O caso do suborno a Ricardo Teixeira e João Havelange

Na commedia dell’arte, nas peças encenadas por marionetes no cenário napolitado, havia uma personagem de humor afiado e ironia fina, que adorava fazer rir aos poderosos e revelar os mais comprometedores segredos da alcova, dos quais todo mundo tinha conhecimento, mas eram raros os que tinham suficiente coragem para expressá-los.

O nome que davam ao bufão era Pulcinella. Daí o nome Segreto di Pulcinella, que, sabe-se lá por quê, traduziu-se ao português como segredo de polichinelo. Como todo mundo sabe, trata-se de um segredo do qual toda gente tem conhecimento, perdendo a característica elementar do sigilo: a seletividade dos possuidores da informação.

Pois bem. O caso do suborno a Ricardo Teixeira e João Havelange pela ISL é, talvez, o maior segredo de polichinelo da história esportiva brasileira.

Do ponto de vista da obviedade, era evidente que dois sujeitos obscuros, forjados na burocracia das confederações esportivas, e que não sabiam fazer qualquer outra coisa da vida, não tinham como explicar a multiplicação do patrimônio por que passaram durante os anos de mandarinato na CBF e na Fifa. Bastava enxergar 5cm além do nariz para ver que havia algo de errado com a ascenção meteórica de dois burocratas ao reino dos extraordinariamente ricos.

Fora isso, só mesmo um sujeito muito inocente para acreditar que a escolha das sedes da Copa do Mundo e das Olimpíadas obedece, por assim dizer, critérios “olímpicos”. O dinheiro que circula dentro do esporte só perde em volume para aquele que gira em seu entorno: transmissões de TV, venda de bebidas, patrocínio de fornecedores de materiais esportivos e por aí vai.

Portanto, bastava ter um pouquinho de disposição para atravessar o espelho e enxergar o que se passava no lado oculto da Fifa.

Para vergonha suprema da imprensa esportiva brasileira, não foi nenhum jornalista nacional o responsável pela descoberta do segredo de polichinelo. Foi um escocês, tão divertido quanto irônico. Repórter da BBC, Andrew Jennings foi o primeiro e, por muito tempo, único jornalista do meio esportivo a denunciar as fanfarronices da Fifa, com os senhores Teixeira e Havelange no meio.

Verdade seja dita: de todas as redes, a ESPN foi a única que deu o devido crédito à matéria de Jennings e fez até um Bola da Vez com a figura. Mesmo assim, fê-lo a reboque. As demais, contudo, receberam-no com um silêncio ensurdecedor, de olho principalmente nos privilégios dados pela CBF de Teixeira: entrevistas exclusivas, antecipação de convocações e por aí vai.

Claro, agora que o caldo entornou de vez, o momento é de comemoração. Mas o momento também deveria servir para provocar uma reflexão na imprensa esportiva nacional e, especialmente, nos seus telespectadores. Ao invés de tentar descobrir a escalação do próximo Vasco x Flamengo, os jornalistas deveriam estar tentando descobrir porque o futebol nacional, vez por outra, torna o noticiário esportivo uma sublegenda das páginas policiais.

Para quem quiser assistir, aí vai a íntegra do Bola da Vez com Andrew Jennings. Uma aula de jornalismo, com o melhor do scottish accent.

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