Um dos assuntos mais recorrentes do Blog tem sido a degradação social pela qual passa o Brasil. Não se trata apenas da violência endêmica, assunto reconhecidamente unânime entre as principais preocupações do brasileiro. Trata-se de entender como regredimos a um nível de incivilidade que não encontra paralelo em país nenhum do mundo.
Quem sai à rua não demora muito a ser apresentado ao fenômeno. Carros parados em cruzamentos, gente furando a fila, falta de trato quando se usufrui um serviço, enfim… A lista é longa e eu passaria o resto do dia aqui só enumerando as mazelas às quais somos submetidos diuturnamente.
Não que tenha sido sempre assim. Não faz muito tempo, parar carro em cruzamento era motivo de vergonha para qualquer motorista que, encabulado, tentava de todas as formas mitigar o problema causado aos demais motoristas. Furar fila, então, nem se fala. Tratava-se de um ato tão vil que era capaz de o sujeito ser excomungado pela tão-só prática de passar à frente das outras pessoas a esperar.
Pouco a pouco, no entanto, aquilo que era tido como vergonhoso e visto apenas de quando em vez na paisagem, tornou-se uma rotina estranhamente incômoda para a maioria da população. É difícil encontrar alguém que não passe por semelhante martírio ao menos três vezes por dia, todo santo dia. E, como tudo que é estranho deixa de sê-lo pela simples repetição da prática, hoje a incivilidade já se encontra tão arraigada ao cotidiano que ninguém mais se dá conta do tamanho do flagelo que ela representa.
Como chegamos a esse ponto?
Não é educação. Pode-se reclamar muito do governo – todos os governos -, mas se tem uma coisa que melhorou nos últimos 20, 30 anos foi o nível educacional da população. Há seguramente menos analfabetos do que na geração passada, e é possível imaginar que grande parte dos alfabetizados exibe hoje um patamar de estudo superior aos contemporâneos de seus pais.
Tampouco se pode dizer que é nível social. Não somente a renda da população vem aumentando de forma consistente pelo menos há 20 anos, como é justamente nos estratos mais elevados da sociedade que se observa a maior quantidade de transgressões. Quem vai de carro ao trabalho enxerga facilmente a Hilux entrando pela contra-mão só para não ter que dar a volta no quarteirão. Da mesma forma, quem vai ao cinema observa claramente a patricinha que foi comprar pipoca se achegar à amiga que está na frente da fila para não ter de ir ao final dela.
O problema, a meu ver, é bem mais profundo. Estamos regredindo em termos de relações sociais pela noção cada vez menos presente dos deveres que são impostos a todos os cidadãos.
Desde a Constituição de 1988, o Brasil redescobriu a noção de direitos. Depois de passar duas décadas sofrendo nas mãos dos militares, era até natural esperar que toda a demanda represada por 21 anos de ditadura terminasse numa reivindicação cada vez mais expressiva de direitos. Afinal, ninguém passa tanto tempo comendo o pão que os milicos amassaram e sai dessa numa boa. Quer – e com razão – ver os seus direitos respeitados, não só pelo Estado, mas pelos outros, também. Não à toa, os tribunais estão aí abarrotados de litígios que antes se resolviam ou na conversa ou, na pior das hipóteses, numa briga de bar.
No entanto, como é difícil qualquer transição dessa natureza respeitar critérios de proporcionalidade, saiu-se de um espectro e foi-se a seu exato oposto. Se antes ninguém tinha direito e tinha que aguentar tudo calado, agora todo mundo abre a boca para dizer que tem direito e que quer se respeitado.
Se por um lado isso é bom, porque demonstra a sedimentação do exercício da cidadania pela população, por outro estabelece uma indesejável exasperação da noção de “ter direito”. De repente, o sujeito pensa que dispõe de uma licença para fazer qualquer coisa. E aí começam os abusos.
O grande problema dessa exarcebação do “ter direito” é o conveniente esquecimento de que, a cada direito, corresponde de forma sinalagmática um dever, que deve ser respeitado. Acaba-se entrando numa espiral de “pode-tudo” que o cidadão acaba se esquecendo de que o seu direito acaba quando começa o direito do outro.
Um exemplo muito claro para ilustrar o que estou tentando dizer:
Imagine o sujeito vindo numa avenida. À frente, um semáforo com dois tempos. No primeiro deles, libera-se a conversão à direita. No segundo, permite-se seguir em frente. O cara quer seguir em frente, mas, por uma dessas infelicidades do destino, acaba pegando sem querer a faixa da direita. De repente, o sinal da conversão à direita abre. O que fazer?
Para um cidadão ciente de seus deveres, o correto seria dobrar à direita e depois dar um jeito de retornar ao ponto onde estava, para poder seguir em frente sem problemas. Afinal, não seria justo fazer com que toda a fila de carros que está atrás dele. Todavia, para o cidadão que abra a boca somente para dizer que “tem direito”, paciência. Não seria justo imputar-lhe a perda de tempo de dobrar a direita e depois retornar ao ponto de origem por conta de um erro culposo, no sentido mais técnico do termo.
O que está por trás desse episódio banal não é somente o respeito às leis de trânsito, mas a noção do dever que o sujeito deve ter como cidadão em relação aos seus semelhantes. O sujeito acha a coisa mais normal do mundo atrasar a vida de todo mundo que está atrás porque se acha no “direito” de permanecer ali. É algo tão incorporado ao seu inconsciente que aquele episódio sequer vai pesar na sua consciência depois. Pior. Se alguém mais esquentado buzinar ou xingar-lhe a mãe pelo despautério, ele ainda vai se achar no direito de xingar de volta e dizer que o cidadão que teve a vida atrasada é “esquentadinho”.
Obviamente, quando a sociedade começa a enveredar por este caminho, a vaca começa a ir pro brejo. O caso acima retratado é até prosaico. Qualquer dos leitores deste espaço será capaz de relatar episódios semelhantes no qual o descumprimento do dever não derivou de um erro culposo, mas da intenção deliberada do sujeito, mesmo.
Não imagino como se resolverá essa questão. A única coisa certa é que, a cada descumprimento rotineiro de deveres básicos do convívio social, aperta-se o passo em direção à selvageria. Paulatinamente, estamos transformando uma sociedade organizada em um exemplo de barbárie para o mundo.
Tristes trópicos…