A crise dos 30

Um dos momentos mais assustadores pelo qual passa uma pessoa durante a vida é o aniversário de 30 anos. A famosa “crise dos 30” causa apreensão em quem se aproxima do terceiro decênio e desperta pavores naqueles que já entraram nele.

Mas, afinal, por que os 30 anos são fruto de tanto sofrimento para a maior parte das pessoas? O que faz da virada do calendário de 29 para 30 algo diferente, por exemplo, da virada do 28 para o 29?

Com a experiência de quem passou pela experiência há alguns anos (não tantos assim), acredito que encontrei algumas pistas que podem ajudar àqueles que estão dentro dela ou na iminência de sê-lo.

Quando se é criança, a única coisa que se quer na vida é ser adolescente. Nessa idade, o cérebro é tomado pela certeza de que ser mais velho é melhor. Afinal, os adolescentes fazem um monte de coisas que crianças não podem fazer, ou, pelo menos, não podem fazer sozinhas: brincar na rua, ir a festas, sair à noite, etc.

De certo modo, esse sentimento continua durante a adolescência. Mesmo com certa autonomia, o adolescente ainda é privado de muita coisa. Não pode beber – pelo menos não legalmente -, não pode dirigir, e ainda tem de se submeter inteiramente à vontade dos pais. Como não se governa, tudo que o adolescente quer é tornar-se um adulto e passar a comandar os rumos de sua própria vida.

Quando chega a juventude, o sujeito alcança o auge. Finalmente, o cara está na posição de poder decidir sozinho o que quer fazer. Não tem mais obrigação de dar satisfação aos pais, já pode trabalhar e ganhar seu próprio dinheiro, e fazer legalmente tudo aquilo que um adulto pode fazer.

A isso se soma o natural deslumbramento com as possibilidades da vida adulta. Em regra, o sujeito faz vestibular, entra na faculdade e sonha com um mundo de alternativas para quando se formar. Médico, engenheiro ou advogado, o cidadão sempre acha que será um profissional de sucesso e, por mais cacetadas que leve, sempre há tempo de revertê-las e dar a volta por cima no futuro.

Fora isso, o cara se encontra no apogeu do vigor físico e, por conseguinte, da beleza exterior. Ainda que o cidadão não seja o mais bonito do mundo, uma dieta do tipo não xiita, associada a algumas poucas horas de academia e uma boa repaginada no vestuário já mudam completamente o seu visual. Isso vale, obviamente, para ambos os gêneros.

Terminada a faculdade, o sujeito começa a enfrentar as agruras da vida. De repente, o sujeito descobre que a casa dos pais não era um lugar tão inóspito assim. Lá, pelo menos, as responsabilidades não eram tantas e sempre havia alguém a quem recorrer e com a qual você sempre poderia contar.

Mesmo assim, o sujeito não se abala. As dificuldades são grandes, mas ele é mais forte do que isso. Contagiado pela idéia infantil de que ser mais velho é melhor, o cidadão tende a desenvolver uma confiança cega no futuro. Para o jovem, naturalmente convencido de que vai viver para sempre, o futuro nunca pode ser mau, simplesmente porque cabe a ele criá-lo.

E aí chegam os 30 anos.

Com o terceiro decênio, encerra-se a possibilidade de o sujeito se qualificar como jovem. Ele é, sem nenhuma margem de manobra, um adulto, com todas as responsabilidades que isso implica. De repente, o sujeito olha pra trás e descobre que boa parte de sua vida já passou. Ou, pelo menos, aquilo que a maioria identifica como a melhor parte dela: a juventude.

Súbito, tudo aquilo que parecia fácil e simples – bastava querer – se torna difícil e complexo. O futuro não é mais um horizonte de possibilidades infinitas, todas ao alcance da mão, mas antes uma perspectiva incerta e até certo ponto sombria, pois o sujeito se dá conta de, sozinho, nem sempre conseguirá resolver tudo.

Pra piorar, o vigor físico começa a declinar. O corpo perfeito, antes alcançado apenas se cortando o refrigerante das refeições e com alguns minutos de caminhada, depende agora de uma dieta de grande restrição calórica e horas de esteira. Para as mulheres, o look noturno perfeito não depende mais apenas de um bom batom e rímel, mas de meia hora em frente ao espelho, entre bases, pós e blushes.

Compulsando tudo isso, de repente o cara descobre que as opções de vida começam a rarear. Por exemplo: Quem sonha em ser jogador de futebol aos 18 anos ainda tem chance de se tornar um profissional aos 20. Para quem já completou 30, o único esporte com o qual é possível sonhar é o xadrez. Nada que demande alto nível de condicionamento físico é mais viável depois dos 30. Se o sujeito já não chegar a essa idade como desportista, não tem como se tornar um depois dela.

Além disso, se o sujeito ainda não estiver estabelecido profissionalmente, começam a surgir dúvidas quanto à opção de carreira que ele fez. Uma coisa é um jovem que acabou de entrar na Faculdade de Direito largar tudo dois anos depois para seguir a Medicina. Outra coisa, completamente diferente, é o mesmo cidadão fazer isso aos 30, já como advogado, quem sabe casado, possivelmente com dois filhos para criar. A responsabilidade para com a manutenção alheia acaba por limitar as escolhas do cidadão, o que pode conduzi-lo a uma perspectiva aterrorizante: “E se eu não gostar do que faço, estou para o resto da vida condenado a fazer isso?”

Como mágica, todas essas inquietações surgem com a virada dos 29 para os 30. No fundo, no fundo, a questão é bem simples: quando entra na terceira década de existência, o sujeito descobre a finitude da vida. Por isso entra em crise.

“A crise dos 30 deve ser motivo de desespero?”

Claro que não. Afinal, estão aí os bilhões de pessoas com mais de 40, 50, 60 e até 90 a provar o contrário. Trata-se quase de um ritual de passagem, que toda pessoa deve experimentar como prova para a maturidade. Depois dela, o cidadão acaba descobrindo que a idade adulta, como tudo na vida, traz vantagens e desvantagens em relação à juventude. Como diria Bentinho em Dom Casmurro, “vida diferente não significa vida pior; é outra coisa”. Se o vigor físico já não é mais o mesmo, a capacidade intelectual se aprimora cada vez mais. E se não há mais pique para virar a noite em baladas, poucas coisas darão mais prazer do que passar o dia com os seus filhos.

O cidadão de 30 e a mulher balzaquiana, na verdade, devem ir buscar consolo para a crise em Tolkien. Porque nós não decidimos em que época nascemos. All we have to decide is what to do with the time that is given us.

Boa reflexão a todos.

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2 respostas para A crise dos 30

  1. Julianna disse:

    O tempo perdido, quando passa, zomba da gente. ( Georges Najjar Jr – livro Desaforismos )

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