A Guerra do Yom Kipur

Depois da humilhação imposta aos vizinhos na Guerra dos 6 dias, é possível que o exército israelense tenha ficado presunçoso. Afinal, derrotar simultaneamente de forma assim, tão fulminante, três adversários em menos de uma semana – convenhamos – deixaria qualquer um com o moral elevado. Para enfrentar Israel, seria necessário muito mais poder de fogo e muito mais coordenação. Do contrário, a derrota seria certa.

Egito e Síria achavam que tinham aprendido a lição. Em segredo, ruminaram um plano de guerra pretensamente coordenado, rápido e letal. Seu objetivo seria contradizer o que ocorrera nas guerras anteriores. Em menos de uma semana seriam os árabes a tripudiar em cima do Estado judeu.

Em favor dos egípcios e dos sírios, diga-se que o fator surpresa eles conseguiram alcançar. Ao contrário do que ocorrera na Guerra dos 6 Dias, em que Eli Cohen passara a Israel um raio-X geral das forças inimigas, permitindo o ataque fulminante, o segredo imperou em todo o planejamento. Quem conta o que se passou é Elio Gaspari:

“Ao alvorecer de 6 de outubro, Dia do Perdão no calendário religioso judaico, 2 mil canhões egípcios abriram fogo. Dois corpos de exército invadiram o deserto do Sinai. Do outro lado avançaram duas divisões sírias. SOmadas, as tropas que atacavam Israel tinham um efetivo maior que as forças da OTAN. Dois dias de combate levaram o Estado judeu às portas do desespero. “O Terceiro Templo está ruindo”, advertia o general Moshe Dayan, chefe do estado-maior do exército, legendário herói de duas guerras, mundialmente conhecido pela venda negra que lhe cobria o olho esquerdo”. (A Ditadura Derrotada, p. 260)

Os egípcios retomaram o Sinai e chegaram a avançar 15km dentro do território israelense. A Síria reconquistara as colinas de Golã. Tudo levava a crer que, dessa vez, a história seria diferente.

Mas, apoiados pelos americanos, que conseguiram estabelecer uma ponte aérea para fornecimento de armas, o exército de Israel começou a virar o jogo. Cinco dias depois do ataque, o exército judeu já expulsara as tropas sírias das colinhas de Golã e caminhou em direção a Damasco. No décimo dia, detruíra todas as divisões blindadas do Egito, retomara o Sinai e ficou a apenas 100km do Cairo.

Mais uma vez, soviéticos e americanos impuseram um cessar-fogo. Mas o jogo já estava jogado. Israel mostrara novamente que não conhecia oponentes à altura na região.  Com a ajuda dos Estados Unidos, militarmente ninguém poderia lhe fazer frente.

Sem alternativas militares à mão, os árabes resolveram jogar outro jogo. E decidiram atacar o bolso do padrinho do Estado judeu. Numa reunião da OPEP, subiram o preço do barril de petróleo em 70%.A fase de prosperidade experimentada desde o fim da II Guerra – chamada de A Era de Ouro por Eric Hobsbawn – chegava ao fim.

Essa foi a principal conseqüência da Guerra do Yom Kipur. E talvez esta tenha sido a implicação mais profunda de todas as guerras do Oriente Médio. O primeiro choque do petróleo foi o prenúncio da maioria das crises econômicas subseqüentes. Em 1974, Nixon abandonou o padrão-ouro e desvalorizou o dólar.Isso levou ao aumento da inflação e, posteriormente, à triplicação da taxa de juros americana no começo do governo Reagan. Isso levou meia América Latina à breca – Brasil incluso – e decretou como “perdida” a década de 80.

No Brasil, dependente à época da importação de 90% do petróleo que consumia, o Milagre Econômico começou a fazer água. Com isso, acabara-se a “legitimidade” econômica dos militares que prometiam “Ditadura e Progresso”. Uma crise no Oriente Médio redundaria na redemocratização do Brasil em 1985.

E tem gente que não acredita em efeito borboleta…

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