Traduzindo o português, ou Salvem Machado de Assis

De volta ao batente, hora de retomar a agenda represada no período de ausência. Embora eu normalmente siga uma ordem de prioridades de acordo com a relevância do tema, hoje vou sair da rotina e observar o critério cronológico. Nesse caso, para retomar um assunto que já caiu no esquecimento: a tentativa de reescrita da obra de Machado de Assis.

Para quem não acompanhou a polêmica, o caso é o seguinte: uma escritora chamada Patrícia Secco recebeu dinheiro subvencionado pela Lei Rouanet para reescrever grandes clássicos da literatura brasileira. O propósito do trabalho é um só: “traduzir” o cânone nacional para um português “mais moderno” e, por isso mesmo, supostamente mais amistoso para o leitor.

Por mal dos azares, Patrícia escolheu começar seu trabalho com o maior, o mais celebrado e o mais invejado escritor da história do Brasil: Machado de Assis. Mexer com Machado é sempre um vespeiro, mas a abordagem eleita por Patrícia sugere que ela tenha deliberadamente decidido a entrar de sola na parada.

Em várias entrevistas, a escritora dizia entender “por que os jovens não gostam de Machado de Assis”. Segundo ela, “os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”. Patrícia faz somente uma ressalva: “A idéia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil”.

Não me interessa aqui entrar nas motivações íntimas ou profissionais que levaram Patrícia Secco a patrocinar essa empreitada (até porque não a conheço). Interessa-me, contudo, discutir o mérito de sua proposição. Será lícito “modernizar” as obras dos grandes autores sob o pretexto de que sua leitura é difícil e incompreensível para os mais jovens?

Do ponto de vista formal, a proposta em si é uma sandice. Afinal, Machado de Assis só é Machado de Assis porque escreve como Machado de Assis. Ou seja: Machado só se tornou o maior escritor da literatura nacional porque sabia manusear como ninguém um vocabulário virtualmente infinito, concatenando idéias numa sequência nem sempre intuitiva, mas de igual forma bela e elegante.

Pode ser que seja difícil para os estudantes de hoje entender, ao ler a explicação inicial de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o que Machado quis dizer com “Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento“. Mas se o Bruxo do Cosme Velho escrevesse “Embora o mais comum seja começar pelo nascimento“, quem iria se interessar pela história do defunto-autor?

Do ponto de vista material, a tentativa é um acinte. Não se trata somente de alterar o texto de um escritor já morto, mas de assumir como incontornável a incapacidade dos leitores de hoje em dia de entender o que Machado escreveu. Trata-se de uma inversão inaceitável de prioridades. Ao invés de lutar por um melhor ensino do vernáculo, rebaixa-se o pé-direito da língua portuguesa para que nele caibam as grandes obras literárias do cenário nacional.

E aqui talvez se manifeste o aspecto mais infamante da controvérsia. Machado de Assis não escreveu em inglês, francês ou javanês. Escreveu em português. Qualquer um com um mínimo de instrução deveria poder lê-lo. Quando muito, poderia recorrer vez ou outra ao dicionário. Mas pretender “traduzir” algo escrito em língua vernacular constitui-se na confissão mais explícita de que o Brasil falhou na missão de educar seus jovens.

Machado de Assis não precisa ser traduzido. Precisa ser ensinado.

Quanto ao português, vai bem, obrigado.

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