The turn of the tide, ou A viragem democrática

Confesso que escrevo este post com algum atraso. Queria tê-lo escrito logo após a eleição de François Hollande na França, quando, depois de 5 anos, Sarkozy e sua pompa de nouveau riche foi destronada nas urnas. Mas, como sempre é tempo para tirar o atraso, vamos a ele.

Há algum tempo, venho escrevendo que a crise européia só tende a piorar com o receituário clássico liberal para esse tipo de caso: cortes de salários e de benefícios, aliado a um aumento de impostos e de taxas. Submetida a 20 anos de experimentação da banca internacional, a América Latina é a prova viva de que o Consenso de Washington era um só um nome pomposo que escondia a salvação dos banqueiros americanos à custa da degradação do tecido social sul-americano. Somente quando resolveu dar um pé na bunda ao conceito foi que conseguiu, aos trancos e barrancos, seguir adiante.

Hoje, a Europa como um todo é virtualmente governada pela Troika: Banco Central Europeu, FMI e Comissão Européia. No fim das contas, no entanto, a Alemanha manda em todo os outros países europeus.

Servindo-se de seu títere deslumbrado, Nicolas Sarkozy, Angela Merkel fez descer goela abaixo dos demais países europeus um pacote draconiano à la Governo Fernando Henrique Cardoso. Submissos, boa parte da cúpula política desses países baixou a cabeça e engoliu em sexo o pacotaço alemão.

Mas o povo europeu engasgou com a receita. Um a um, todos os governos da Europa, sejam de direita ou de esquerda, foram sumariamente surrados nas urnas por uma população enfurecida. Até mesmo na Alemanha, a única a se beneficiar até agora com a crise, Merkel sofreu uma derrota histórica na semana passada, o que prova que nem só de crises vive a consciência política dos eleitores.

O descrédito quanto à salvação da banca à custa do rico dinheirinho da população afetada já atingiu nível tal que até mesmo Barack Obama veio a público dizer na semana passa que a solução para a Europa passa pelo crescimento, não pela austeridade. Rouco de tanto avisar, Paul Krugman deve ter dado pelo menos um sorriso de satisfação.

Para os que gostam de pensar que a sapiência do mercado ou a tecnocracia das ditaduras é o melhor caminho, assistir ao que se passa no Velho Continente pode ser uma importante lição de vida. O que está em curso hoje na Europa não é um mero reflexo da insatisfação do povo com seus governos. Não é sequer uma resposta ao domínio alemão na União Européia. É muito mais do que isso. É a prova cabal de que o voto vale mais do que o dinheiro.

E isso não tem dinheiro que pague.

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1 Response to The turn of the tide, ou A viragem democrática

  1. Avatar de Mourão Mourão disse:

    É, quando a Presidente do Brasil falou algo semelhante ao que o Obama disse, e teria sido duramente refutada pela Ângela Merkel, nossos ilustres “patriotas” demonstraram toda a satisfação por haver a Presidente do Brasil ter sido alvo do esculacho.. Pareciam até alemães, como muitos gostariam, mas não há mais vagas…

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