Sei que este post chega com algum atraso. Afinal, já faz alguns meses desde que um tosco chamado Rafinha Bastos disse que ia “comer” certa personalidade grávida e seu filho junto.
Mas como esse não foi o primeiro e não será o último episódio do Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País) atual, ainda é tempo de deitar uma palavra ou duas sobre esse fenômeno.
Em 1977, Andy Warhol profetizou que, no futuro, toda pessoa teria seus 15 minutos de fama. Não se trata de uma profecia auto-realizáveis, do tipo daquelas que, feitas, fazem com que todo mundo corra atrás e resultem na sua própria confirmação. Warhol percebeu o impacto da midiatização das relações sociais sobre o gênero humano. Num mundo em que ou você é famoso ou “é ninguém”, toda gente faria alguma coisa para tornar-se “alguém”. A obsessão pela fama produziria aberrações de toda espécie, da qual o conceito de “ex-BBB” é o exemplo mais marcante em nosso país.
Forte nisso, muitos dos artistas descobriram que a polêmica é o caminho mais fácil para alcançar o estrelato. A busca pelo estrelato tornou-se uma escalada em direção à polêmica. Uma sucessão de factóides cada vez mais “chocante” e “impactante”, de modo que cada fato fosse mais “polêmico” que seu predecessor.
Para buscar a polêmica, alguns tópicos são ideais. Igreja Católica, por exemplo. Quando Madonna compôs Like a prayer provavelmente pensou apenas numa canção de amor. Afinal, de when you call my name it´s like a little prayer não dá pra tirar nada além de quando você chama meu nome é como uma pequena oração. Mas alguém deve ter tido a idéia de fazer com que, da menção a oração, pudesse se extrair alguma referência religiosa. O clip de Like a prayer, portanto, ganhou seu anjo negro em interações mundanas com Madonna.
A questão, aqui, não é inserir a referência religiosa como tema do produto artístico, mas simplesmente “chocar” o público e, com isso ganhar mais audiência. Nesse aspecto, a Igreja Católica é imbatível. Sempre que batem ela responde, aumentando a repercussão da polêmica.
Guardadas as devidas diferenças, foi exatamente o caso de Rafinha Bastos. Humoristas há pelo Brasil aos milhares. No Ceará, então, eles dão como chuchu em pé-de-serra. Para se diferenciar, alguns desses “comediantes” buscam a polêmica fácil, as frases sensacionalistas, o “choque” da opinião pública. Fazem isso não por serem pessoas naturalmente polêmicas. Fazem simplesmente para buscar a repercussão midiática, para aparecem para o público como pessoas “de atitude”, “pensantes”, e não simplesmente “mais um” dentre muitos.
John Lennon, por exemplo, quando disse que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo, fê-lo não para buscar a polêmica, mas para suscitar uma discussão sobre a qualidade e o conteúdo da pregação cristã. Até porque, é difícil imaginar que um sujeito como ele buscasse fama ainda maior.
No caso de Rafinha Bastos, felizmente o feitiço virou contra o feiticeiro, e mais um pseudopolêmico despontou para o anonimato. Tomara que esse caso tenha servido de lição para os outros. Afinal, nada tem mais atitude do que ser você mesmo, e não um personagem caricato.