A judicialização da vida, ou o sábio exercício da tolerância

Virou moda essa história de “judicialização” da vida. “Judicialização” da política, “judicialização” do ensino, “judicialização” dos jogos de peteca…enfim, tudo quanto é discussão acaba, invariavelmente, terminando na porta de um tribunal.

À primeira vista, isso pode parecer sintoma de uma maior conscientização da população quanto aos seus direitos. Erros e atitudes que antes eram vistos com naturalidade e, até certo ponto, tolerados por conta da ignorância do cidadão, agora não o são mais. Exemplo típico são os casos de abuso de autoridade de servidor público. Ninguém mais agüenta calado um desmando de uma autoridade qualquer, principalmente quando o sujeito está convicto de que tem razão. Quando isso acontece, vai direto na corregedoria do órgão, no Ministério Público ou até mesmo na imprensa para denunciar a figura.

A porca começa a entortar o rabo quando situações triviais e cotidianas, que deveriam passar despercebidas, começam a desaguar no Judiciário. Os exemplos são vários: discussões de trânsito, brigas de meninos nas escolas, xingamentos recíprocos entre políticos, e até mesmos as traições entre os consortes. Tudo – mas tudo MESMO – tem chegado DEMAIS às vias judiciais.

Não nego que a pessoa, na maioria dos casos, tenha direito. Afinal, quem não gostaria de processar um sujeito que, além de te dar uma trancada na rua, ainda se sente no direito de te xingar? Ou quem, em defesa de um filho que foi zoado por um coleguinha na escola, não gostaria de dar uma boa lição aos pais do moleque? E quem, tendo levado um belo par de chifres, não gostaria de tirar até o sangue do infeliz?

Mas a pergunta que se deve fazer não é essa. A pergunta é: será que vale a pena movimentar a máquina judiciária por algo tão banal?

Desde sempre, pessoas xingam-se, zoam-se e traem-se reciprocamente. No entanto, antigamente isso resultaria em pouco mais do que um bate-boca, um puxão de orelhas ou, quando muito, vias de fato, mesmo. Nada disso chegava ao Judiciário. Políticos xingavam-se uns aos outros – às vezes, as respectivas mães, também – e nada disso se resolvia na Justiça; resolvia-se na urna. Hoje, se chamar um ministro de incompetente, você se arrisca a responder a um processo penal por injúria e outro, cível, por danos morais.

É aí, a meu ver, que surge o problema dessa “conscientização” da população. O sujeito se acha “cheio de direito”, se acha com direitos demais. Direito de levar até mesmo a chateação com o vizinho mala à frente de um juiz para decidir quem tem razão sobre o latido do cachorro.

É necessário resgatar o exercício da tolerância entre as pessoas. Certas coisas devem ser resolvidas entre as partes; não é necessário chamar o Estado para resolver entre elas. A conscientização, infelizmente, não veio acompanhada da “educação”. “Educação” para reconhecer que infortúnios e pequenos incidentes do dia-a-dia fazem parte da vida, e não faz sentido transformar toda pedra topada em um cavalo de batalha.

Antigamente, vivia-se com “menos direitos”. Mas me arrisco a dizer que, mesmo assim, vivia-se melhor.

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6 Responses to A judicialização da vida, ou o sábio exercício da tolerância

  1. Avatar de rodriguesjr rodriguesjr disse:

    rapaz, me lembro que da minha infancia que quando a gente brigava na frente dos pais eles apenas serviam pra impedir que o pai do outro ou os amigos de um ou outro interferisse. na melhor das hipoteses serviam de juiz e olhe, olhe. crescemos acreditando que as coisas tinham que ser resolvidas entre a gente, na base do bate boca ou no maximo na porrada. juiz só pra processar ladrão (de todos os niveis) ou o governo por conta de algum direito.

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      Pois é, Rômulo. É justamente isso que eu quero dizer. Parece que, quanto mais o tempo passa, menos tolerantes as pessoas ficam. É uma pena. Nesse caso, a Justiça, ao invés de promover a pacificação social, contribui para a desordem. Abraços.

  2. Avatar de Samantha Elias torres Samantha Elias torres disse:

    Sei que irei por outro caminho, porém, concordando inteiramente com o seu raciocínio.
    Pensando na questão da crescente intolerância, acabo entristecendo por perceber que ela é proveniente, entre outras causas, do isolamento pessoal. Entendo-o como o próprio desconhecimento do ser, que acaba levando o sujeito a ser só e sentir-se só (o que é pior!), triste e vazio.
    Afinal, como poderei me relacionar, amar, respeitar, ter intimidade, aceitar limites e regras se nem mesmo me conheço? Se penso ser quem não sou?!
    Legal seria se nos amassemos mais. Termos bem desenvolvido o amor-próprio e o amor de uns pelos outros. Assim haveria mais tolerância, justiça, o cuidado com o outro,respeito…

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      De fato, Samantha, acho que essa também é uma linha de raciocínio. A pessoa de bem consigo mesma normalmente tende a relevar os deslizes alheios, pois é tão superior aos pequenos erros que não acredita ser razoável perder tempo com bobagens. Mas, como você disse, nem todo mundo é assim. Se realmente as pessoas se amassem mais, as coisas seria bem melhores.

  3. Avatar de Ana Ana disse:

    Desculpem mais este discurso e extremamente perigoso e elitista. A fala ‘ surge o problema da conscientizacao’ ‘ direitos demais’ . E uma fala criminosa para a democracia e boa convivencia. Nao e possivel tolerar a usurpacao do direito. Assim como nao existem direitos demais. Existem direitos.Logo, nao existe problema na cosncientizacao deles. Existe solucao nela. Nao culpem o correto. Corrijam o errado e teremos uma sociedade mais fraterna.

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      Acho que você deveria reler o texto com mais cuidado, Ana. Em momento algum defendi quem estava errado. A questão é que, em certos casos, não faz sentido transformar aborrecimentos cotidianos em batalhas judiciais. Não se constrói uma sociedade melhor e mais fraterna como você disse simplesmente chamando o Estado para resolver toda e qualquer discussão. São os próprios cidadãos que têm de tomar consciência da necessidade de resolverem as pequenas questões entre eles mesmo, sem que seja necessário movimentar a máquina judicial para isso. Um abraço.

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