A Igreja Católica no cenário nacional

Ontem, foi para a companhia do Senhor Dom Eugênio Sales. Não faz sentido fazer aqui um relato ou enumerar os feitos de Dom Eugênio à frente da arquidiocese do Rio de Janeiro. Até porque, a imprensa – sempre ela – cuidará de montar uma bem cuidada compilação de highlights. O que a morte de Dom Eugênio permite analisar é o papel que a Igreja Católica teve e tem no cenário político nacional.

Desde antes de surgir o país, a Igreja sempre teve papel relevante na política nacional. Afinal, a América inteira foi colonizada por países de confissão católica (Espanha e Portugal), e a influência da Santa Sé junto aos reinos ibéricos sempre foi inegável. Por muito tempo, o catolicismo foi a religião oficial do Brasil. Mais que isso, havia uma união política entre Igreja e Estado. Embora a Constituição de 1824 garantisse a liberdade de religiosa, o fato de haver uma simbiose tão estreita entre religião e governo fazia com que virtualmente não houvesse espaço para qualquer outro credo no país.

Ao Imperador competia – ao menos formalmente – governar secular e espiritualmente o destino da Nação. Por isso mesmo, nenhuma ordem papal poderia vigorar no país sem o beneplácito do Monarca. A negação de vigência a uma Bula Papal detonou o apoio católico ao reinado dos Orleans e Bragança e retirou o primeiro dos tripés de sustentação do Império (os outros dois foram o militar – com a guerra do Paraguai – e o econômico – com a abolição da escravatura).

Com a Constituição de 1891, formalizou-se a separação entre Igreja e Estado. Agora, cada uma iria para o seu lado. Se por um lado a Igreja perdeu no acesso direto às benesses do poder, por outro a desconexão com o poder secular local findou por dar-lhe considerável liberdade política de manobra. A Santa Sé perdera suas amarras com o governante de plantão e poderia, quando quisesse, discordar dele e criticá-lo. Para quem guiava espiritualmente mais de 90% da população, a Igreja tornara-se o principal agente não estatal do cenário político nacional. Por isso mesmo, era a um só tempo temida e cortejada pelos governantes de todos os matizes. Não à toa, Getúlio Vargas mandou enxertar na Constituição de 1934 um dispositivo que previa a “colaboração” entre Igreja e Estado.

No golpe de 1964, dominada pelo clero conservador, a Igreja postou-se ao lado dos militares. E, durante algum tempo, assim permaneceu. Tendo à frente da CNBB Dom Agnelo Rossi, a Igreja ignorou as denúncias de tortura e abençoara o governo dos gorilas por livrar o país da “ameaça vermelha”.

Tudo mudou em 1971. Em um arranjo do clero progressista com o centro católico insatisfeito com os rumos que o país estava tomando, um golpe litúrgico defenestrou Dom Angelo Rossi e o colocou em seu lugar Dom Aloísio Lorscheider. Dali pra frente, a Igreja Católica se tornaria a maior dor de cabeça política para a ditadura militar.

Centrada em um triunvirato santo formado por Dom Hélder Câmara, Dom Eugênio Sales e Dom Paulo Evaristo Arns, a Igreja foi à luta. Denunciou a prática sistemática de tortura nos quartéis e o flagelo imposto à população perseguida pelo dissenso político. Sem poder usar dos instrumentos habituais (tortura, seqüestro e morte) contra o cardinalato, por conta do  custo político embutido em uma empreitada tal, a  máquina de repressão atacava as arraias miúdas do catolicismo. Coroinhas eram a sua preferência. Muitos deles foram presos e ficavam incomunicáveis. Nesse período, eram barbaramente torturados. Exemplo disso foi o que aconteceu com o cearense Tito de Alencar, submetido à carceragem do Delegado Fleury. De tanto apanhar, Frei Tito ficou traumatizado e enxergava a sombra de Fleury em cada esquina. Encontrou saída para os fantasmas que o perseguiam matando-se.

A repercussão principalmente dos discursos de Dom Hélder no exterior denunciando a tortura no país traziam constrangimentos de toda ordem aos gorilas. A eles só restava negar a aquiescência oficial e dizer protocolarmente que ela seria punida. Enquanto isso, nos bastidores, a ditadura cabalou votos contra a indicação de Dom Hélder ao Nobel da Paz. O Brasil associava-se ao que havia de pior no globo, usando a força diplomática do país para trabalhar contra o reconhecimento internacional de um cidadão por conta da denúncia dos desmandos que envergonhavam a nação.

Hoje, sem a ditadura para combater, a Igreja tem se dedicado mais à função pastoral. Continua combatendo os desmazelos do país, criticando a falta de políticas públicas e incitando os fiéis a se tornarem cidadãos mais conscientes.

A Igreja Católica tem um passivo muito pesado, é verdade. Mas, pesando os prós e os contras, acredito que o saldo é positivo. Melhor uma instituição como ela, altiva e soberana, do que um bando de cupinchas empoleirados em cargos públicos, dizendo amém a todo pecado cometido pelo governante de plantão.

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