Os ataques de tubarões em Boa Viagem

Quem assistiu ao noticiário ou navega ainda que parcamente na Internet, deve ter visto o triste episódio de mais um ataque de tubarão na praia de Boa Viagem, no Recife. Uma estudante paulista de apenas 18 anos nadava nas águas revoltas pela ressaca quando teve sua perna decepada por um tubarão, ocasionando uma mancha vermelha no mar que caberiam melhor em algum filme de terror.

A questão dos ataques de tubarões em Boa Viagem é algo que intriga ambientalistas e administradores públicos há mais ou menos 20 anos. Ninguém ainda conseguiu explicar a razão pela qual até a metade da década de 80 praticamente não existiam registros de ataques e, desde então, estes já somam quase 60 casos.

Maior presença humana não é. Afinal, gente toma banho em Boa Viagem desde quando se inventou o hábito de ir à praia. A prática do surf tampouco constitui uma explicação plausível, já que pelo menos desde a década de 1960 as pranchas deslizam pelas ondas que batem nos arrecifes da orla. Nem mesmo a topografia submarina favorável a peixes de grande envergadura, como os tubarões, ajuda a explicar a explosão de ataques, visto que a condição geográfica da área é a mesma desde sempre.

A suspeita maior recai sobre o Porto de Suape. Situado em Ipojuca, ao sul do Recife, Suape é uma referência nacional de porto moderno e eficiente. Criado por uma lei estadual em 1978, Suape foi construído ao longo da década de 80 e, a partir dos 90, despontou como um dos principais portos do Nordeste.

O problema, como sempre, foi o projeto. Para construir o Porto, dois dos quatro rios que desembocavam na Baía de Suape foram aterrados para dar lugar às instalações portuárias. Com o fim da desova de sedimentos e a consequente redução do plâncton na área do porto, toda a cadeia alimentar do local foi afetada. Menos plâncton significa menos peixes que se alimentam dele. Menos peixes que se alimentam de plâncton significa menos peixes que se alimentam dos peixes que se alimentam de plâncton. E, no final das contas, menos peixes para servirem de alimento para os tubarões que perambulavam por ali.

Pra piorar, o aterramento dos dois rios afetou a dinâmica da salinidade na região. Como as fêmeas dos tubarões cabeças-chata precisam de águas de menor salinidade para desovarem, Suape deixou de ser um local propício para a reprodução. Resultado: com menos comida e sem poderem se reproduzir direito, os tubarões tiveram de buscar outro lugar para viver. E o encontram um pouco mais ao norte, no estuário do Rio Jaboatão.

Além da maior proximidade do Recife – Jaboatão é praticamente dentro da capital pernambucana -, o Rio Jaboatão sofre pela contaminação urbana de detritos, sangue e restos de outros animais que são ilegalmente despejados em suas águas. Isso pode ter contribuído para que os tubarões o identificassem como um bom lugar para viver.

Em que pese a tragédia pela qual passa a família da estudante que morreu nesta semana, há de se ter em vista que tubarões não são inimigos dos humanos. Nós não fazemos parte da sua cadeia alimentar. Na verdade, há muitos indícios a mostrar que os ataques ocasionais devem-se à confusão que eles fazem com a semelhança entre o nosso vulto na água e o de focas ou tartarugas. Por isso mesmo, o mais comum é eles “apenas” morderem uma vez e, logo depois, abandonarem a pessoa, ao perceberem que não se trata de uma presa.

Independentemente de qual seja o fator mais decisivo para a transformação de Boa Viagem em um terror para os banhistas, é quase certo que sua causa seja humana. No fundo, os ataques de tubarões a banhistas na orla do Recife são apenas uma forma de a Natureza mostrar o tamanho da besteira que fizeram.

Ao fim e ao cabo, a estudante paulista é apenas mais uma vítima inocente de um erro praticado pela arrogância dos homens perante a Natureza. Que fique a lição para a posteridade.

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Uma resposta para Os ataques de tubarões em Boa Viagem

  1. Mourão disse:

    É meu caro Senador. não é porque a arrogância dos “irmanos” é um pouquinho maior.
    Boa noite irmano e até próximo, embora do blog eu esteja sempre bem perto.

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