Quem vai a Milão, geralmente vai atrás de moda, das roupas caras e das grifes famosas. Milão é sem dúvida uma Meca do consumo mundial. Não à toa, uma das mais importantes semanas de moda do planeta acontece lá.
Mas Milão é também um centro de cultura incomparável. Não alcança Roma ou Florença, é verdade. No entanto, uma única obra de arte já valeria por si só a visita. Falo do Cenacolo Vinciano, ou, como é popularmente conhecido, A Última Ceia de Leonardo da Vinci.

Cenacolo Vinciano
Ao contrário da maior parte das obras de arte em matéria de pintura, a Última Ceia não é um quadro, mas um afresco. Localizado na Igreja de Santa Maria delle Grazie, a pintura enfeita aquilo que outrora foi o refeitório dos dominicanos do século XV. Deve-se a Ludocico Sforza, que mandara erguer a igreja em homenagem à sua santa protetora, a iluminada idéia de contratar Da Vinci para pintar aquela parede.
Até chegar no antigo refeitório, passa-se por um sistema de segurança que rivaliza com a dos silos de mísseis nucleares. A dificuldade, contudo, vale a pena. O afresco possui aproximadamente 5 metros de altura por 9 de comprimento. Impressiona menos pelo tamanho e mais pela elegante simplicidade da composição.
Leonardo pensou numa pintura a um só tempo comum e sagrada. É dizer: a idéia de pintar a Última Ceia em um refeitório trazia consigo a óbvia intenção de indicar que ali era um lugar para refeições. Entretanto, o retrato da passagem bíblica na qual Jesus reparte os pães e o vinho e institui a liturgia que deve ser consagrada em sua memória indica também qual a inspiração que deveria mover os clérigos que por ali passassem.
Mas o afresco não se resume a isso. Na verdade, a inspiração mais direta para a Última Ceia é a passagem do Evangelho de João, segundo a qual é também na Última Ceia que Jesus anuncia aos seus apóstolos que “Na verdade, na verdade vos digo que um de vós me há de trair” (Jo 13:21). Daí vem o espanto, a admiração e as conversações laterais entre os discípulos. Todos estão aturdidos com a revelação de Jesus Cristo.
Talvez daí também venha a explicação para um dos mistérios mais comentados da pintura: a mão desmembrada segurando uma faca.

Faca da Última Ceia
Olhando-se de perto, realmente é impossível saber de onde vem aquela faca. A primeira pessoa que vem à cabeça é Judas (por motivos óbvios), o homem de cabeça branca que se inclina em direção a João. Todavia, a indumentária e a posição da mão indicam que não pode ser ele o portador da faca. Há certo consenso entre os estudiosos de que a mão segurando a faca é Pedro. Devo confessar, contudo, que não entendo como. Enfim…
Além da faca, há várias teorias conspiratórias por trás da pintura. A mais famosa delas foi reciclada por Dan Brown no seu best seller O Código Da Vinci. Nenhuma delas tem o mais remoto fundamento histórico a embasá-las, mas é são as ficções que vendem mais livros. Logo…
A obra-prima quase foi destruída em um bombardeiro americano durante a II Guerra Mundial. Por algum milagre divino, todo o refeitório foi abaixo, menos a parede onde estava a pintura. Para nossa sorte, o afresco de mais de 500 continua lá, firme e forte, a despeito das restaurações ocasionais (a última tem 15 anos).
Visitar o Cenacolo exige programação (bem) antecipada. As entradas são restritas a grupos de 25 pessoas, que só podem passar 15 – isso mesmo, 15 – minutos lá dentro. Apesar disso, as entradas esgotam-se com quase dois meses de antecedência. Quem quiser adquirir o ingresso com antecedência, pode clicar aqui ou aqui. São sites nos quais é possível comprar as entradas, para depois recolher os tickets na bilheteria.
Para quem puder, não deixe de ir. Se há algo que pode ser incluído na lista das “coisas-que-eu-tenho-que-fazer-um-dia”, esse algo é o Cenacolo.