicos inteligíveis a leigos no assunto. Quanto ao Fantástico, tudo o que fez foi adicionar à matéria da BBC uma solitária entrevista com um instrutor de vôo brasileiro. Para, no final, acrescentar absolutamente nada.

Como se isso não bastasse, hoje completaram-se 100 anos do início da I Guerra Mundial. Trata-se, de longe, do conflito mais importante da história, principalmente quando se tem a noção de que a II Guerra e o período entre ambas foi mera continuação do desastre iniciado naquele fatídico 28 de julho de 1914.

E aí? O que preparou a televisão brasileira sobre o assunto? O Jornal Nacional, por exemplo, dispensou menos de 30s, apenas para registrar a data. Matéria especial sobre o evento? Nada. Um programa de uma horinha, entrecortada por comerciais? Nem pensar. A coisa é tão trágica que nem mesmo um inocente Globo Repórter sobre a I Guerra foi produzido. É dizer: os caras se dedicam a fazer um programa inteiro sobre andar de bicicleta na Holanda e dedicam zero atenção ao conflito que moldou o mundo no qual vivemos hoje.

O que faz a televisão brasileira ser tão ruim?

Francamente, eu não sei. Alguém decerto já deve ter queimado pestanas para tentar explicar o fenômeno. A única coisa certa nessa história toda é a seguinte: enquanto a televisão aberta brasileira continuar vivendo em um universo paralelo, achando, como nos anos 80, que é a única e principal fonte de consumo de notícias pela população, vamos continuar assistindo à lenta, gradual e segura redução nos seus índices de audiência.

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