A “alternativa” energética brasileira

Hoje saiu a notícia de que o Governo vai formar um estoque regulador de álcool para impedir aumento nos preços. Além disso, o Governo vai obrigar a Petrobras a aumentar sua participação no mercado produtor de etanol, visando a garantir poder de controle sobre a oferta e a demanda de álcool combustível. Vendo de fora, fica-me sempre a impressão de um sujeito tentando enxugar uma barra de gelo. Pra explicar o porquê, é necessário voltar um pouquinho no tempo.

Como todo mundo sabe, o etanol é obtido a partir da cana-de-açúcar, planta da qual se extrai, também, o açúcar nosso de cada dia. Apesar de a tecnologia para fabricação do álcool ser relativamente velha (anos 20), foi somente na década de 70 que o Brasil resolveu investir pesado no álcool como “alternativa” ao petróleo. “Alternativa” assim mesmo, entre aspas, porque o álcool só resolvia parte do problema: a fabricação de combustível para motores a explosão (gasolina e, eventualmente, diesel). Pros outros produtos, como o nafta e o plástico, a cana não resolve nada.

O preço do petróleo quintuplicou do dia pra noite e, no final da década, já havia decuplicado. Isso abriu um rombo gigantesco nas contas externas brasileiras, já que, na época, o Brasil importava praticamente 90% do petróleo que consumia.

O governo criou um programa – Pró-álcool – e concedeu subsídios para a plantação e instalação de diversas usinas, destinadas a suprir as necessidades do país. Concedeu até mesmo incentivos à indústria automobilística, para que fabricasse carros movidos a álcool, ao invés de gasolina, como forma de diminuir a dependência externa. Com o tempo, e especialmente por conta dos subsídios, os brasileiros passaram a comprar mais e mais carros movidos a álcool, a tal ponto que, em 1986, 98% dos carros fabricados tinham motores movidos a etanol. Tudo parecia caminhar bem.

Parecia.

Quando alcançamos o apogeu do álcool combustível, o país descobriu que a “alternativa” tinha um grave inconveniente: era produzido por usineiros. Como na época não havia motores flex, os motoristas que compraram carros movidos a álcool ficaram na infeliz situação de reféns dos usineiros. Toda vez que precisavam de dinheiro, reclamavam com o governo. Diziam que o preço do açúcar tinha subido, que não era vantajoso produzir álcool nessas condições e, invariavelmente, conseguiam extorquir algum da bolsa da Viúva. Quando não conseguiam, paravam as máquinas, e os incautos consumidores formavam filas quilométricas nos postos em busca de uma gota de combustível para andarem em seus carros.

Hoje, com a invenção dos motores flex, o problema diminuiu de tamanho. Mas não acabou. Isso porque à gasolina produzida no país é adicionado um percentual de 25% de álcool. Sim, mesmo quem abastece com gasolina está comprando um pouquinho de álcool também. É por essa razão que todos os motores de carros importados têm de ser adaptados à “gasolina brasileira” para poderem rodar sem problemas. Faz isso sob o pretexto ecológico: diz-se que polui menos. Há controvérsias, porque, ao fazerem isso, a eficiência energética do motor é diminuída. Tenho lá minhas dúvidas se, no frigir dos ovos, não ficam elas por elas. Além disso, fica difícil falar no álcool como combustível ecológico quando se sabe que, nas viradas de safra, os usineiros põem fogo nos restos para facilitar o replantio. (Queimam a terra, poluem o ar, e vêm falar de ecologia. Vai entender).

O fato é que, nessas condições, os produtores de álcool têm assegurados por lei um mercado cativo para seu produto. Mesmo que não encontrem mercado para o álcool, ainda assim a Petrobras terá de comprá-lo para misturá-lo à gasolinha. Por isso mesmo, estão se lixando para o que o consumidor pensa deles. É o capitalismo com risco zero.

Certa vez, enquanto conversava com Grandpa, a “alternativa” energética brasileira acabou entrando na pauta. Como Grandpa insistisse em criticar o álcool combustível, perguntei-lhe:

“Mas o senhor não acredita no álcool como solução energética?”

Ironicamente, ele respondeu:

“Tanto quanto acredito em usineiros”.

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2 Responses to A “alternativa” energética brasileira

  1. Avatar de nilci nilci disse:

    então que solução vc daria para diminuir as emições de gas poluentes provindo principalmente do petroleo e seus derivados. Não estou lhe criticando apenas fiquei curiosa com o assunto já que estudo meio ambiente.me envie uma resposta e se possivel noticias sempre ao meu e-mail

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      Soluções há, Nilci. A questão é disposição (leia-se: $$$) para investir em tecnologia alternativas. Para os carros, há a opção dos movidos a eletricidade, opção na qual eu pessoalmente não boto muita fé. E há outra, do hidrogênio, muito mais cara, mas totalmente viável e renovável. Acho que essa seria a melhor alternativa. Isso pra ficar nos carros, porque, em se tratando de geração de energia elétrica, a eólica já é uma realidade (quase o mesmo preço da térmica a gás) e, claro, a energia solar, que vai depender ainda do desenvolvimento para se tornar financeiramente viável. Há, ainda, a opção nuclear. Sobre esse assunto, veja o post “Energia nuclear: sim ou não”. Abraços.

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