Não bastasse a renúncia de Bento XVI ao papado, a Itália se vê às voltas com o impasse na formação de um governo, depois das últimas eleições gerais ao Parlamento. No meio de uma das maiores crises de sua história, a Bota corre o sério risco de ficar acéfala, justamente no momento em que mais precisa de alguém para ditar o rumo. Mais do que representar mais um fator de instabilidade no já conturbado ambiente europeu, a crise política italiana é o retrato mais fiel da crise do parlamentarismo.
As raízes do problema já são de conhecimento público. O alto endividamento, o gasto perdulário dos orçamentos públicos e problemas demográficos jogaram o velho continente na mais latino-americana de suas crises. Um sujeito que esteve em coma nos últimos anos e acordar agora pensará que voltou à América do Sul dos anos 80. Quando uma crise desse tamanho surge, a única alternativa é buscar uma solução pela via política. Melhor dizendo: é necessário eleger alguém com visão suficiente para identificar a base do problema e, utilizando da força política oriunda das urnas, fazer as mudanças necessárias para atacá-lo.
O melhor exemplo disso foi os Estados Unidos dos anos 30. Com o país na mais grave crise social e econômica de sua história, os americanos foram às urnas para enxotar os republicanos e eleger Franklyn Roosevelt. Com sua política de new deal, até hoje não inteiramente deglutida pelos setores mais conservadores da sociedade americana, conseguiu tirar a economia do atoleiro e fazer com que o país despontasse para se tornar a maior potência militar e econômica do último século.
O que está acontecendo na Itália não é lá muito diferente do que acontece na Grécia, na Espanha ou mesmo na Inglaterra. Em comum entre eles, está o sistema parlamentarista de governo. Para seus defensores, o parlamentarismo permite maior flexibilidade e respostas mais rápidas às demandas do eleitorado. Na mão contrária, o sistema parlamentarista torna toda a situação política permanentemente instável, sujeita a derrubadas rotineiras de governo por questões políticas que, no presidencialismo, se resolveriam forçosamente de uma maneira ou de outra.
Não tenho dados precisos em mão, mas a Itália deve ter tido uns 80 governos no pós-guerra. Isso dá uma média de mais de um governo por ano. Olhando em retrospecto, chega até a ser uma façanha que uma crise dessa dimensão tenha demorado tanto a dar as caras.
O problema da Itália é que o parlamentarismo, para ser minimamente funcional, precisa de uma maioria estável de sustentação no parlamento. Em sistemas unicamerais, como em Israel, é relativamente mais fácil compor forças, porque só há uma casa onde se deve formar maioria. Em sistemas bicamerais, como o italiano, é necessário que a mesma coligação vença nas duas casas. Do contrário, fica-se em um impasse. É exatamente o que acontece agora na Itália, pois a coligação centro-esquerdista de Pier Luigi Bersani ganhou na Câmara, mas a de Berlusconi ganhou no Senado.
Fora isso, o parlamentarismo exige, por definição, poucos partidos, para que as maiorias se formem sem que seja necessário recorrer a uma constelação de partidos para formar um governo. Do contrário, maior é a possibilidade de se aglutinarem sob um mesmo guarda-chuva interesses incociliáveis, que mais hora, menos hora, desaguaram em uma crise política. Mesmo na Inglaterra, onde só há três partidos ditos “grandes”, o atual governo dependeu dos esforços de David Cameron (conservador) de atrair o apoio dos liberais-democratas de Nick Clegg. Como a agenda dos dois partidos não é exatamente harmoniosa, a toda hora o sistema político prende a respiração com medo de que a coligação se desmanche e o governo caia.
Na Itália, a situação é pior. Há uma imensa pulverização de partidos. Alguns se colocam do lado esquerdo do espectro. Outros, do lado direito. Mais ou menos como no Brasil, esses dois lados têm aproximadamente um terço do eleitorado. O outro terço, que não gosta de nenhum dos dois, flutua de um lado para o outro, conforme o sabor do vento.
A questão na Itália fica ainda mais dramática porque um dos espectros políticos do país é liderado por Silvio Berlusconi. Tosco, chauvinista e sem o menor traquejo, Berlusconi tinha tudo para se transformar numa caricatura de político. No entanto, seu imenso poder financeiro e midiático transformaram-no numa espécie de salvador da pátria prêt-à-porter. Sempre que a Itália se vê às voltas com alguma crise em governos de centro-esquerda, ele ressurge triunfante na condição de defensor da “virilidade italiana”. E, como sempre acontece quando Berlusconi sobe ao poder, é apenas questão de tempo para as “berlusconadas” se avolumarem a ponto de causar a derrocada de seu governo.
No entanto, um novo fator de instabilidade tomou para si o terço que rejeita toda a classe política. Esse fator atende pelo nome de Beppe Grillo. Espécie de Tiririca que deu certo, Beppe recusa-se a compor com quer que seja. Como a divisão política (e apolítica) do eleitorado italiano não deve mudar neste século, há o risco concreto de a Itália conduzir-se a um impasse insolúvel. E se é ruim não ter no governo alguém com visão para sair da crise, ainda pior é ficar sem governo algum.
Não faço idéia de quais serão os próximos passos dessa crise. Mas, para um país que se assemelha cada vez mais ao Brasil dos anos 80, não custaria muito importar mais um de nossos temas permanentes: uma reforma política que devolva o país aos eixos.
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