As bandas de rock, ontem e hoje

Quando eu era apenas um espectador na Internet, quer dizer, quando eu estava apenas do lado daqueles que viam o que estava nela, ficava imaginando como as coisas se passavam do lado de quem produzia o que era visto. Já do lado de cá, devo dizer que muitas coisas me deixaram, por assim dizer, espantado, especialmente a simplicidade de certos aspectos que, para quem está do outro lado da tela, parece um tanto enigmático. Muito do que vocês vêem aqui surge de inspirações que vêm, assim, do nada.

Vejamos o caso da Trilha sonora do momento. Uma vez definida a música que colocarei no Blog, fico a buscar no Youtube o clip mais apropriado para representá-la. Há uma preferência confessa pelos clipes originais. Mas, como nem sempre os clipes originais estão disponíveis (principalmente para músicas mais antigas), às vezes se busca uma versão sem clipe, ou então uma versão ao vivo mais honesta.

Pois bem. Ontem, à busca do clipe original de Not now John, do Pink Floyd, acabei me deparando nas sugestões com um vídeo sobre um documentário, salvo engano produzido pelo History Channel, chamado Classic Albums. O episódio não me era propriamente estranho; já o havia assistido algumas vezes na TV. No entanto, o trecho postado no Youtube pertencia aos extras do programa, coisa que ficou fora da versão final do programa. Curioso como só eu, tratei de assisti-lo. Afinal, Pink Floyd na veia nunca é demais.

Uma vez mais, me maravilhei com a qualidade da música produzida pelo grupo. Junto com o deslumbramento, veio uma pergunta óbvia: por que a música que eles fazem é tão boa? Ou, visto sob outro ângulo: por que as bandas de hoje em dia não produzem música da mesma qualidade?

O documentário oferece aquilo que eu creio ser a resposta.

Primeiro, a qualidade dos integrantes da banda como músicos, no sentido mais técnico da palavra. Vê-se, por exemplo, Roger Waters tirar a inspiração para Money em um barracão de seu jardim, misturando os sons de moedas caindo numa tigela de barro com papel sendo rasgado e uma caixa registradora, cortando fitas de gravação e colando-as de maneira a unir os sons produzidos em momentos diferentes. Um pouco adiante, vê-se David Gilmour mostrando como gravou o riff da canção duplicando o som de uma guitarra, para depois inserir o som de uma terceira, só porque com ela conseguiria uma nota mais aguda do que na guitarra original. Mais do que demonstrar a familiaridade com a assustadora mesa de engenharia de som (coisa na qual Gilmour revela-se um mestre), o documentário mostra como o conhecimento profundo da técnica musical ajuda no desenvolvimento de uma canção realmente interessante.

Claro, ter Alan Parsons operando a mesa ajuda um bocado. Mas um engenheiro de som, sozinho, não faz um álbum. É preciso que os caras que produzem a música tenham conhecimento suficiente das técnicas de produção do som para produzir algo decente.

Em segundo lugar, está o nível intelectual dos caras que fazem a banda. Ouvi-los falar sobre a própria música é um bálsamo para a alma. Vê-se claramente que as canções produzidas por eles não visam, propriamente, a simplesmente vender discos. Quer-se passar ao ouvinte algum idéia (críticas muitas, no caso de Roger Waters), um sentimento, algum tipo de inquietação com o mundo. Algo que deveria ser natural para qualquer ser humano, mas, que de alguma forma, acabou se perdendo no vazio da modernidade.

Ok. Estamos falando do Pink Floyd, o estado-da-arte do domínio das técnicas musicais. Por isso mesmo, @segvirion provocou-me ao dizer que, hoje em dia, as bandas não precisam mais ter todo esse conhecimento musical. Com o desenvolvimento da tecnologia nos estúdios, basta apertar alguns botões e tudo está resolvido.

Ao que respondi que talvez esteja aí o problema. Além da mediocrização dos músicos no sentido intelectual – pouca gente está hoje realmente preocupada em produzir música que faça alguma diferença na realidade -, o incremento do uso da tecnologia acabou por tornar o conhecimento das técnicas musicais algo secundário, despiciendo mesmo. Com isso, inevitavelmente, o nível dos músicos cai e, com ele, cai o nível da música produzida.

Talvez por isso, hoje não há nada parecido com Pink Floyd, Beatles ou Rolling Stones.

Quem quiser assistir ao documentário completo, abaixo vai o vídeo (infelizmente, sem legendas). São 50 minutos de uma aula musical sem preço, com o bônus de ouvir rock da mais alta qualidade.

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