A despedida da Enciclopédia do Futebol

Para quem ainda não sabe, morreu ontem no Rio de Janeiro, aos 88 anos, Nilton Santos. Pouca gente deu a devida atenção, muito menos os jogadores da nova geração. No máximo, podem ter lamentado a morte de mais um cidadão. Mas a maioria não conhece e muito menos compreende o tamanho da importância que Nilton Santos teve para o futebol brasileiro.

Criado no Botafogo, Nilton Santos fez sua carreira como lateral-esquerdo. Mais que isso. Foi ele quem inventou o conceito de lateral que conhecemos. Reza a lenda que, ao ser selecionado no peneirão da Estrela Solitária, Nilton Santos chamou atenção pela habilidade com que conduzia a pelota. Sem pestanejar, o técnico do infantil o colocou para jogar no ataque. Afinal, lugar de jogador habilidoso era perto do gol adversário. Foi um desastre. Nilton Santos não conseguia fazer coisa com coisa com tão pouco espaço no campo para se movimentar.

Partiu dele, então, a idéia de jogar mais atrás. Olhando o campo de frente, com todos os jogadores na sua alça de mira, ele poderia analisar o desenvolvimento do jogo, de maneira a exercer em sua plenitude a capacidade de enxergar a melhor jogada e se posicionar no melhor lugar.

Mesmo assim, algo de bom ficou de sua curta experiência como atacante: a vontade de ir à frente. Há de se entender que, naquele tempo, os laterais eram responsáveis apenas pela cobertura dos lados da área, cujo centro ficava sob responsabilidade do “beque” e do “quarto-zagueiro”.

Pois bem. Quando tinha a bola e via o corredor livre diante de seus olhos, Nilton Santos usava toda a sua habilidade de “atacante” para passar pelos adversários. Entrou para a história o gol marcado na estréia do Brasil na Copa de 1958. Com o técnico do time louco na lateral gritando e mandando que voltasse para a defesa, Nilton Santos partiu pra cima da defesa austríaca e marcou um gol antológico:

Além disso, Nilton Santos era um excelente marcador.  Antecipava-se à jogada e cortava o lançamento. Elegante, jogava com a cabeça erguida, sem olhar a bola. Por isso mesmo, jamais deu um carrinho. Como ele mesmo gostava de repetir, “futebol foi feito para jogar com a cabeça em pé, não deitado”.

Malandro, é possível que jamais o Brasil ganhasse o título mundial de 1962 se ele, após uma falta cavada por um atacante espanhol, não desse dois passos à frente da área para evitar a marcação do pênalti.

Mesmo que não tivesse sido um grande jogador, Nilton Santos deveria ser reverenciado pelo simples fato de ter permitido ao mundo conhecer Garrincha. Já então um jogador consagrado do Botafogo, Nilton Santos participou de um peneirão no qual Garrincha foi testado. Ao melhor estilo do Mané, fez pouco caso de Nilton Santos e driblou-o, metendo a bola por entre as suas pernas. Como o próprio Nilton Santos gostava de recordar, depois disso aconteceram duas coisas. Primeiro, ele disse ao técnico: “Contrate agora esse cara”. Segundo: “Eu passei a tranquilo depois daquilo”, sabendo que não teria de jogar contra ele.

Mas Nilton Santos não era só futebol. Em um mundo onde abundam os “a gente vamos” e “nóis fez”, Nilton Santos destacou-se pela cultura, pela capacidade de articulação e, claro, pela conhecida e prodigiosa memória. Foi por ela, aliás, que ganhou o apelido “Enciclopédia do Futebol”.

Com Nilton Santos, morre não somente mais um grande jogador de futebol. Morre parte da história do futebol brasileiro. Mesmo sem se dar conta, os mais novos perderão parte da magia que faz do futebol o esporte mais popular do mundo.

Ah, Nilton Santos… Quando surgirá outro?

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