A esquizofrênica relação do brasileiro com Galvão Bueno

Se alguém funciona como saco de pancada geral quando estamos no meio de algum evento esportivo, esse alguém atende pelo nome de Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno, ou, simplesmente, Galvão Bueno. Entra ano, sai ano, o sujeito apanha mais do que Judas em sábado de Aleluia. Mesmo assim, continua lá, como “a voz da Globo no esporte”. E, quando a Globo não consegue os direitos de transmissão de um evento esportivo (como as Olimpíadas de Londres), lá está o sujeito como “convidado especial” do Sportv.

O que faz de Galvão Bueno um sujeito ao mesmo tempo tão odiado e tão onipresente na telinha da TV?

Em primeiro lugar, a onipresença tem uma razão objetiva. Como a Globo é a maior emissora do país, a nata dos eventos esportivos mundiais é retransmitida por ela. Copa do Mundo, amistosos da seleção, corridas de Fórmula 1, Ligas Mundiais de de vôlei e por aí vai. Mesmo nos eventos em que a Vênus Platinada opta por ficar de fora – como a Champions League – lá está ela transmitindo a final para os 90% da população que não dispõe de TV a cabo. Sendo Galvão Bueno o principal narrador da emissora, não é estranho concluir que ele esteja presente em quase todos os eventos esportivos relevantes.

Mas isso somente não explica. Afinal, a Globo poderia perfeitamente escolher outro locutor para narrar as transmissões. No limite, se Galvão Bueno tirasse efetivamente audiência dela, bastaria a Globo demiti-lo. Se opta por mantê-lo, é porque Galvão ainda dá audiência à emissora carioca.

Por outro lado, o ufanismo exagerado, a necessidade de ser estrela mesmo diante de totens do esporte mundial, os palpites sem sentido fazem com que Galvão Bueno seja provavelmente o mais atacado locutor esportivo da televisão brasileira. Quem não lembra do “Cala a boca, Galvão!” da Copa de 2010?

Mas por que, com tantos ataques, Galvão continua dando audiência?

A meu ver, Galvão continua na crista da onda por dois motivos.

Primeiro, por costume. Para a maior parte da minha geração, Galvão esteve presente em quase todas as memórias esportivas do período. Títulos do Ayrton Senna (e a morte dele), as Copas do Mundo, as Olimpíadas, etc., etc., etc. Por mais que de vez em quando fale besteira, Galvão é como aquele tio chato, que todo mundo fala mal por trás, mas, no fundo, sente falta quando ele não está presente nas festas de família.

Segundo, por identificação. Ufanista, falastrão, entrão, e sei lá mais o quê, Galvão é o típico torcedor médio no papel de narrador. No fundo, há uma sensação íntima de que, no seu lugar, o torcedor faria mais ou menos do mesmo jeito (talvez com palpites mais precisos, mas vá lá). Por mais que alguém disfarce – “Só assisto na Globo por causa da imagem” – ou mesmo renegue – “Deixa na Globo, mesmo, porque locutor é tudo igual” – o fato é que sempre aparece uma “desculpa” para deixar o canal sintonizado na Vênus Platinada.

Galvão já anunciou que aposentará as cordas vocais depois da Copa de 2014. A Globo faz das tripas coração para achar alguém que o substitua. Vai ser difícil. Para o bem ou para o mal, Galvão dificilmente encontrará um substituto, assim, tão “genuíno”.

E, por mais que a gente queira negar, vai acabar sentindo falta dele nas narrações. Nem que seja a falta de alguém para falar mal.

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