Faz tempo que não dedico um post digno do nome à música. Para marcar o retorno dessa arte tão cara a este espaço, nada melhor do que promover a reestréia em alto nível. E, nesse caso, iremos a um disco que marcou a década de 90 e, particularmente, a vida deste que vos escreve: Three Tenors in Concert.

The Three Tenors in Concert
Organizado pelo húngaro Tibor Rudas e realizado no estádio do Dodgers em Los Angeles, o concerto foi um enorme sucesso televisivo e, posteriormente, sonográfico. Entre CDs e DVDs, foram mais de 12 milhões de cópias, o que tornou o álbum o mais vendido de música clássica de todos os tempos.
Tudo começara quatro anos antes, nas Termas de Caracala. Ao lado de Zubin Mehta, José Carreras, Plácido Domingo e Luciano Pavarotti tiveram a idéia de organizar um concerto para celebrar o fim da Copa do Mundo da Itália, em 1990. Na prática, descobriram que a teoria segundo a qual a união faz a força funciona mesmo. Embora todos já fossem artistas consagrados àquela altura, a reunião dos três para gravar algumas das árias mais populares de todos os tempos elevou-os à condição de popstars. Por todo lugar, suas presenças eram requisitadas e todo mundo disputava a tapa a entrada nas apresentações para ver, entre outras coisas, o famoso dó de peito de Pavarotti ao cantar Nessum Dorma, a ária mais conhecida da ópera Turandot.
Esse talvez tenha sido o maior feito dos três tenores: a popularização da música clássica, ou mais especificamente, da ópera. Até então, não era difícil encontrar quem conhecesse gente como Beethoven ou Mozart. Mas a ópera sempre foi um gênero meio arredio às multidões. Musicais de tempos passados, a mistura de teatro com gente berrando a plenos pulmões palavras incompreensíveis sempre foi algo que pareceu meio estranho para a maior parte do público.
Depois do Three Tenors in Concert, tudo mudou. Gente que jamais havia passado perto de uma ópera agora sabia de cor e salteado passagens de Werther, La Traviata e Carmen. Compositores como Verdi, Massenet e Puccini, antes restritos às camadas mais elevadas dos estratos sociais, tornaram-se íntimos da malta quase como Ary Barroso e Noel Rosa.
Se a seleção das árias já foi excelente, ainda mais feliz foi a distribuição delas entre as três estrelas. Embora todos fossem tenores do mais alto gabarito, algumas músicas “funcionariam” melhor com uns, e não com outros. Seria estranho, por exemplo, ver José Carreras se esgoelando para cantar Nessum Dorma, da mesma forma que Luciano Pavarotti talvez não conseguisse imprimir a sutileza necessária de Tu, ca nun chiagne. Por outro lado, ninguém melhor do que Plácido Domingo – com seu sotaque espanhol/mexicano – para cantar Granada.
Além das árias, a produção do evento ainda se esmerou em fazer um pout-porri do que havia de melhor na música popular mundial, de My Way a Singing in the Rain, de Marechiare a Te quiero, Dijiste, passando até mesmo pelo segundo hino nacional brasileiro, Aquarela do Brasil.
Depois do sucesso do concerto em Los Angeles, os três tenores fizeram apresentações conjuntas por 10 anos, quando, já no outono de suas carreiras, acharam que era melhor parar. Pouco tempo depois, em 2007, Pavarotti foi cantar em outras paragens, e o trio definitivamente se desfez.
Não faz mal. Felizmente, as gravações estão aí, como registro histórico de três amigos que, colocando a vaidade de lado, conseguiram juntos ser maiores do que individualmente jamais pensaram.
Abaixo, o vídeo completo da apresentação do Dodgers Stadium, para ouvir e se deliciar.