A desvalorização do Real de 1999

Para quem ainda não foi avisado, hoje se completam 20 anos desde que a cacofônica URV encerrou seu curto período de existência e se transformou na moeda mais longeva dos últimos 60 anos no Brasil: o Real. Como sempre acontece em datas comemorativas, as pessoas gostam de rememorar os fatos que antecederam a mudança da moeda, o clima daquele ano iluminado de 1994 e, claro, como foi que o país saiu de uma hiperinflação de 2.500% a.a. para um patamar mais civilizado, em torno de 6% a.a.

Não me interessa, contudo, relembrar a introdução da nova moeda brasileira. Interessa-me, na verdade, recordar o episódio mais dramático dessas duas décadas, o qual, curiosamente, ficou quase esquecido entre tantas comemorações: a crise da desvalorização do Real de 1999. Para explicá-la, contudo, é preciso voltar um pouco no tempo.

Como todo mundo sabe, um dos pilares do Plano Real era a âncora cambial (quem quiser mais detalhes sobre o que isso representa, clique aqui). Manipulou-se a cotação do dólar com dois propósitos: primeiro, reduzir artificialmente o preço dos produtos importados; segundo, com a redução do preço dos importador, forçar competição com os similares nacionais, impedindo que os empresários reajustassem seus produtos.

Para efeito de controle de inflação, a idéia até que não era de todo má. O problema eram os efeitos colaterais que essa medida trazia. Em poucos meses, o Brasil passou de um superávit mensal de US$ 1 bilhão na balança comercial para um déficit de US$ 1 bilhão.

Como o Brasil historicamente sempre foi deficitário na conta de serviços (aquela que envolve empréstimos e transferências de renda), a balança de pagamentos brasileira ficou perigosamente à deriva. Para estancar a sangria de dólares, só havia duas alternativas: vender empresas estatais e aumentar os juros. Nos dois casos, os dólares que ingressariam no país compensariam o déficit das outras duas pernas da balança de pagamentos.

O problema, como todo mundo veio a descobrir depois, é que essa era uma estratégia de fôlego curto. O Brasil privatizou quase tudo que havia para sustentar a paridade cambial. Os juros lunares asfixiavam a economia e jogavam o desemprego nas alturas, numa estratégia economicamente racional, mas politicamente suicida.

Foi então que uma velha propaganda dos anos 80 resolveu dar as caras. Mal das pernas, a Rússia começou a dar sinais de que estava indo para o buraco. Antes de se precipitar no abismo, olhou para o Brasil, piscou o olho e disse: “Eu sou você amanhã”.

Não deu outra. Com a crise russa de 1998, o crédito internacional para países emergentes secou. Nem mesmo os juros estratosféricos do presidente do Banco Central, Gustavo Franco, eram mais suficientes para atrair dólares para o Brasil. Pra piorar, vivia-se ainda um ano (re)eleitoral, com o Fernando Henrique posando de grande fiador da estabilidade, associada de forma irresponsável à paridade R$ 1/ US$ 1.

Às pressas, negociou-se um acordo com o FMI. Com a galera do Fundo pode ser estúpida, mas nunca foi burra, todos lá sabiam que não havia nenhuma saída que não passasse pela desvalorização do real. Mesmo assim, aceitaram a contragosto o argumento de que, sem paridade, não haveria “clima político” para se aplicarem as medidas necessárias ao plano de ajuste no país. Traduzindo: ninguém no Governo aceitaria um acordo que pusesse em risco a reeleição de FHC.

Passada a eleição, o Brasil continuou sangrando. Na virada do ano, saía do país quase US$ 1 bilhão por dia. Na outra banda, Gustavo Franco negociava dólares no mercado futuro, o que disfarçava o total real de dólares disponíveis no Banco Central. Para o público externo, o patamar divulgado das reservas ainda era suficiente para alguns meses de respiro. Para quem entendia do métier, a explosão era apenas uma questão de dias.

Com a situação se deteriorando cada vez mais, Fernando Henrique foi em busca de uma solução. O então Diretor de Política Monetária do Banco Central, Francisco Lopes, apresentou-lhe a curiosa tese da “banda diagonal endógena”. O problema? Só topava levar a idéia adiante se Gustavo Franco, o mais ferrenho defensor da paridade, fosse arremessado numa perpendicular exógena. Daí pra frente, no entanto, o que se assistiu foi uma lambança de proporções bíblicas.

Na primeira sexta-feira do ano, 8 de janeiro de 1999, Fernando Henrique tocou o telefone para Gustavo Franco. Como Franco argumentasse que não se opunha à tal “banda diagonal endógena”, coube a El Rey fazer o que talvez tenha sido seu último ato digno do posto: ou pede pra sair, ou será saído.

Ao invés de aproveitar o fim-de-semana para anunciar a decisão e explicar a mudança no Banco Central, Fernando Henrique e sua trupe preferiram o silêncio. Passou-se todo um fim-de-semana (dias 9 e 10) e a segunda e terça-feira seguintes (dias 11 e 12) até que a demissão de Gustavo Franco fosse anunciada na quarta-feira, dia 13 de janeiro.

Justamente nesse período, o mercado virou. Se antes todo mundo apostava na manutenção da paridade cambial, nos dias imediatamente anteriores quase todo mundo correu para apostar na desvalorização do real. Como Elio Gaspari bem observou numa coluna da época, ninguém ganhou dinheiro sabendo que o câmbio estava podre. Ganhou quem soube quando Franco ia cair. Desse vazamento derivou o escândalo Marka-Fonte Cidam, que dias depois derrubaria Chico Lopes.

Obviamente, do dia 13 em diante houve um verdadeiro pandemônio. Toda a desvalorização acumulada em quatro anos de Plano Real foi descontada de uma só vez. No dia 31 de janeiro, a cotação do dólar atingiria o pico de R$ 2,25. Parecia que o mundo iria se acabar.

O que ninguém – ou praticamente ninguém atentou – é que a sobrevivência do Real não dependia mais da âncora cambial. Conforme foi explicado aqui em outro post, a grande sacada do Plano Real tinha sido desfazer a armadilha da inflação inercial. Sem a correção automática dos preços futuros pela inflação passada, a tendência era de que o dólar se estabilizasse em algum momento, sem que o inevitável pico inflacionário resultante da desvalorização cambial transformasse a nova moeda numa canoa furada.

Quinze anos depois, o trágico episódio da desvalorização do Real ainda não foi inteiramente assimilado pela sociedade brasileira. Bilhões de dólares das reservas cambiais, o patrimônio público amealhado duramente ao longo do século XX e pelo menos 5 anos de crescimento econômico foram jogados no lixo para sustentar uma política cambial insana, que não tinha mais nenhuma razão de ser.

Por isso, ao tempo em que se comemora o maior período de estabilidade monetária do pós-guerra, o Brasil deveria revisitar esse triste momento da nossa história econômica. Do contrário, estamos arriscados a ver novamente um filme cujo final todos nós já estamos carecas de saber.

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2 respostas para A desvalorização do Real de 1999

  1. Gualter Masculino Loureiro disse:

    Pelo visto depois dessa desastrosa política econômica, governos subsequentes fizeram excelente gestão econômica e no momento temos 120 bi de deficit orçamentário

    • arthurmaximus disse:

      Que é que o c… tem q ver com as calças, Gualter? Da onde que você tirou do texto algum elogio à política econômica petista? O fato de o governo Dilma ter sido um desastre não autoriza que você desconsidere que a política econômica do governo Fernando Henrique – em especial a política cambial – foi igualmente ruinosa. Aliás, basta dar uma pesquisa mais a fundo aqui no Blog pra ver exatamente o que eu acho de Dilma Rousseff e sua política econômica. #FicaaDica

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