Por que Lula não será candidato

Na onda sebastianista que assola o país, ontem a bancada do Partido da República lançou um “manifesto”, no qual pede que o ex-presidente Lula volte a se candidatar já agora, em 2014. Embora afirmem que não estão “rifando” a Presidente, o recado embutido na mensagem do PR é muito clara: “Dilma não é nossa primeira escolha. Se só tiver ela, vai ela mesmo. Mas, se nós pudéssemos escolher, iríamos de Lula”.

Vez por outra, o noticiário tem sido abalado por essa espécie de boato. Rumores, quando não cócegas, de gente que se sente órfã do torneiro mecânico de São Bernardo. A queda de Dilma nas pesquisas certamente insufla a onda do “Volta, Lula”. Mas, antes que os mais ousados comemorem algum palavra mal colocada pelo ex-presidente, é bom informar: Lula não será candidato a nada em 2014.

Um dos erros mais comuns cometidos pelo pessoal da oposição é achar que, por ter apenas o primário completo, o ex-presidente é burro como uma porta. Pelo contrário. Lula é um dos sujeitos mais inteligentes que já pisou em Pindorama. Trata-se da prova viva de que inteligência não tem – ou não tem necessariamente – relação com a educação formal. Lula age por intuição, sim. Mas é essa convicção íntima que o torna capaz de antecipar a melhor jogada antes que seus cerebrais adversários o façam. E, em política, saber antecipadamente o que fazer é metade da batalha.

Lula não será candidato a presidente em 2014, em primeiro lugar, porque não é estúpido. Se o fizesse, assumiria publicamente o fracasso do Governo Dilma. Afinal, se Dilma era uma gestora tão boa como ele garantira, por que lhe negar o direito de se recandidatar? Na melhor das hipóteses, teria que passar metade do tempo explicando porque estava errado quando resolveu indicá-la como sucessora. Numa eleição na qual dependerá das duas pernas para poder vencer a corrida eleitoral, Lula já entraria na disputa manco.

Lula não será candidato a presidente em 2014, em segundo lugar, porque não é besta. Lula saiu do Governo como o presidente mais celebrado da história do Brasil, o político mais popular da Terra. Sua energia era tão forte que seria capaz de eletrificar qualquer poste, por mais apagado que fosse. Se voltasse a concorrer, todo esse capital político ficaria sob risco por conta da refrega eleitoral. Além dos desgastes já esquecidos de seu governo (principalmente o Mensalão), Lula ainda teria de carregar os problemas do Governo Dilma (setor elétrico, gasolina, inflação alta, crescimento baixo). Não faz sentido para um político que já ganhou o seu lugar na história arriscar o verbete na enciclopédia numa disputa eleitoral incerta.

O grande problema do “Volta, Lula”, na verdade, é o estrago que faz na campanha de Dilma Roussef. À medida que se propaga a campanha entre os aliados do Governo, a população começa inevitavelmente a embarcar na onda. “Ora, se nem a base aliada quer que Dilma continue, por que nós haveremos de querer?”, pensa o eleitor comum.

Estabelece-se, então um círculo vicioso. Quanto mais Dilma cai nas pesquisas, mais gente do Governo quer Lula de volta. Quanto mais gente do governo quer Lula de volta, mais a população deixa de enxergar nela uma boa alternativa de continuidade. E, quanto mais gente deixa de querer votar na Presidente, mais ela volta a cair nas pesquisas.

Pode parecer estranho, mas o maior risco à reeleição de Dilma Roussef não vem da oposição, mas do próprio Governo. Se antes se acreditava que a Presidente poderia vencer até por W.O., hoje não é difícil imaginar que as urnas de outubro podem trazer muito mais surpresas do que os analistas pensavam.

Daqui até lá, grandes emoções nos aguardam.

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3 respostas para Por que Lula não será candidato

  1. André disse:

    Bem analisado o tema e com pleno conhecimento de causa. Contudo, faço uma breve reparação ao texto. Na realidade não existe “gente que se sente orfã do torneiro mecânico mecânico de São Bernardo”, porém, admiradores e seguidores, brasileiros enfim, que se sentem orfãos do maior e melhor Presidente da história do País. O floreio literário que o amigo usou deixou transparecer um certo tom preconceituoso, característica não detectada até o momento por esse leitor no amigo escrevinhador. Espero que tenha sido somente uma rápida e única influência do meio, se é que me fiz entender.

    • arthurmaximus disse:

      Meu nobre André, é claro que há gente orfã do Barbudinho. Ou você acha que o coro “Volta, Lula” é entoado somente por aqueles que nutrem legítima admiração por ele? Quanto à referência ao “torneiro bissílabo de São Bernardo”, trata-se, como você bem observou, de um recurso estilístico para evitar a repetição exagerada de uma palavra (no caso, o nome “Lula”). Não houve aí nenhuma referência depreciativa. Pelo contrário. Como você pode observar do texto, Lula foi – e com razão – bastante elogiado, pela inteligência, sagacidade e, principalmente, pelo inegável bom governo que conduziu. E, apesar do seu receio, não me deixo influenciar pelo meio no qual habito. Um abraço.

      • André disse:

        Amigo Arthur não leve tão a sério minhas provocações. Sua réplica foi perfeita e deixou um LULISTA de carteirinha como eu radiante diante do elogio e reconhecimento às realizações do governo petista que mudou a face do País. Tais afirmações vindas de um interlocutor com reconhecidos atributos como o amigo é deveras alentador. Um abraço e boas férias.

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