O suposto patriotismo nas Copas, ou Uma reflexão que se impõe

Há exatamente um ano, em meio às manifestações de junho e durante a Copa das Confederações, o cenário esportivo brasileiro foi brindado com uma agradável novidade: o canto à capela do hino nacional. Para quem estava no estádio, a sensação foi única. Quase todo mundo sentiu aquela gostosa sensação de arrepio que acontece quando sentimos alguma coisa importante acontecendo. E houve até quem chegasse às lágrimas com a manifestação de carinho da torcida cearense.

Como tudo vira moda hoje em dia, também isso não escaparia. Desde então, todas as torcidas, em todos os estádios, passaram a cantar a plenos pulmões o hino nacional, driblando a hedionda regra da Fifa de cortar sua execução quando o hino ainda a primeira estrofe ainda se encontra pela metade. Não era de se esperar coisa diferente na Copa do Mundo, e foi isso que demonstrou a estréia da seleção no Itaquerão.

Que o canto à capela do hino nacional coloca pilha na seleção brasileira e ajuda a ganhar jogos, ninguém discute. Considerando que o futebol é um esporte no qual o coração representa 90% da vitória, não é demais imaginar que o coro de 60, 70 mil pessoas terá inevitáveis reflexos no desempenho dos jogadores durante a partida.

Minha questão aqui, no entanto, é outra: até que ponto o costume de recitar o hino à capela pode ser tomado como uma mudança de paradigma no patriotismo do brasileiro?

A cada quatro anos, sempre que há Copa do Mundo, o cidadão nacional “redescobre” o amor por seu país e ostenta, orgulhoso, as cores da bandeira e os símbolos nacionais. No período entre as Copas, o patriotismo só é acordado de quando em vez, quando há alguma competição de menor importância. Nem mesmo durante as Olimpíadas há semelhante movimento. Quando muito, o sujeito se enche de orgulho quando algum brasileiro ganha medalha de ouro. Se for de prata, esqueça.

De certo modo, a exaltação do pavilhão nacional e a redescoberta do Brasil durante as Copas sempre serviu de como escusa contra as acusações da falta de patriotismo do brasileiro. Quando alguém vinha reclamar que brasileiro não era patriota, a primeira resposta invariavelmente era a seguinte: “Você já viu o Brasil durante uma Copa do Mundo?”

Na verdade, o “patriotismo periódico” do brasileiro sempre foi uma desculpa esfarrapada. Trata-se de uma modalidade fajuta de auto-engano; uma mentira que contamos a nós mesmos, para escapar da triste realidade. No mundo que se passa fora dos estádios, o buraco é bem mais embaixo.

Por exemplo: quantas pessoas que você conhece vão às comemorações de 7 de setembro? Quantas pessoas que você conhece conseguem dizer, sem consultar o Google, que dia é o Dia da Bandeira? Quantas pessoas que você conhece conseguem recitar o Hino da Independência? Quer dizer: quantas pessoas que você conhece sabem pelo menos dizer que há um “Hino da Independência”?

Isso, claro, para ficar nos exemplos mais prosaicos. Se for pra partir pra ignorância, a coisa fica muito pior. Quantos brasileiros estariam dispostos a morrer para salvar a República? Quantos brasileiros estariam dispostos a ir à Guerra para sustentar o nosso modo de vida? Quantos brasileiros estariam dispostos a pegar em armas contra um governo tirano?

Bem se vê que o “patriotismo” brasileiro é inteiramente restrito ao esporte. E, ainda assim, não a todos os esportes, mas somente ao futebol, um esporte no qual estamos acostumados a ganhar. Ninguém imagina semelhante demonstração de civismo em um jogo de tênis ou numa partida de pólo aquático, por exemplo.

A verdade  é que as demonstrações de apoio à seleção nos períodos de Copa são um grande “tira-suja” da nossa falta de patriotismo durante os quatro anos que se intercalam entre os eventos da Fifa. De auto-engano em auto-engano, continuamos a construir um país de mentira, no qual os seus maiores heróis são apenas sujeitos que conseguem correr atrás de uma bola e colocá-la no gol.

Triste sina, a brasileira…

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