A saga de um poeta pernambucano

A geração da Semana de Arte Moderna de 22 foi, sem dúvida, a mais talentosa da história, ao menos tem termos de poesia. Nenhum outro movimento poético foi mais profícuo na produção de talentos do que o modernismo.

No meio de tante gente boa, havia porém um pernambucano miúdo, tímido, retraído mesmo, provavelmente por conta dos inúmeros problemas de saúde que o acompanhavam desde sempre. Chamava-se Manuel Bandeira

Bandeira era um gênio. Alguns poetas escreviam poemas belíssimos, mas eram poucos. Outros escreviam muitos poemas bons, mas poucos eram excelentes. Bandeira foi, depois de Drummond, quem, na minha modesta opinião, escreveu mais poemas fantásticos dentre os poetas brasileiros do século XX.

Nascido no Recife, Bandeira foi menino ainda para o Rio de Janeiro. Voltou à cidade natal por diversas vezes, mas, verdadeiramente, jamais a abandonou. Pernambuco em geral e Recife em particular sempre estiveram presentes na poesia de Bandeira.

Quando sua família se mudou para São Paulo, ingressou na Escola Politécnica, onde queria cursar a arquitetura. Tenta também começar a carreira de músico, mas logo vê que não nascera praquilo.

Bandeira desde muito cedo foi diagnosticado como tuberculoso. Se há algo além da terra natal que acompanha a sua poesia desde sempre é a sua doença. Em 1910, quando recebeu o diagnóstico, perguntou ao médico se não seria possível tentar algum tipo de procedimento médico para curá-lo. Diante da negativa do médico, escreveu Pneumotórax, um de seus poemas mais famosos:

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Com a tuberculose, desenvolveu uma relação de amor e ódio, quase patológica. Ao mesmo tempo que se ressentia das limitações impostas pela doença, Bandeira adorava cantá-la em prosa e verso. Desencanto é o exemplo mais bem acabado da fase depressiva dessa relação:

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

Na fase maníaca, Auto-retrato espelha sua, digamos, “afeição” pela tuberculose, ao se autodenominar um tísico profissional:

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Constrito pelas circunstâncias, Bandeira produzia o escapismo viajando para terras imaginárias. E como eram belas as terras imaginadas por Bandeira! Vou-me embora pra Pasárgada é um clássico definitivo:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da hora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei e bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada…

Já no final da vida, Bandeira parecia resignado com o fim de sua existência. Como que convidava a indesejada das gentes para vir visitá-los, pois encontraria lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa no seu lugar.

Mas Bandeira escrevia também sobre o amor. E, pra terminar, um de seus melhores poemas, Madrigal melancólica:

O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é a vida!

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1 Response to A saga de um poeta pernambucano

  1. Avatar de Kellyne Kellyne disse:

    Lembro-me das aulas de literatura em que o professor dizia que Bandeira passou a vida esperando a morte, como retratam os seus poemas. Mas não se pode dizer que ele não soube aproveitar muito bem essa espera… Belo post! bjos

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