A morte do último grande estadista

Quem habita o planeta Terra e não está em coma deve ter visto a notícia de que ontem morreu Nelson Mandela. A morte de Mandela era um fato previsível – como o é para todos – e até certo ponto esperado, pois, de seus 95 anos, passara pelo menos os últimos dois anos entre complicações de saúde e internações hospitalares. Mesmo assim, a passagem de Mandela espalhou tristeza e consternação mundo afora.

Não quero aqui entrar em detalhes sobre a história de vida de Mandela. Para isso, existem os obituários de praxe dos jornais e sites do mundo inteiro. Interessa-me aqui apenas analisar o exemplo que Madiba deixa para o mundo.

Afinal, o que fez desse homem simples alguém tão especial, a ponto de despertar comoção em gente comum que jamais o conheceu, algumas das quais nem sabem exatamente onde fica a África do Sul?

A meu ver, a resposta para isso é uma só: morreu o último grande estadista do século XX.

Eu sei, eu sei, “estadista” hoje tornou-se um vocábulo banalizado. Basta o sujeito fazer um discurso mais aprumadinho que já vem alguém adjetivá-lo de “estadista”. Nos últimos anos, por exemplo, já vi tacharem de estadistas Angela Merkel (!), Barack Obama (!!) e até mesmo – pasmem – Dilma Roussef (!!!).

Como este que vos escreve é um cidadão do século XVIII, meu conceito de estadista é bem mais restrito. Nele não cabem nenhum dos mencionados. Na verdade, não cabe nenhum dos atuais líderes mundiais. E é isso que faz de Mandela um sujeito tão especial.

Quem, senão ele, poderia conduzir um país marcado pela segregação racial a uma transição pacífica para a democracia? Quem, senão ele, poderia impedir uma guerra civil revanchista da maioria negra contra a minoria branca que a oprimiu por décadas? Quem, senão ele, poderia transformar uma nação até então pária no cenário internacional em um exemplo para o mundo?

Olhando-se em retrospecto, é fácil dizer que Mandela não fez mais do que o bom senso recomendaria. Na convulsão pós-Apartheid, no entanto, enxergar o futuro não era uma coisa muito simples. Quem assistiu o magnífico filme Invictus pode ter uma idéia do tamanho de visão de futuro de Mandela. Diante da iminente extinção dos Springboks, a seleção nacional de rugby, Mandela contraria quase todo o mundo ao seu redor para manter o time para o qual apenas os brancos de seu país torciam.

Para um político qualquer, seria muito mais fácil e politicamente indolor sancionar a vontade da maioria que o elegeu e decretar a extinção dos Springboks. Mas Mandela não. Movido pela convicção interna de que a única forma de integrar a nação era fazer com que a maioria negra agisse com a generosidade que lhe fora negada pela minoria branca, negou-se a extinguir a seleção nacional de rugby. Não só isso. Organizou uma campanha nacional de apoio ao time e, pelo menos pelo breve período do Campeonato Mundial de 1995, fez com que toda a gente, independentemente da coloração da pele, torcesse por ele.

Mas Mandela não fez só isso. Contrariando a regra africana segundo a qual presidentes só saem do poder mortos ou depostos, deixou voluntariamente o poder apenas cumprir apenas um período na presidência. Bastava mover um dedo para que tivesse o mandato prorrogado pela força de seu carisma. Preferiu deixar o cargo e mostrar aos sul-africanos o verdadeiro sentido de uma democracia. Em um mundo no qual todo o político só pensa em formas de se manter no poder na próxima eleição, convenhamos, não é pouca coisa.

Ao contrário do que apressadamente disseram alguns comentaristas mais empolgados, Mandela não foi a maior figura pública do século XX. Embora seja difícil comparar épocas e contextos políticos distintos, ainda assim é difícil alguém bater Churchill, um sujeito que, quase sozinho, salvou a civilização ocidental em 1940.

Ainda assim, o Panteão da História guardará um lugar de honra para Nelson Mandela. Ele não foi somente um “campeão da liberdade” ou o “grande líder da África do Sul”. Ele foi o símbolo de uma igualdade buscada há pelo menos 500 anos, quando o primeiro negro escravo tomou um navio com destino à América.

Por tudo isso, Mandela foi o maior estadista do derradeiro quartel do século XX. Sua capacidade de liderança, sua integridade e sua dignidade só encontram paralelo na mesma época com talvez João Paulo II, que liderou a marcha pela derrubada do comunismo no Leste Europeu. A favor de Mandela, no entanto, conta o fato de que teve de enfrentar praticamente sozinho todas as agruras da transição democrático-racial da África do Sul, ao passo que João Paulo II jamais teria conseguido acabar com o regime soviético sem a providencial ajuda do governo americano.

De Mandela, portanto, fica o exemplo do homem. Mais que isso. Fica o protótipo do único Santo Secular dos nossos tempos.

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4 Responses to A morte do último grande estadista

  1. Avatar de K K disse:

    Esse texto é uma bela homenagem a Mandela, meu amigo! Ótimo, como de costume… Bjos

  2. Avatar de Mourão Mourão disse:

    Muito bom meu caro. O que acho verdadeiramente deplorável é ver que existe gente disposta a denegrir Mandela e, mais ainda, que um amigo meu me remeta a imoralidade do texto, que pela natureza esdrúxula acabei lendo para conhecer a argumentação. O que sobrou foi indignação e aborrecimento, por exclusiva culpa da minha estúpida curiosidade. Por isso mesmo, lê-lo , agora, me deu um prazer redobrado.
    Valeu.

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      O pior é que elas existem, Comandante, e aos montes. Foi justamente por isso que resolvi escrever este post. Não poderia assistir calado ao “Febeapá” da ala reacionária e demente da imprensa nacional. Um abraço.

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