A virada do Banco Central Europeu

Hoje as bolsas do mundo inteiro entraram numa daquelas euforias bipolares que as acomete de tempos em tempos. O start para a mudança do estado depressivo para o maníaco foi o boato de que o Banco Central Europeu finalmente foi convencido a assumir uma posição que sempre renegara (muito por conta da pressão da Alemanha): a de emprestador de última instância.

Delfim Netto batia nessa tecla faz tempo. Mas, afinal, que diferença faz o BCE assumir ou não a função de emprestador de última instância?

A questão é relativamente simples de explicar:

Numa economia nacional, com moeda própria, o Banco Central atua, entre outras coisas, como controlador da política monetária. Em termos simplórios, é dizer que o Banco Central dita quanto de moeda circula na economia. Portanto, ele pode determinar a retirada de dinheiro de circulação, como também pode aumentar a sua quantidade.

Nessa condição, o Banco Central dispõe na teoria de um arsenal infinito de moeda. Se faltar dinheiro na praça, basta mandar rodar a casa da moeda e imprimir mais dinheiro. Em resumo, a quantidade de moeda em circulação é potencialmente ilimitada.

“Qual o resultado prático disso?”

Imagine um país em dificuldades. Os títulos desse país representam, em tese, a garantia do recebimento futuro do dinheiro expresso no título. Como a quase totalidade dos títulos encontra-se na mão dos bancos e dos investidores, caso o país passe por dificuldades, o primeiro reflexo é trocar o papel (título) por papel-moeda (dinheiro físico). Isso porque, como é natural, mais vale uma cédula na mão do que um papel no cofre.

Do ponto de vista prático, se todo mundo resolver trocar os títulos ao mesmo tempo, não haverá dinheiro físico pra todo mundo. Se por um lado a emissão de moeda tende a desvalorizá-la e, eventualmente, causar inflação, por outro a existência de um emprestador de última instância garante que, mesmo em caso de uma corrida bancária (todo mundo sacando dinheiro ao mesmo tempo), haverá grana para todos.

No caso europeu, o BCE recusava-se a fazer esse papel. Os países-membro da zona do Euro tem a moeda, mas quem a emite é o BCE. Logo, se houver uma crise de credibilidade de um desses países, aqueles que detêm títulos desse governo tendem a correr para se desfazer logo dos papéis, com receio de que, se ficarem por último, ficarão a ver navios (leia-se: tomar o caloete). Por isso, os títulos de Grécia, Portugal, Espanha e Itália tiveram seu valor corroído nos últimos meses.

E é justamente por disporem de um Banco Central funcionando como emprestador de última instância que Estados Unidos e Japão, por exemplo, que passaram por crises iguais ou piores do que a Zona do Euro, continuam com seus títulos valendo horrores, mesmo que as taxas de juros desses dois países tenham sido reduzidas a quase zero.

De certo modo, a Alemanha tinha razão ao querer negar ao BCE o papel de emprestador em última instância. Afinal, como a moeda é única, não seria justo obrigar países que eram responsáveis do ponto de vista fiscal a ter sua moeda “desvalorizada” por conta da irresponsabilidade fiscal de outros países.

Mas aí são os riscos de quem quis promover a entrada do Euro sem antes produzir uma união política e fiscal. Com o trabalho pela metade, os europeus agora estão pagando muito mais caro por terem colocado o carro na frente dos bois.

Com a mudança de rota, é possível pelo menos enxergar a luz no fim do túnel europeu.

“Vai funcionar?”

Não sei. Mas que dá muito mais esperança do que a suicida política de austeridade promovida pela Alemanha, isso dá.

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