Os riscos da pronúncia equivocada

Muito já foi escrito aqui sobre dicas acerca do uso correto da língua lusitana. No entanto, invariavelmente os posts ficam restritos a análises sobre o uso correto da escrita da língua portuguesa. Nenhum – pelo menos que eu me recorde – tratou sobre o uso escorreito da língua falada.

Sim, sim. Alguns problemas cotidianos no uso do português dizem mais respeito à forma incorreta com a qual se pronunciam determinadas palavras do que propriamente à forma com a qual se escrevem. Não falo, aqui, das diferenças de sotaque. Nesse caso, quase nunca há erro na pronúncia correta da palavra, mas apenas uma forma particular de enunciá-las. Por exemplo: ninguém dirá que um paulista pronunciando “porrrrrrta” está falando errado. Não se trata do uso de um fonema diverso do pretendido pelo padrão regular da língua, mas tão-somente uma expressão do regionalismo quanto à forma de enunciar o “r”.

Mas há casos em que não se pode atribuir a diferença na pronúncia a sotaques. Nestes casos, o erro é de emprego de fonema incorreto, mesmo. E os erros são tão comuns que quase sempre são ignorados e reproduzidos mesmo por pessoas que reconhecidamente sabem ler e escrever de maneira correta.

No julgamento do Mensalão, por exemplo. Ninguém em sã consciência vai dizer que algum dos ministros tem problema com o uso da língua escrita. À parte a diferença de estilo e de retórica de cada um dos julgadores, a leitura dos votos indica claramente o conhecimento profundo de norma culta. Mesmo assim, em mais de um caso, foi possível observar equívocos insistentes quanto à pronúncia correta de algumas palavras.

Assim, para ajudar os seguidores deste espaço a escaparem das cascas de bananas lingüísticas, aí vão alguns casos comuns de erro de pronúncia de palavras:

1 – Exegese: repetida várias vezes durante o julgamento do mensalão como “ékzegeze”. Na verdade, o “x” aí tem som de “z”. Logo, a pronúncia correta é “ezegéze”.

2 – Inexorável: da mesma família da “exegese”. Nesse caso, a pronúncia corrente “inéksorável” provavelmente em origem numa virtual relação com “nexo” (nékso). Na verdade, a palavra é formada pelo prefixo “in”, de origem latina – a indicar a negação -, e a palavra “exorável”, ou seja, algo complacente, que se deixa dobrar. Do mesmo modo que pouca gente erra “exortar” (ezortar), siga o exemplo e pronuncie corretamente “inezorável”.

3 – Ruim: Esse é um clássico. Provavelmente o mais difundo dos erros de ortoépia na língua portuguesa aqui no Brasil. Muita gente, e muitas canções, enunciam a pronúncia com ênfase na primeira sílaba: “rúim”. Na verdade, por ser uma oxítona, a pronúncia correta deve ser “ruím”. Para não esquecer, é só lembrar: “Se é ruim, deve ser cupim”.

4 – Questão: Essa também faz parte dos anais do Mensalão. E, a propósito, é um problema que tende a se agravar com o fim do trema no Acordo Ortográfico. Para que se pronunciasse “cuestão”, como o fizeram alguns ministros, só se o ditongo “ue” tivesse trema. É o mesmo caso, por exemplo, de “guerra”. Ninguém fala “güerra”. Logo, ninguém deveria pronunciar “cuestão”.

5 – Subsídio: esse é muito popular entre os servidores públicos. 9 em cada dez pronunciam “subzídio”. Na verdade, deve-se obedecer aqui à separação silábica para efetuar a pronúncia correta: sub-sí-dio. Nesse caso, a pronúncia correta é “subcídio”.

6 – Gratuito: Esse também é muito popular, principalmente em propagandas na TV e no discurso de candidatos. Eles adoram pronunciar “gratuíto”, como se houvesse um acento agudo no “i”. Nesse caso, deve-se recorrer novamente à separação silábica: gra-tui-to. Tem-se um ditongo “ui”, e não um hiato, o que eventualmente justificaria o acento agudo no “i”. Logo, a pronúncia correta deve ser “gratúito”. Na mesma linha, aplique igual raciocínio para “fortuito”.

7 – Recorde: Um anglicismo ainda hoje mal digerido na língua portuguesa. No original em inglês, lê-se record (récord). Aí, quando a pessoa vai ler em português, tenta manter a “fidelidade” à língua original e fala “récorde”. Na verdade, trata-se de uma paroxítona. Se fosse proparoxítona, teria acento no primeiro “e”. Logo, a pronúncia correta é “recórde”.

8 – Rubrica: Caso semelhante ao recorde acima. E o erro preferido de 11 em cada 10 notários de cartórios: “Por favor, aponha sua rúbrica em todas as páginas”. De novo, se fosse proparoxítona, teria acento no “u”. Como não tem, fica paroxítona, e a pronúncia correta deve ser “rubríca”.

9 – Habitat: A preferida dos professores e estudantes de ciências naturais. Grande parte deles adora pronunciar “habitát”, com ênfase na última sílaba. Nesse caso, foi respeitada a pronúncia original do latim – no qual não existem oxítonas. Deve-se pronunciar “hábitat”. Só não me recordo, sinceramente, se se manteve a escrita original em latim, ou se no aportuguesamento impuseram o acento no primeiro “a” por ser uma proparoxítona.

10 – Nobel: Sim, sim. O inventor da dinamite e fundador do mais renomado prêmio científico do planeta também é objeto de erros de pronúncia. Assim como no caso de recorde, tende-se a “respeitar” a pronúncia do nome em sua língua original – “Nóbel”. A rigor, trata-se de uma oxítona, tal qual anel, novel, cartel e etc. Por isso, a pronúncia correta deve ser “Nobél”.

Esses são só 10 exemplos comuns que me vieram à cabeça. Quem quiser, sinta-se à vontade para postar outros exemplos nos comentários.

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17 respostas para Os riscos da pronúncia equivocada

  1. Pedro Fontenele disse:

    Onde você viu que a pronúncia original do nome “Nobel” é “Nóbel”?

  2. Lukas disse:

    A pronúncia do no me Nobel no original é Nobél. Ouça: https://en.wikipedia.org/wiki/Alfred_Nobel

    • arthurmaximus disse:

      Bem observado, Lukas. Tem razão. Na verdade, o correto seria eu ter dito que as pessoas tendem a seguir a pronúncia em inglês, e não no original em sueco. Fica aqui o registro. Um abraço.

      • Rosane disse:

        Maximus, deixe-me te perguntar uma coisa. O nome “MAXIMUS” deve ou não ter acento? Vou colocar o nome do meu filho como Maximus e fiquei com esta dúvida. Eu particularmente gosto mais sem acento e vi que vem do latim. Mas toda palavra proparoxítona é acentuada… Como é escrito seu nome?

      • arthurmaximus disse:

        Na verdade, Rosane, o “Maximus” no meu caso é sobrenome, não nome. De toda forma, como a palavra é de origem latina, o correto seria escrevê-la sem acento. Não se aplicaria, no caso, a regra das proparoxítonas, já que se trata de uma palavra “estrangeira” (embora o latim esteja oficialmente morto). Um abraço e felicidades com o pimpolho que está a caminho. 😉

  3. Outra correção, então, se nos permite: a pronúncia qüestão, com o “u” pronunciado (“kwestão”), foi, sim, abonada pelo VOLP da Academia Brasileira de Letras e pelos nossos dicionários, antes da queda do trema. É uma variante – as duas opções valiam na escrita, e continuam valendo na pronúncia: é só entrar no VOLP, digitar questão e ver as duas pronúncias admitidas, que lá aparecem indicadas. No mais, parabéns pela página, e, se quiser, visite também a nossa: http://www.dicionarioegramatica.com.br – Um abraço!

    • arthurmaximus disse:

      Segundo consta, o uso de “kwestão” estaria abonado por também ser aceito o uso alternativo de “questão” e “qüestão”. Sem entrar no mérito se essa posição está correta ou não (muitos gramáticos rejeitam o uso alternativo), pelo menos pelo que estudei, o uso da pronúncia da palavra com o U pronunciado dependeria, nesse caso, da utilização do trema. Logo, se não houvesse trema, não haveria alternativa: a pronúncia correta deveria ser “kestão”. De todo modo, fica aqui o registro para quem visitar a página. Um abraço.

  4. Eques disse:

    Seria incorreto pronunciar a palavra “habitat” de acordo com as regras da pronúncia reconstituída do latim?

  5. Linda Lins disse:

    A palavra mister, no sentido de obrigação, é oxitona, mas já ouvi muitos pronunciarem na forma inglesa que significa senhor.
    Também a conjugação de certos verbos, com letra muda, são pronunciados. Exemplo: adapto, repugno.

  6. Lamark dos Reis disse:

    Outra pronúncia que sempre me dói os ouvidos – no sentido fonético, é claro; mas poucas vez me dói – pois é uma palavra cada vez mais raramente pronunciada: benigno (‘beniguino’). Ai! Doeu só de pensar na pronúncia.
    Abraços.

  7. Emília Maria de Almeida disse:

    Subsistência. A pronúncia é com s e não com z

  8. Fernando disse:

    Após sete anos de produzido este ótimo texto, venho só agora (por não ter conhecido antes esse texto) colocar mais uma palavra pronunciada incorretamente. Trata-se da palavra “impregna”, que muita gente acaba por pronunciar como se a letra G fosse acompanhado de “ui” (im-pre-gui-na). No entanto, ao se fazer a separação das sílabas, nota-se que o G não recebe vogais à sua frente, sendo as sílabas separadas desta forma: im-preg-na. Então, a pronúncia deve ser “imprégna”.

    Mais uma vez, parabéns pelo texto. Não sei se você vai ler este comentário, depois de sete anos. Mas saiba que eu adorei essas dicas. Forte abraço!

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