1964: golpe ou contra-golpe?

Uma das discussões mais severas entre historiadores, jornalistas e mesmo pessoas que viveram à época é saber a natureza do movimento que derrubou João Goulart em 1964.

Para parte das pessoas, o levante militar de 1964 foi simplesmente um golpe de estado para derrubar um governo eleito democraticamente. Para outra parte revisionista e, principalmente, para os militares da época, o movimento foi uma reação a uma tentativa de golpe a ser deflagrada por João Goulart.

Em resumo, a pergunta é: 1964 foi um golpe ou foi um contra-golpe?

Livros e livros já se escreveram sobre o assunto. E, claro, não será este que vos escreve a dar a última palavra nessa matéria. Até porque não tem idade suficiente para ter presenciado os acontecimentos, e o relato passado por outros é sempre menos preciso do que o vivenciado pela própria pessoa.

A tese do golpe é mais aceita e mais difundida. Para isso, foi decisiva a influência de toda uma geração de historiadores de esquerda forjados e marcados – às vezes literalmente – pela ditadura que desgraçou o país por 21 anos. Mas é justamente esse relato passional dos fatos que talvez tenha dado azo ao revisionismo histórico da natureza do golpe de 64.

Elio Gaspari – um esquerdista de origem -, por exemplo, abraça a tese do contra-golpe. No primeiro livro da série Ilusões Armadas (A ditadura envergonhada), Elio relata os antecedentes históricos do golpe. E não são poucos os indícios de que Jango estava a tramar um golpe contra as instituições democráticas. Há, por exemplo, o episódio de sublevação dos marinheiros, explicitamente apoiado pelo presidente no comício da Central do Brasil. Há, também, a montagem do dispositivo militar pelo General Assis Brasil, segundo o qual, a qualquer sinal de levante militar, as forças leais ao governo desencadeariam uma reação rápida e fulminante. Fora isso, há ainda os episódios de populismo, como o aumento de 100% do salário-mínimo e as afirmações de que faria a reforma agrária “na marra”.

É fato: Jango detestava os militares (ou pelo menos a maior parte deles). E a recíproca era verdadeira. Jango jamais engoliu o veto dos ministros militares à sua posse em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. E os militares, com seu medo de “cubanização” do Brasil, viam no cunhado de Leonel Brizola (à época governador do RS) a sombra do perigo vermelho.

Jango fez muita besteira no governo, ninguém nega. Mas a definição do movimento de 1964 não depende das ações do governo, mas da intenção por trás delas.

Para os adeptos da tese do contra-golpe, quando Jango apoiou a sublevação dos marinheiros, pretendia reforçar seu apoio na base militar, ao mesmo tempo em que desprestigiava a alta cúpula, visando a facilitar sua substituição em “caso de necessidade”. Os espasmos populistas são creditados à tentativa de obter o apoio da massa popular, tal qual fizera Getúlio, prevenindo-se contra reações da população contra eventual golpe.

O problema é que nenhum desses fatos indica, necessariamente, a tentativa de golpe por parte de Jango. Jango poderia ter apoiado os marinheiros só como forma de demover os ministros militares de conspirarem contra seu governo, algo que já era feito à luz do dia. Tipo: “Se quiserem me derrubar, terão contra si seus próprios comandados”. E as medidas populistas poderia ser perfeitamente criticadas a uma jogada política, para garantir respaldo popular ao seu governo, desacreditado pela classe média e pela elite pelo desgoverno econômico (inflação alta e crescimento baixo).

Na minha modesta opinião, todos esses movimentos eram “vacinas” contra o golpe que se avizinhava. Até o mesmo o propalado “dispositivo” militar não serve como fundamento a amparar a tese do contra-golpe. Tanto é que só depois de o General Mourão ter descido as Minas Gerais com suas tropas em direção ao Rio de Janeiro iniciou-se algum movimento militar do dispositivo. Tratava-se, claramente, de uma medida de prevenção. Se se estivesse realmente pensando em golpe, o dispositivo deveria, por definição, atuar à frente dos fatos – isto é, primeiro -, não em reação a outro golpe.

E, contra fatos, não há argumentos. Nenhum levante militar foi desencadeado pelo governo. Todas as sublevações partiram dos golpistas. Se de fato estivesse em curso um movimento golpista liderado por Jango, é de se supor que ao menos algum tipo de resistência militar houvesse. Afinal, ninguém dá um golpe do nada; é preciso forte apoio militar para a empreitada.

Dado que o golpe de 1964 durou apenas umas poucas horas (começou no dia 31 de março e terminou, sem trocadilho, no dia 1º de abril), fica difícil acreditar que Jango tivesse engendrado algo do gênero.

Apesar da passionalidade e da parcialidade dos relatos, penso que, nesse caso, os historiadores esquerditas tinham razão: 1964 foi um golpe. Golpe do qual até hoje sofremos as conseqüências, e sabe-se lá se um dia conseguiremos superá-lo.

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