As chacinas americanas

Hoje, em um mais um daqueles episódios que todo mundo preferia não assistir na TV, um daqueles malucos sem noção metralhou inocentes dentro de um cinema nos Estados Unidos. Desde mais ou menos o começo dos anos 90, massacres assim têm se tornado rotina na maior potência do mundo. E a grande questão que fica é: por quê?

A violência gratuita em si mesma não explica tudo. Afinal, é bem possível que no Brasil se assassinem mais pessoas por motivos banais do que nos Estados Unidos. A loucura, sozinha, também não explica os massacres. Doidos há aos montes em todas as partes do globo. Mas o que faz dos psicopatas americanos tão assustadoramente perigosos e mortíferos?

Na minha modesta opinião, são dois fatores principais.

Em primeiro lugar, a estrutura da sociedade americana contribui para o desenvolvimento de um institinto primitivo de vingança contra seus semelhantes. Nos Estados Unidos, either you are somebody, or you are a nobody. Traduzindo: se você não for o melhor, não fizer mais dinheiro do que todo mundo, você é um pária, um looser, um Zé Ninguém. A permanente pressão sobre o indivíduo, principalmente quando ele se sente impotente para corresponder à expectativa, acaba transformando a sensação de fracasso em ódio. Daí para a vingança é um pulo.

Em segundo lugar, e provavelmente mais decisivo, está a permissão da famosa 2a. Emenda para qualquer cidadão carregar armas consigo. Sim, lá isso é um direito constitucional. Forjada na época da expansão para o Oeste e com o já infudado receio de ter restaurada a colônia pela Inglaterra, a autorização tornou-se desde há muito uma excrescência. Mesmo assim, o lobby da indústria armamentista e a própria cultura americana fazem-na perdurar até os dias atuais.

E aí talvez esteja a diferença entre os malucos americanos e brasileiros. Enquanto nos Estados Unidos qualquer um consegue ter acesso a armas, aqui no Brasil é um pouquinho mais difícil. É necessário mergulhar antes no submundo do crime e conseguir acesso a armamento no mercado negro, algo que nem todo doido, por mais raivoso que seja, está disposto a fazer. Lá nos Estados Unidos, todos os massacres dessa natureza tiveram como coadjuvantes armas adquiridas legalmente. Nenhum doido teve que se imiscuir com o crime antes.

Com armas na mão, o sujeito antes rejeitado e desprezado subitamente se vê na condição de ter um enorme poder nas mãos: tirar a vida de outras pessoas. De certo modo, a vingança se transforma numa modo de redenção de sua pathetic shit life. Tipo: não fiz nada da vida, mas acabei com todos os meu “inimigos”.

Mudar a sociedade americana é um bocadinho difícil e um tanto ilusório. Mas mudar a Constituição para acabar com a licença indiscriminada para sair por aí com armas na mão, pronto a matar gente, já seria um passo imenso para acabar com essa bárbarie.

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2 Responses to As chacinas americanas

  1. Avatar de Kellyne Kellyne disse:

    Nessa mesma linha do primeiro ponto que você levantou, acho interessante que os autores dessas chacinas no mais das vezes não são pessoas excluídas dos diversos círculos sociais. São pessoas com instrução, com profissão, com família, mas que não conseguiram ser mais do que ordinary people e isso pareceu tornar a própria vida insustentável. Coisas da vida moderna… Bjos

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      Pois é, Kellyne. O grande problema dos Estados Unidos é que, no resto do mundo, essas ordinary people se tornam apenas frustrados. Lá, tornam-se assassinos. Triste constatação. Beijos.

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