A falência da grande imprensa no Brasil, ou Do fim do monopólio da informação

Muito tem se escrito sobre a movimentação popular espontânea que eclodiu no país na última semana. Por razões outras que é melhor não comentar, não deitarei aqui minhas opiniões sobre o movimento em si e seus impactos sobre a política nacional. Limitar-me-ei a falar sobre um aspecto que provavelmente passará incólume e que, até agora, é a única conclusão certa de tudo que se passou até agora: a falência da grande imprensa no Brasil.

“Falência” aqui, entenda-se, não está no seu sentido econômico – de quebra por falta de recursos – ou mesmo jurídico – encerramento dos negócios por ordem judicial. Está, na verdade, em seu sentido moral. Aliás, moral talvez não seja a definição mais exata. Mais correto seria dizer que a grande imprensa brasileira perdeu seu caráter funcional. Explico.

Desde sempre, o papel da imprensa é tentar repassar aos seus consumidores, com o mínimo de isenção, o relato dos acontecimentos locais, nacionais e mundiais. Há, claro, espaço para a expressão das opiniões, por meio de editoriais e, principalmente, por intermédio dos seus colunistas. Presunçosamente, houve um tempo em que essa classe de jornalistas compunha aquilo que a própria mídia chamava de “formadores de opinião”, ou seja, aqueles que conseguiam imprimir no imaginário coletivo a sua própria visão dos fatos. O povo, portanto, não seria mais do que a famosa “caixa de ressonância”, a que certa vez aludiu Carlos Alberto Parreira ao reclamar da cobertura da imprensa esportiva, na Copa de 1994.

No entanto, como em quase todos os ramos, poder acaba corrompendo, e poder absoluto corrompe absolutamente. Com o monopólio da informação nas mãos, a grande imprensa achou que podia fazer o que bem entendia: pautar o que quisesse, publicar o que lhe convinha e solenemente ignorar o que não interessasse. Mais do que narradora dos fatos, a imprensa se tornara condutora dos acontecimentos. Não custa lembrar que o movimento popular mais recente comparável às atuais manifestações foram as passeatas pela derrubada de Fernando Collor de Mello em 1992. Nelas, o papel da imprensa foi fundamental: desde a capa da revista Veja com a entrevista de Pedro Collor, até as convocações pelo Jornal Nacional para que estudantes saíssem enlutados quando Collor pediu que se vestissem de verde e amarelo. Collor jamais teria caído se a grande imprensa não tivesse ficado contra ele.

Agora, não. Desde quando a Internet apareceu, há uns 20 e poucos anos, prenunciava-se o dia em que o monopólio da informação chegaria ao fim. Com a liberdade de criação de sites, diziam os mais esperançosos, seria natural que a grande imprensa cedesse espaço a outsiders e a atores que não compunham a sua rede de interesses. No entanto, como se viu, a capacidade de adaptação da grande imprensa era relativamente grande, e não tardou para que também na Internet ela se tornasse, senão monopolista, pelo menos hegemônica na distribuição de notícias. Somente agora, com a disseminação dos blogs e a criação de redes sociais de grande alcance foi possível fazer com que a grande imprensa perdesse seu papel de “indutora” de acontecimentos e voltasse a exercer apenas seu papel reprodutor.

Isso pode parecer coisa do passado, mas não é. Há pouco mais de um mês, um grupo chamado “Fortaleza Apavorada” convocara uma manifestação para pedir por mais segurança. Alguns setores da imprensa local acharam que era possível ignorá-la. Deu no que deu: a maior passeata de Fortaleza em mais de 20 anos, com as inevitáveis menções a ela no dia seguinte.

A coisa é de tal magnitude que a grande imprensa está completamente atarantada, em busca de explicações. Pela primeira vez em décadas, movimentos populares de contestação brotaram do nada sem que ela tivesse qualquer papel na sua formação. Tudo foi forjado à sua revelia e até mesmo como reprodutora dos acontecimentos ela tem sido alijada. Quem viu repórteres de uma grande rede falando de helicópteros e escondendo o logo da emissora enquanto estavam no meio da multidão deve entender o que estou querendo dizer.

Não à toa, ninguém na imprensa nacional ousou chamar a onda de manifestações de “Primavera Brasileira”, algo que seria natural, dado que o epíteto coube em 11 das últimas 10 revoltas populares noticiadas mundo afora. De certo modo, a grande imprensa – retraída – sente que a malta a enxerga como parte do problema, e não da solução.

20 e poucos anos depois, o fim prenunciado do monopólio da informação chegou ao Brasil. Graças às redes sociais, a transição finalmente acabou.

Bem-vindo aos novos tempos.

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7 respostas para A falência da grande imprensa no Brasil, ou Do fim do monopólio da informação

  1. K disse:

    De fato, Arthur, ontem à noite eu conversava com LZ sobre os protestos pelo Brasil e comentávamos justamente isso: como as redes sociais e os blogs haviam suplantado a imprensa frente aos últimos acontecimentos. Tentou-se dizer que era um movimento sem causa, que eram apenas vândalos os envolvidos, que a polícia apenas protegia os cidadãos de bem dos baderneiros, mas as manifestações em redes sociais, em vídeos, em blogs e afins não impediu que o povo formasse uma opinião diversa acerca dos últimos acontecimentos e fez com que a própria imprensa mudasse o discurso acerca dos protestos. Realmente são novos tempos esses que estamos vivendo, tomara que venham para o bem de todos e a felicidade geral da nação enfim… Bjos

    • arthurmaximus disse:

      É isso aí, K. Pelo visto, o pessoal da grande imprensa e mesmo das classes governantes ainda não se deu conta disso. A automovimentação do povo é algo com o qual eles não contavam e para a qual não estão preparados. Vamos ver no que vai dar isso tudo. Beijos.

  2. Mourão disse:

    Por razões que você conhece, é mais necessário do que nunca se estudar esse fenômeno, compreendê-lo e interpretá-lo com a exatidão possível, para que possamos realizar análise consistente sobre as grandes questões regionais, nacionais e mundiais.

    • arthurmaximus disse:

      Concordo. Não é hora de análises precipitadas, nem muito menos de recorrer a paradigmas históricos que, mais uma vez, se mostram insuficientes para esclarecer o fenômeno atual. Um abraço.

  3. Mourão disse:

    Quando falei da necessidade de estudar o fenômeno quis me referir à instituição.Por isso iniciei parafraseando o início do segundo parágrafo do seu texto. Porém, em muitos aspectos dos acontecimentos, tão diferente de outros de outras épocas, os paradigmas históricos são importantes ,até mesmo para mostrar as diferenças. Outro abraço

    • arthurmaximus disse:

      Sem dúvida que os paradigmas históricos são relevantes, Comandante. Eles sempre servem de baliza para entender-se os acontecimentos presentes e projetar o futuro. O erro está em querer sempre “enquadrar” um acontecimento atual em um modelo de algo já ocorrido. É isso que chamo de erro de lutar “a guerra passada”. Há sempre de se levar em consideração, na análise de tais fenômenos, as particularidades que fazem dele algo diferente do anterior. Um abraço.

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