Por que as ruas têm tanta força?

Já há uns bons dois anos, quando se iniciou a tal da “Primavera Árabe”, o mundo meio que assistiu atônito ao festival de derrubadas de regimes mundo afora. De Mubarak a Ben Ali, de Khaddafi a Abdullah Saleh, um a um os governos ditatoriais ou autocráticos do Oriente Médio foram caindo como dominós enfileirados. Milhões de pessoas foram às ruas e conseguiram o que até pouco tempo antes seria impensável: o establishment político sucumbiu. Como a gravidade, tudo pareceu depender de apenas um pequeno empurrãozinho.

Agora, na Turquia e no Brasil, assiste-se à movimentação maciça da classe média indo às ruas reclamar de tudo e mais um pouco. Embora não exista nenhum – repetindo: NENHUM – paralelo entre o que ocorreu recentemente no Oriente Médio, na Turquia e as manifestações no Brasil, há um ponto que é comum a toda e qualquer manifestação popular: a noção de que uma massa de gente reunida nas ruas pode conseguir dobrar o poder estabelecido. E isso conduz à seguinte pergunta: de onde vem a força das ruas? Ou, mais especificamente, por que as ruas têm tanta força?

A questão é profunda e remete à formação do próprio Estado. Não quero entrar aqui nas eternas discussões entre organicistas e mecanicistas, ou, por outra, não interessa – para fins de responder às duas perguntas acima – saber as reais origens da criação do Estado. O que interessa saber é como a autoridade do Estado se exerce sobre o seu próprio povo.

Todo Estado, uma vez criado, estabelece uma série de regras de conduta e, para pô-las em prática, organiza uma determinada estrutura de execução dessas regras. Partindo-se do pressuposto de que as regras estabelecidas atendem à vontade da maioria da população, o aparelho estatal se estabelece e começa a funcionar. Hospitais, escolas, segurança, forças armadas, enfim, tudo é estruturado de maneira a, primeiro, garantir a existência do próprio Estado e, segundo, a consecução de seus objetivos.

O problema é que é muito delicado o equilíbrio que mantém a autoridade dessa estrutura sobre o povo. O aparelho estatal depende da aceitação geral de sua atividade para funcionar. É dizer: tudo funciona na base da legitimidade. É, pois, por a maioria da população se sentir representada – e até de certa forma amparada – pela estrutura do Estado que ele consegue se manter na ativa. E isso vale para qualquer tipo de Estado, seja ele democrático ou ditatorial. Em resumo, o Estado só funciona porque a população, voluntariamente (democracia) ou forçadamente (ditadura), se submete a ele.

Quando a massa vai às ruas – a depender da quantidade, é claro -, isso demonstra que o mecanismo de legitimidade foi trincado e parou de funcionar. Quer dizer: o aparelho estatal, montado na base de uma super-estrutura e comandado por políticos ou ditadores, fica literalmente sem chão. A questão é quase matemática: o aparelho estatal, como uma parte pequena do Estado como um todo, não consegue subordiná-lo por inteiro sozinho. Ele depende, em alguns casos mais, outros menos, da submissão popular ao seu governo. Se o povo deixa de se submeter, toda a estrutura rui.

É isso, portanto, que explica o pânico que governantes de todos os matizes e colorações partidárias têm ao se deparar com a massa nas ruas. De nada valem os votos recebidos nas urnas ou as baionetas que sustentam uma ditadura no poder. Tudo cai à medida que a legitimidade popular se esvai, e ela se esvai numa velocidade diretamente proporcional à quantidade de gente que sai à rua.

Quando isso acontece, a única coisa que o sistema pode fazer é tentar restaurar os mecanismos de legitimidade. Ou, de forma mais clara: recuperar a confiança do povo.

“Como fazê-lo?”

Aí é que são elas…

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4 respostas para Por que as ruas têm tanta força?

  1. Mourão disse:

    OK meu caro, as massas têm muita força, porém nos movimentos a que elas se lançam sem vanguarda, quem pagou a conta, geralmente, foi o próprio povo, mais ainda as classes inferiores(des providas de dinheiro, educação e prestígio. Basta dar um olhadela na história. .Afora isso, nos grandes confrontos de interesse, uma coisa é certa: se a direita apoia movimentos populares, se patrão e empregados formam consenso algo de muito, muito grave mesmo está acontecendo (nazismo, fascismo, guerras, fundamentalismo religioso e por aí vai). A multidão enfurecida sem liderança vira turba e,em um País violento como Brasil, e não falo só de hoje, a malta, infiltrada entre os jovens e velhos cidadãos, se delicia em poder saquear, destruir causar grandes tumultos, sob o olhar atemorizado das elites políticas, inclusive os governos, e beneplácito de uma mídia temerosa de ser atacada e,também, de perder audiência. Sabemos como começou, não sabemos realmente por que e, muito menos ainda , como terminará. Uma certeza porém o trabalhador verdadeiro é o principal candidato a pagar a conta.

    • arthurmaximus disse:

      Não sou tão pessimista, Comandante. Continuo acreditando que os atos de violência registrados são de uma ínfima minoria, considerada a quantidade de gente nas manifestações. Uma coisa é certa, no entanto: não sabemos realmente como começou e menos ainda como terminará. Um abraço.

  2. Mourão disse:

    Valeu. Gosto de sua sempre elegante conduta de responder os comentário.

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