O neoperonismo latinoamericano

Períodos eleitorais são episódios paradoxais dentro de um sistema democrático. De um lado, são a mais genuína forma de expressão da vontade popular. Do outro, constituem o mais fértil solo para manifestações antidemocráticas. Inspiradas no clima de vale-tudo, tais manifestações deturpam o sentido mesmo da eleição. Produz-se um radicalismo marqueteiro que pretende converter artificialmente uma disputa política em luta de classes. Com isso, quase sem querer, fez-se germinar na América Latina uma forma primitiva e disforme de peronismo.

Juan Domingo Perón foi um militar que nunca pegou em armas. Desde o início, sobressaiu-se não em razão de sua habilidade para o combate, mas por conta de seu talento para o conchavo. Era um político investido na farda, e fez do Exército sua plataforma de campanha. Associando-se ora aos golpistas, ora aos golpeados, Perón construiu sua fama baseando-se no apoio das classes mais populares, os mesmos que ficariam marcados nos discursos de sua mulher Evita como “descamisados”. Por trás de um discurso de “resgate da dignidade do povo” e de “agora é a vez dos mais pobres”, escondia-se o mais infame estratagema ditatorial já formulado em terras portenhas. O peronismo ficaria para sempre marcado na política argentina.

Como sua imagem estava diretamente associada ao “combate” às classes mais ricas, Perón esporeava crises para cavalgar popularidade. Por maioria, seus “descamisados” garantiam-lhe apoio suficiente para ganhar três eleições presidenciais, feito jamais igualado por lá. Incapazes numericamente de ganhar eleições, os plutocratas recorriam à mais velhaca das formas de fazer política: o golpismo. De golpe em golpe, ora a favor de Perón, ora contra, abriu-se um fosso que até hoje permanece aberto na sociedade argentina.

Em que pese até hoje seja endeusado em sua pátria, Perón foi um desastre para a Argentina. A Argentina iniciou o século XX como  7º país mais rico do mundo. Hoje, ocupa a 27ª posição.Sua renda per capita equivalia a 70% da renda de um cidadão norte-americano. Hoje, representa menos de um terço.

Se a comparação com os Estados Unidos parece covarde, a feita com o Brasil pode ser mais palatável aos olhares desconfiados. Quando Perón assumiu pela primeira vez em 1946, o PIB da Argentina era praticamente igual ao PIB brasileiro. Hoje, não passa também de um terço do brasileiro.

Nada contra a glorificação das classes C, D e E, repare-se. Elas têm mais é que ser assistidas e estimuladas, mesmo. Mas esse processo de mobilidade social não se pode dar à custa da satanização das classes A e B. Fazendo isso, os neopopulistas da hora apenas alimentam a discórdia e estabelecem um clima de dissenso que em nada contribui para a valorização da experiência democrática. Partido político não é time. Eleição não é esporte. E cidadão não é – ou não deve ser – um torcedor fanático.

Agora, o estilo Perón de governar uma nação volta à tona com toda a força. Seja no seu berço, a Argentina de Cristina Kirchner, seja na Venezuela, do neocaudilho Hugo Chávez, o peronismo é tendência na América Latina. Embora distintos na forma, os regimes se aproximam no conteúdo. Produz-se, ao final, a mesma pantomina que condenou a Argentina ao declínio econômico e social. A pretexto de “reparar injustiças históricas”, golpeiam-se as instituições e atenta-se contra a liberdade de imprensa e de comércio. Tudo em nome de um “projeto maior de nação”.

Se a tragédia se limitasse ao crescimento econômico pífio e à inflação galopante, vá lá; um país também se forja mais ou menos nas crises econômicas pelas quais passa. Mas a fratura do tecido social fica, e a ferida que deixa não cicatriza à base de gogó.

O peronismo e suas revivências tardias já se encontram arraizados em alguns países vizinhos. Espera-se, todavia, que a moda não chegue por aqui.

Porque, se depender de alguns candidatos e marqueteiros, esse dia pode estar mais perto do que você imagina.

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2 respostas para O neoperonismo latinoamericano

  1. Mourão disse:

    Meu caro Senador, estou de volta, agora para expor dúvidas quanto ao que você escreveu. Na sua análise você comparou a Argentina de início e meados do século com a Argentina de agora e deu a entender que um dos fatores da derrocada foi o governo Perón. No entanto, para mim isso não está claro, pois em 1974 a população na faixa de extrema pobreza naquele País praticamente inexistia e pontificava, porcentualmente, a classe média. Alem disso, de após a queda de Perón alguns governos, francamente antiperonistas, tiveram péssimo desempenho desempenho, e não foram ´so os governos da ditadura militar(vários, em períodos diferentes, pois a União Cívica Radical (UCR), com Alfonsin, também realizou um governo desastrado. Na verdade Perón, um populista mais de direita do que de esquerda, flertava com o nazismo e procurava uma terceira via para a Argentina, distanciada do capitalismo liberal(ou selvagem, depende do foco ideológico) e não há ( ou pelo menos não tenho) evidências suficientes que indiquem ter levado a Argentina à bancarrota.
    No mais, quanto a tentativa de lançar classe contra classe é , de fato, tática hoje surrada, a não ser que, objetivamente, os detentores do poder tratem com desdém os despossuídos, . a exemplo do que se vem observando nas “Primaveras” da vida….Árabes.

    • arthurmaximus disse:

      Meu caro Comandante, na verdade Perón não fez tudo sozinho. O “problema” foi, além dele próprio, o fato de que muitos decidiram levar seu “legado” adiante. Vide, por exemplo, o exemplo de Christina Kirchner. Seu partido justicialista nada mais é do que os peronistas com um nome diferente. E, de fato, Perón era um ditador de direita. Muito parecido, nesse aspecto, com nosso Getúlio Vargas. A diferença, a meu ver, é que Getúlio teve a percuciência de mover o Brasil na direção da industrialização, ao mesmo tempo que exercia o mais desbragado populismo. Isso, afinal, foi o que fez a diferença entre nós e los hermanos. De resto, assino embaixo na observação. Um abraço.

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