O assassinato de JFK e a Teoria da Bala Mágica

As teorias conspiratórias sempre fizeram a cabeça de muita gente. Aparentemente, a Internet tornou-se fértil para a popularização delas. Desde os Smurfs como propaganda comunista nos Estados Unidos, passando por tipos que insistem em dizer que Elvis não morreu até chegar na conspiração midiático-judicial contra os réus na Ação Penal 470, as teorias conspiratórias parecem não sair nunca de moda.

Em favor das teorias conspiratórias, há fundamentalmente dois fatores preponderantes. Primeiro, a desconfiança generalizada no que dizem governo e mídia. Afinal, nenhum dos dois é exatamente pago para dizer a verdade, e por trás de cada declaração quase sempre há uma intenção obscura disfarçada. Segundo, quase sempre a verdade cristalina, nua e crua, provoca sentimentos de repulsa – o famoso instinto de negação de que falam os psicólogos. Contra uma verdade factual indesejada, muito melhor é fantasiar uma realidade alternativa que explique de maneira mais agradável ao próprio intelecto um determinado acontecimento.

Bom, mas se é pra falar de teorias conspiratórias, deve-se começar pela maior, a mais suprema, a mais – digamos – “crível” de todas elas: o assassinato de John Kennedy.

Como todo mundo sabe, no dia 22 de novembro de 1963, o então presidente norte-americano John Kennedy foi assassinado durante um desfile automotivo. Segundo a versão oficial, um sujeito maluco, com vontade de aparecer, teria disparado 3 tiros de seu rifle, posicionado no sexto andar do depósito da livraria que ficava em frente à praça Dealy, em Dallas, no Texas.

De maneira supreendentemente rápida (menos de hora e meia), a polícia logo deteve um suspeito: Lee Harvey Oswald ficaria para sempre marcado como o lobo solitário que assassinou um dos mais carismáticos presidentes que os Estados Unidos já tiveram. Em questão de um dia, juntou um amontoado de provas contra o sujeito: recibo de compra do rifle, foto empunhando a arma, depoimentos de testemunhas a afirmar que viram os tiros saindo da janela do armazém no sexto andar, etc. Tudo indicava que ele teria mesmo matado Kennedy e o teria feito sozinho.

Qual o problema?

Só foram encontrados três cartuchos no local onde supostamente estaria Oswald. Além disso, um transeunte – Abraham Zapruder – filmara toda a seqüência. Pela duração do filme, não haveria espaço para um quarto tiro.

Das três balas, sabe-se que uma foi a que matou Kennedy ao explodir-lhe a cabeça.

Sobram duas balas.

Um dos sujeitos que havia saído de casa para assistir ao desfile presidencial – James Tague – foi atingido por um projétil, mesmo estando a quase 100m do cortejo. Segundo a Comissão Warren, a bala que o acertou teria sido desviada por uma árvore.

Verdade ou não, sobra apenas uma bala.

É aí que a porca entorta o rabo.

Além de Tague e da cabeça de Kennedy, houve mais 7 ferimentos naquela manhã de Dallas: 2 em Kennedy e 5 no governador do Texas, John Connally. Havia, então, duas possibilidades: 1 – admitir que houve mais de três tiros; 2 – encontrar explicação para que uma única bala tivesse sido responsável pelos sete ferimentos.

O problema da opção primeira era que, admitindo que houve mais de três tiros, necessariamente deveria se admitir que houvera, no mínimo, outro assassino além de Oswald. E, por definição, uma conspiracy – reunião de dois ou mais indivíduospara fim delituoso – para assassinar o presidente dos EUA.

 A Comissão Warren resolveu ficar com a segunda opção. Endossou a tese de um de seus consultores, um jovem advogado chamado Arlen Specter (hoje senador republicano). Ele deu-lhe o nome de teoria da bala única.

Pela teoria da bala única, a terceira bala teria que ter: 1 – entrado pelas costas de Kennedy; 2 –  saído por sua garganta; 3 – acertado as costas do governador Connally, sentado no banco direito à frente do automóvel; 4 – saído pelo ombro de Connally; 5 – acertado o punho do governador; 6 – quebrando os ossos, saído pelo outro lado da mão; e 7 – se alojado na coxa esquerda de Connally.

Depois de percorrer essa trajetória fantástica, a bala supostamente responsável pelos ferimentos foi encontrada praticamente em perfeito estado, apesar dos impactos que sofreu. Como disse o promotor Jim Garrison no único julgamento até hoje realizado sobre o caso, that’s some bullet.

Não à toa, a explicação de Arlen Specter, com o aval da Comissão Warren, ganhou o apelido jocoso de Magic Bullet Theory, ou, em bom português, a Teoria da Bala Mágica.

Desde então, surgiram 550 milhões de teorias acerca do assassinato de Kennedy. Umas dizem que foram os cubanos. Outras, que foi a máfia. Há ainda quem afirme ser um complô do sistema militar, junto com CIA e FBI. A única versão que ninguém aceita é justamente a endossada pela Comissão Warren: Oswald matou Kennedy.

Se vai haver um dia explicação definitiva para o assassinato de Kennedy, eu não sei. Mas o fato é que, mesmo com simulações mirabolantes em algum computador da Nasa, dificilmente vai ser possível engolir a Magic Bullet Theory.

Abaixo, um trecho do filme JFK, em que Kevin Costner, no papel de Jim Garrisson, explica a trajetória da bala mágica.

Acredite, se quiser…

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