A verdade sobre o anarquismo

Desde que pipocaram todas essas manifestações que temos assistido diariamente no Brasil, um diagnóstico relativamente comum de se escutar – principalmente de quem critica as manifestações – é que elas têm um caráter “anárquico”. De certa maneira, quem tasca tal adjetivo nas passeatas aferra-se ao sentimento coletivo de que anarquismo é sinônimo de saques nas ruas, depredação do patrimônio público e desordem geral.

Não é pra menos. Quando se consulta o dicionário, encontra-se como sinônimo de “anárquico” os vocábulos “confuso”, “desordenado” e “desorganizado”. São poucas ou quase nulas as possibilidades de se associar “anárquico” como algo derivado da doutrina anarquista. Pior que isso só mesmo “anarquizar”, para o qual nosso pai Aurélio relaciona como sinônimos “amotinar”, “desordenar”, “desorganizar”, “sublevar” e “subverter”.  Convenhamos, nada disso recomenda o anarquismo para os mais incautos. É uma pena. Na verdade, o anarquismo como doutrina vai muito além desse reducionismo exagerado presente no vocabulário popular.

Do ponto de vista estritamente filosófico, o anarquismo representa uma doutrina segundo a qual toda a forma de dominação humana, normalmente expressa pela forma de autoridade sobre o seu semelhante, deve ser extinta. Trata-se, pois, de um conjunto de princípios políticos, sociais e culturais a pregar que todas as formas de subjugar o ser humano devem ser abolidas em favor de sua liberdade total. E aí entram no mesmo bolo Estado, partidos políticos, associações e, claro, também as Igrejas. Todas essas instituições representam, de certo modo, a imposição de valores e de comportamentos preestabelecidos à toda a coletividade que, passivamente, a eles deve se submeter.

Tendo como mola mestra as obras de William Godwin, Pierre-Joseph Proudhon e Mikhail Bakunin, o anarquismo não prega a total e completa irresponsabilidade do homem ou a desobediência a qualquer código de conduta. Muito pelo contrário. O que o anarquismo combate é a imposição de códigos universais baseados unicamente no preceito da autoridade (legal, no caso do sistema jurídico; ou moral, no caso do sistema religioso). É dizer: devo me submeter a alguma coisa não porque seja bom ou porque eu concorde com ela, mas porque alguém (Estado, Igreja, etc.) está mandando que eu faça assim.

Contra essa estruturação social, o anarquismo defende um código de conduta baseado na autodisciplina e no próprio senso de responsabilidade individual. Ou seja: devo me conduzir assim porque estou convencido de que isso é melhor pra mim e porque, dessa forma, estou agindo de maneira responsável para com meu próximo. Sob certo ponto de vista, é possível até mesmo enxergar nele um quê de existencialismo, pois toda a sua conduta deve ser governada pelo princípio de que as suas ações são aquelas que você entende como ideias para todos os seus semelhantes.

De certa forma, a responsabilidade na conduta é muito maior no anarquismo do que em qualquer outro sistema de governo existente, porque quando você age, não é unicamente a sua conduta que está em jogo, mas o agir de toda a humanidade.

No limite do limite, o anarquismo é o fim último do comunismo. Ambos trabalham com uma sociedade iluminada, livre e desprovida de Estado. No primeiro caso, no entanto, o passo antecessor dessa sociedade é a ditadura do proletariado. Para o anarquismo, esse passo é desnecessário. Como os doutrinadores anarquistas profetizaram com quase um século de antecedência, a imposição de uma ditadura redundaria apenas em outra modalidade de sociedade desigual e autoritária.

Provavelmente pelas maluquices que anarquistas espanhóis aprontaram na Guerra Civil Espanhola, o anarquismo acabou ficando com a pecha preconceituosa que hoje ostenta nos dicionários. Mas não se engane: saques e vandalismos podem ser tudo, menos anarquismo. Quem pratica saques é ladrão, e quem destrói patrimônio alheio sem causa é vândalo.

O anarquismo não tem nada a ver com isso.

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2 Responses to A verdade sobre o anarquismo

  1. Avatar de victor salaroli victor salaroli disse:

    excelente texto.

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