Ciência x Ética, ou Os riscos do progresso científico

Desde que foi inventado o método científico, o avanço humano nas mais diversas áreas do conhecimento deu um salto exponencial. Para feito de comparação, basta observar que a humanidade levou 5000 anos para sair da descoberta da roda até chegar às grandes navegações, e apenas quatro séculos para sair destas até chegar na Lua. Sem dúvida, o avanço da Ciência trouxe à humanidade progresso e prosperidade jamais vistos. A questão, contudo, é a seguinte: qual o papel reservado à Ética dentro do método científico?

Do ponto de vista histórico, essa pergunta nunca foi vista com bons olhos. Ao ouvi-la, todo cientista costuma eriçar os pêlos e assumir posição de defesa, como um porco-espinho cercado de hienas. É como se toda questão relacionada à Ética estivesse intrinsecamente ligada a algum movimento de cunho religioso, cujo propósito seria impedir o avanço da Ciência. Infelizmente, o buraco é mais embaixo.

Quem assistiu Parque dos Dinossauros deve se recordar do diálogo entre o dono do parque, John Hammond (Richard Attenborough), e o cientista representado por Jeff Goldblum, Ian Malcom. Malcom indaga ao dono do parque se ele pensou nos riscos de trazer animais extintos há milhões de anos de volta à vida. Como John lhe respondesse que se ele tivesse criado uma reserva para condores aquela discussão jamais teria lugar, Malcom o põe em xeque: “Os dinossauros tiveram a sua chance e a Natureza os escolheu para a extinção. Você apenas pegou o que outras pessoas haviam pesquisado e deu o passo seguinte. Mas em momento algum você pensou se deveria dar esse passo”.

Esse breve diálogo fictício resume, como poucos, o grande dilema entre Ética e Ciência. Considerando que o cérebro humano tem uma capacidade virtualmente infinita de evoluir, quem colocará amarras ao seu desenvolvimento? Se o objetivo da Ciência é conhecer e dominar tudo, haverá limites possíveis para impedir o progresso científico em nome do respeito a normas de conduta gerais e abstratas?

Obviamente, essa não é uma resposta fácil, e não será este que vos escreve que dará a palavra final sobre o assunto. Um caminho para encontrar um meio-termo que consiga pacificar esse embate secular talvez passe pela análise do risco objetivo envolvido em determinada pesquisa científica. Vamos a um exemplo prático:

Hoje, já existem hardwares e softwares dotados de inteligência artificial suficiente para substituir com sucesso o ser humano em determinadas tarefas. Da mesma forma, a robótica avança a olhos vistos, com robôs cada vez mais versáteis e assemelhados a nós. Por fim, a popularização das impressoras 3D já se iniciou, e é apenas uma questão de tempo até a maioria dos usuários terem um exemplar em casa.

Juntando esses três inventos aparentemente não relacionados, podemos fazer um exercício de futurologia. Imagine que, assim como chegamos até aqui, o conhecimento empregado no desenvolvimento deles siga avançando à razão geométrica. Não tardará muito até que tenhamos sistemas com capacidade maior do que o cérebro humano, robôs hiper-reais e impressoras 3D capaz de reproduzir com fidelidade qualquer desenho produzido em um computador.

Imagine, agora, que um desses sistemas inteligentes se dê conta da irrelevância do ser humano, como a VICKI de Eu, Robô ou a Skynet de Exterminador do Futuro. Sem muito trabalho, ela terá à disposição tecnologia capaz de produzir robôs muito avançados em impressoras 3D. O que será, então, da raça humana?

Claro, esse é um caso hipotético e nem de longe se compara a casos muito mais reais e imediatos, como a clonagem de seres humanos e o emprego de embriões para pesquisas genéticas. O que esse exemplo permite perceber é o quão importante é ter noção dos riscos envolvidos na busca acrítica por uma acumulação de conhecimento cada vez maior, sem dar importância a aspectos aparentemente secundários, como a observância de regras morais mínimas.

A questão acerca do emprego de conceitos éticos na ciência nunca foi tão atual. É preciso que a comunidade científica e a sociedade comecem a debatê-la a sério desde agora. Do contrário, ninguém cuidará disso, senão quando já for muito tarde para fazê-lo.

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