Salvem a Praça Portugal, ou O mundo bizarro do urbanismo brasileiro

Ao lado da Culinária, a Arquitetura é a categoria menos presente neste espaço. Enquanto a média gira em torno de 70 posts por categoria – algumas com mais de 100 -, ambas não chegam aos 30 posts. Para reparar um pouco a omissão nesse ponto, vou retomar o tema com algo que acabou passando em branco nos últimos meses: a destruição de uma das áreas públicas mais importantes de Fortaleza, a Praça Portugal.

Praça Portugal

 Tudo começou em 1947. Fortaleza já não cabia no plano original desenhado por Adolfo Herbster em meados do século XIX. Decidiu-se, então, expandir a cidade ao leste, desenhando-se um modelo semelhante ao proposto pelo arquiteto pernambucano. Escolheram, então, um espaço denominado “Loteamento Lydiápolis” para dar início ao projeto de nova urbanização da cidade. Desse loteamento, das várias praças previstas, restaram apenas: Praça Portugal e Bosque Eudoro Correia.

Em seu projeto original, a Praça Portugal tinha um desenho retangular. Foi apenas no final da década de 60 e começo da década de 70 que ela adquiriu uma rotatória e passou a ter seu hoje característico formato circular.

Praça Portugal – 1969

Obviamente, quem planejou a rotatória não trabalhava com uma metrópole de 3,5 milhões de habitantes. À época, Fortaleza não passava de um quinto disso. Tampouco quem projetou o formato da praça pensou na péssima distribuição dos equipamentos urbanos, com pelo menos cinco shoppings centers em uma área não superior a 10 quarteirões. Para quem não conhece a história, é muito fácil apontar a praça como estorvo, mas ninguém pensa nos erros urbanísticos que conduziram à atual situação de estrangulamento no trânsito da região.

Para “resolver” a questão, a Prefeitura de Fortaleza teve uma idéia “brilhante”: demolir a Praça Portugal. Pra quê? Para no seu lugar colocar um cruzamento. Pior. Com semáforo. É dizer: chegamos a uma situação na qual a prefeitura da cidade, a entidade máxima na defesa dos interesses dos cidadãos, decide destruir uma praça para nela colocar um cruzamento com sinal de trânsito.

Em sua defesa, a Prefeitura argumenta que a Praça Portugal não vai desaparecer. Será apenas “realocada” para os cantos da rotatória, transformando o que era “apenas uma praça” em quatro.

Novo Projeto da Praça Portugal

O argumento é falacioso. Em primeiro lugar, pode até ser que, no geral, haja ganho de espaço total com a redistribuição do espaço, mas a mudança descaracteriza completamente o visual da praça, do qual deriva a imensa parte de seu valor urbanístico. Fora isso, a mudança em si não vai trazer ganho algum à população. Como a grande “solução” de engenharia de trânsito será colocar um semáforo no lugar da praça, não é preciso ser gênio para imaginar que daqui a pouco tempo se formarão ali engarrafamentos ainda maiores do que os que existem hoje em dia.

Esse, contudo, não é o maior problema. A grande tragédia está em enterrar uma parte da história da cidade a pretexto de melhorar por um curto período de tempo o trânsito urbano. E o que é pior: uma alternativa de fôlego curto, que não tardará em demonstrar a inutilidade da medida.

Haverá, claro, quem diga que a praça, tal como está, não tem mais finalidade, pois os pedestres não conseguem chegar nela. Noves fora o fato de que a Praça vale não só pelo seu uso, mas por seu conjunto estético, a questão é a seguinte: entre encontrar alternativas para ressuscitar o uso popular e derrubá-la, qual a melhor opção?

Em Paris, por exemplo, a situação é muito pior. No Arco do Triunfo forma-se uma rotatória com 12 – 12! – avenidas. Mesmo assim, a ninguém ocorre derrubar o monumento para facilitar o trânsito entre Champs Elysées e a Grand Armée. Quanto aos pedestres, construíram-se passarelas subterrâneas que permitem o acesso por baixo da rotatória.

Alguém poderá dizer que a Praça Portugal não tem o mesmo valor histórico do Arco do Triunfo. Tudo bem. Mas se nós destruímos as poucas referências que temos, como esperar que um dia algum monumento possa alcançar o mesmo valor histórico dos grandes ícones mundiais?

Como lenitivo, resta o consolo de que os livros de Arquitetura registrarão o fato de que, em pleno século XXI, uma cidade ao sul do Equador resolveu destruir uma praça para colocar um cruzamento com semáforo.

Triste sina do urbanismo brasileiro…

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2 respostas para Salvem a Praça Portugal, ou O mundo bizarro do urbanismo brasileiro

  1. Lemue Lima disse:

    Sou estudante de arquitetura e não me canso de me entristecer ao rodar por Fortaleza minha cidade, a respeito da Praça Portugal foi uma punhalada e tanto. Ótimo post, parabéns.

    http://bythewaaay.wordpress.com

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