O Editorial d’O Globo

Ainda bem que o ano de 2012 com suas previsões catastrofistas já se foi, porque o que aconteceu na sexta-feira passada poderia ser muito bem um sinal do fim dos tempos.

Pra quem não lê O Globo ou não assiste ao Jornal Nacional, na semana passada um editorial das Organizações Globo tocou em um dos pontos mais sensíveis da história da Vênus Platinada: o apoio ao golpe de 1964. Com o título “Ressurge a Democracia”, a primeira página d’O Globo do dia 2 de abril de 1964 celebrava a insurreição militar contra um governo que insistia em arrastar o Brasil “para rumos contrários à sua vocação e tradições”.

Cevada por manobras legais que favoreceram sua expansão – como o famoso empréstimo da Time Life -, as Organizações Globo cresceram à sombra dos gorilas. Estabeleceram com os golpistas uma tal relação de dependência mútua que muitos não hesitariam em classificá-la como uma simbiose. Aos militares, interessava uma mídia que pudesse atender a seus requerimentos sempre que necessário, seja abafando escândalos internos (como os desvios de certos generais), seja escondendo movimentos de contestação ao regime (como as Diretas Já). Do lado da Globo,  interessava expandir sua rede de tal modo que conseguisse o virtual monopólio da comunicação no Brasil. E, com ele, uma capacidade quase infinita de manipular informações e, claro, ganhar dinheiro. Muito dinheiro.

Mesmo depois da redemocratização, a força das Organizações Globo continuou gigantesca. Nem é necessário falar da famosa manipulação do debate do segundo turno entre Lula e Collor em 1989. Basta lembrar que, sem o apoio da Globo, é bem possível que Fernando Henrique Cardoso jamais terminasse seu mandato. Por muito menos do que se passou no governo FHC, dezenas de governos mundo afora foram depostos pela insatisfação popular. Fernando Henrique não só conseguiu salvar seu pescoço como ainda está aí, flanando pelas colunas de jornais como se fosse algum tipo de oráculo político. Se isso aconteceu, muito se deve à benevolência com que foi tratado pelos Marinho.

Por tudo isso, o editorial da última sexta-feira representa um episódio sem precedentes. Para quem até outro dia era reconhecido como o maior império midiático do Brasil, fica difícil acreditar que “Toda-Poderosa Nave Mãe” tenha tido a humildade de ajoelhar no milho e pedir desculpas pelo erro histórico que cometeu. Mas será que foi isso mesmo o que aconteceu?

Do ponto de vista do texto, entre o primeiro e o último parágrafo – nos quais efetivamente se dá o pedido de desculpas – há uma infinidade de argumentos destinados a justificar o apoio aos milicos: risco de cubanização do Brasil, possibilidade de golpe por parte de Jango, contexto geopolítico da época, etc. Fora isso, há a indefectível lembrança de que a Globo não esteve sozinha no apoio aos militares. Ao seu lado estavam Folha, Estadão, JB e mais uma legião que saía às ruas pedindo a derrubada de Jango. Na verdade, o editorial que reconheceu o erro histórico está mais para um libelo de defesa do que para um ato de contrição. Sob esse ponto de vista, talvez não seja inteiramente fora de lugar a crítica feita pelo Clube Militar, de que o editorial não passa de uma manifestação de “revisionismo, adesismo e covardia do último grande jornal carioca“.

A bem da verdade, o que o editorial mostra é o tamanho da força das ruas e o medo que elas incutiram na Vênus Platinada. Afinal, o último presidente militar saiu pela porta dos fundos do Planalto em 1985 e desde 1989 os brasileiros voltaram a eleger seu presidente. O próprio golpe de 1964 já tem quase 50 anos. Em todo esse tempo, nunca as tais “discussões internas” conseguiram gerar massa crítica suficiente para expor o incômodo da instituição com sua posição golpista de então ao distinto público. Foi o “clamor das ruas”, como diz o próprio editorial, que trouxe à tona o ato de penitência.

De certa forma, a intenção da Globo com esse edital livrar-se do pesado fardo que carrega e que faz a massa integrá-la ao conceito de “tudo-que-está-aí”. É mais ou menos como se dissesse: “Olha, foi mal, aí. Mas, daqui pra frente, podem contar com a gente”. Conforme foi antecipado aqui, a Nave Mãe deu-se conta de a grande imprensa, no Brasil, foi atropelada pelos acontecimentos. E, agora, tenta retomar a dianteira dos fatos, livrando-se do peso de anos e anos de apoio ao regime militar.

Se ela vai conseguir?

Aí já são outros quinhentos…

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